terça-feira, 24 de outubro de 2017
Nada Pop

Lomba Raivosa: o melhor álbum da pior banda (mentira) do mundo!

O último registro sonoro da Lomba Raivosa aconteceu há pouco mais de dois anos. “Feijoada & Choripan”, split lançado em 2014 de forma conjunta com os argentinos do Reject, continuava apresentando uma banda sarcástica e cheia de energia em comparação aos discos anteriores do grupo: Puta Pegueira, Cacete! (2011), Trinda (2012), Choula (2013). Isso sem falar em outros sons da banda, como o EP em homenagem ao Ramones, intitulado The Animal Boy, e nem as diversas coletâneas que o grupo participou, por exemplo, o tributo ao Holly TREE, o álbum em homenagem ao Teenage Bottlerocket e, o mais recente deles, chamado Subtributo, em respeito aos 40 anos do punk no Brasil e que traz reinterpretações de canções clássicas do álbum SUB, lançado em 1983. Nesse disco, a Lomba participa com uma versão de Histeria, do Cólera.

Uma banda sempre em atividade seja gravando ou em shows, que se destaca pela vontade de agradar em primeiro lugar a si mesmo e sem quaisquer amarras quando o assunto é se autodepreciar ou desrespeitar dogmas ou valores “morais”. O discurso de pior banda do mundo que os caras se auto intitulam esconde, na verdade, o sentimento de que eles não esperam ganhar nada fazendo o que fazem e, ao mesmo tempo, não querem que ninguém espere algo deles. Sejamos todos livres em busca de coisas que possam nos aliviar de toda a pressão que o mundo já despeja em nós.

Assim, foi com muita surpresa que o Carpe Lobem, novo álbum da Lomba Raivosa!, lançado em abril pelos selos Laja Records e RedStar Recordings, traz uma banda muito mais madura, ainda com aquelas letras sarcásticas e engraçadas, mas com um pouco mais de acidez e sentimento, indo além de todos os discos anteriores e se mostrando uma banda mais consciente do seu próprio som, mas sem perder a sua essência e conseguindo ser ainda melhor do que ela poderia ser.

Conversei com o Tércio Testa, guitarrista e vocalista da Lomba, e questionei o que esse disco tem de tão diferente em relação aos outros trabalhos da banda. Ele foi rápido em dizer que pela primeira vez consideram o disco realmente bom. “Na real, todo processo de composição, gravação e lançamento foi meio peculiar porque a gente vem navegando num mar de zicas pessoais há muitos anos, uns quatro pelo menos. Ensaiamos quase nada para a gravação, finalizamos as 16 músicas dias antes de entrar em estúdio e pela primeira vez não gravamos o disco durante um único fim de semana, sendo que essa também foi uma enorme diferença, porque ansiosos como somos, foi meio complicado gerenciar a ‘demora’, mas no fim do dia foi a melhor coisa que a gente fez”, explica.

Comentei também sobre as letras do novo álbum, ainda mais ácidas do que o comum do grupo. Seria esse um amadurecimento da banda, perguntei. Testa demorou um pouco mais para responder essa, mas no fim disse que considera ter sido uma mistura de “zicas” na vida de cada integrante e que, definitivamente, eles não conseguem escrever sobre coisas felizes. “Às vezes conseguimos, como no caso de Caçador de Querubim, mas é uma baita exceção. A verdade é que a gente se sente cada vez mais velho e cansado de muita coisa nessa vida e isso reflete nas letras, com certeza”, diz. Testa ainda dá como exemplo perfeito disso a faixa Normal, escrita pelo César Passa-Mal, que dá o tom do álbum sendo um retrato fiel de um período sombrio vivido pelos integrantes, que somado ao contexto do álbum, pode ser considerado um compilado poético depressivo, principalmente nas faixas Sabor de Desespero e Eu, Testa.

Talvez, por isso mesmo ter uma banda seja um fator de equilíbrio na vida de qualquer músico (amador ou não), principalmente quando se pode contar com os outros integrantes da banda também fora dos palcos. São sete anos juntos, sem qualquer boato de briga, contabilizando porres e risos. Algo que pode ser considerado difícil de encontrar em outros grupos com essa “idade” ou até menos. O provável sucesso da banda nesse sentido seja o fato deles sempre entenderem as fases pessoais uns dos outros.

“Assim como em toda relação, sempre rola aquele momento em que um tá mais fodido que o outro e a gente tenta se ajudar o máximo que dá. Esses últimos anos foram bem complicados pra gente, fizemos pouquíssimos shows (se comparado com os anos de 2012 e 2013), gravamos pouca coisa, embora não tenhamos ficado sem gravar nada, o que é importante, mas estamos tentando botar ordem na casa agora”, conta Testa. Pode-se dizer que, internamente, o lançamento de Carpe Lobem também representa uma vitória para o grupo diante de todas as dificuldades particulares dos últimos anos.

Lomba Raivosa em ação!

Em algumas faixas é nítido que há algo além de uma inspiração diante de um momento pessoal. É quase um desabafo, que se pode até chamar de exorcismo musical. Faixas como “Eu Nunca Tô Feliz”, “A Elite Perfumada, Bem Vestida e Interesseira do Underground”, “Normal”, “Sanidade na Metade” são algumas das faixas mais interessantes do álbum. Minha preferida, no entanto, é “Eu, Testa”, que arrancou lágrimas de identificação e que, de certo modo, conseguiu me bloquear por um tempo antes de escrever esse texto. Fiquei pensando se outras pessoas poderiam ter sentido o mesmo que eu senti e foi com certa alegria que o próprio Testa me confirmou isso.

“Algumas pessoas têm vindo comentar que se relacionaram pra caramba com várias letras do disco e é ótimo saber que você não está sozinho com suas frustrações, desgostos, enfim… na real, tá todo mundo enfiado nesse tsunami de doideira que é a vida adulta e muitas vezes você não vê saída pra nada. Tá tudo tão frenético que muitas vezes você não aguenta mesmo e praticamente entra em colapso. Podiam ter me avisado que crescer seria assim. Não curti essa surpresa não, bicho…”.

Entrando neste assunto, foi impossível não questioná-lo sobre os álbuns que de algum modo também causaram esse mesmo sentimento. Dicas preciosas surgiram a partir disso e deixo a resposta na íntegra junto com alguns links.

“Os últimos álbuns que me pegaram de jeito mesmo foram os dois CDs da DeeCracks, “Attention! Deficit Disorder” e o “Beyond Medication” que, pra mim, são perfeitos. Os caras viraram uma das minhas bandas favoritas. Outro é o disco do Dan Vapid And The Cheats “S/T”, pois piro em Riverdales e o Dan Vapid consegue arrumar melodias sei lá de onde, fora as letras que são demais e esse disco é absurdo. O último do Interrupters também me surpreendeu e não tem um refrão ruim. Alguns outros foram o “Protection”, do Face To Face, sendo que eu não era fã, nem ouvia e simplesmente me rendi. Acho que ultimamente foram estes aí”, resume.

Lomba Raivosa! – Foto Marco Del Giorno

Nossa conversa partiu para o apoio da Laja Records e da RedStarRecordings no lançamento de Carpe Lobem. Selos super conhecidos na cena underground e que muitas bandas sonham em fazer parte. Testa explicou que sem esses selos seria muito difícil levar o som da Lomba Raivosa para tantos lugares, sendo comum alguém – de diferentes cantos do país – entrar em contato e falar que conheceu a banda por conta do selo da Laja, por exemplo. “Tem sido do caralho tudo isso e o Mozine (Laja) e o Jef (RedStar) são duas feras que a gente admira pra caralho. No fundo, pra gente, são amigos antes de tudo e é isso o que importa pra gente, independente da banda. Óbvio que se não fosse pela Lomba Raivosa!, talvez nem os conhecêssemos, mas enfim, você entendeu, né?”. (risos)

Para encerrar, perguntei algo clichê, mas que dependendo do grupo (como é caso) pode sair algo no mínimo interessante. A pergunta foi: por que ainda vale a pena ter banda e o que ela representa na sua vida? Abaixo a resposta também na íntegra do Testa, encerrando esse papo e essa resenha que no final só quis dizer que Carpe Lobem é um dos melhores álbuns de 2017 e o meu preferido da Lomba Raivosa até o momento. Senhoras e senhores, com a palavra Tércio Testa:

“Porque não tem um aspecto ruim no fato de se ter uma banda. É tudo legal, até quando é ruim! A banda representa tudo o que eu sou hoje como pessoa e também como parte desse movimento todo que é o underground que, por pior que pareça, ainda segue forte principalmente fora de São Paulo. Tocar em uma banda me ensinou coisas que jamais aprendi na escola ou em família (como um todo). Acho que só sabe mesmo quem toca, quem se aventura com seus amigos por aí afora, passando perrengue, mas colecionando histórias inesquecíveis que é o que vale, no fim das contas. Tem uma frase da ex-banda do Passa-Mal (baixista doido da Lomba), The Razorblades, que resume perfeitamente a minha opinião sobre essa sua pergunta: You”ll never understand it, because you never lived it!* É isso!”.

*Você nunca entenderá, porque você nunca viveu isso!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.