segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Nada Pop

Levei um murro da Krias de Kafka na Red Light Duplex, em Santo André

Diante do caos da cidade, da circulação com velocidade reduzida e maior tempo de parada, do medo da grana nos bolsos ser insuficiente para o salgado podre na estação e, após sair do aperto no vagão, vou de encontro ao show da Krias de Kafka lá no Red Light Duplex, que fica no centro de Santo André.

Foram 20 minutos, talvez menos, da estação Prefeito Celso Daniel até o local do show, no caminho observava lojas fechadas, gente apressada e ficava me lembrando da primeira vez que ouvi a banda em meus fones de ouvidos velhos. O Amor é Fudido ou Neu, Leila ou Tirinha? Não importava qual era a canção primogênita, mas o impacto causado na carne por frases como “O tempo vem me ajudando a morrer já faz uns anos”, “Cheio de doces e distâncias/ sorrio no sinal fechado”, “Eu já cheguei em casa cheirando a cachaça, você sentada no quarto uma rosa cheia de espinhos e eu querendo sangrar sozinho outra vez” e “Eu já quis morrer mais de três vezes”.

O pico era um bar, maior do que imaginava com sofás, mesas e cadeiras, um longo balcão, bebidas, drinks, comida e mais sofisticado com o que estou acostumado, porém simples no estilo e com uma iluminação que realçava o ambiente amigável e o clima de que “esse é um bom lugar para se estar hoje”. Contei novamente os trocados, pedi um pão com queijo e tomates, um suco de uva em lata: R$ 12. Cumprimentei o Mateus Novaes, vocalista da Krias, fui me sentar no balcão de frente para a chapa, onde uma moça com a camiseta amarela da Giallos preparava os lanches com a mesma facilidade que Ronaldinho Gaúcho driblava zagueiros na Europa.

Vi o Claudio Cox, da Giallos, botando a sua playlist para tocar no espaço enquanto os últimos ajustes para o show eram feitos – tipo, montar o equipamento. “Vou comer e depois vou cumprimentá-lo”, pensei. Que falta de educação da minha parte, mas a fome era tamanha – aposto que ele nem vai ligar. O lanche era realmente bom, será que peço mais um?

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Krias de Kafka no Red Light Duplex – Foto: Maurício Martins

Conversando em seguida com o Cox, descubro que ele é responsável por agitar as noites na Red Light, seja atacando como DJ ou convidando bandas para tocar. O espaço não é novo, mas mudou há pouco tempo de endereço e com isso se tornou mais um local para bandas se apresentarem no ABC Paulista. A proposta de trazer bandas para tocar numa terça-feira mostra que estamos começando a sair daquele pensamento pequeno de shows apenas de quinta à domingo – isso quando não é de sexta ou sábado (apenas!). Não diga que é puxado, puxado é trabalhar de segunda a sexta e não pensar em sair do seu mundinho confortável de Netflix. Alienação não é só Globo.

Às 21h30, assim mesmo, em ponto, começa o show da Krias de Kafka. O público, muitos amigos e conhecidos da banda, inicia de forma tímida uma dança ao mesmo tempo em que canta baixo as letras do grupo. Mas foram só os primeiros instantes de show, a sinergia começa e o que era para ser um simples show de rock se transforma e transborda poesia, riffs e batidas – a cadência cresce e faz aumentar a sensação de culto ao sagrado momento da vida que nos dá todo e pleno direito de sermos algo além do que empregos, família, números e indivíduos/engrenagens dentro de uma roda que gira de forma infinita e sem sentido.

Novas músicas foram incluídas no repertório e que mostram a banda ainda mais afiada para o próximo álbum, que espero seja lançado em breve. Mas os clássicos da banda estavam lá: “Leila”, “Coca-Cola e Diazepan”, “Balbucio”, “Tirinhas” e a última “Neu”, encerrando esse sagrado momento com todos gritando “O mundo não acaba nunca”. Mesmo com a vontade do público de que o show continuasse, Mateus em um sorriso de cansaço, diz que a banda também precisa beber. Correto , por isso um brinde ao Krias.

Parafraseando o próprio escritor Franz Kafka, “apenas deveríamos ouvir bandas que nos picam e que nos mordem. Se a banda que ouvimos não nos desperta como um murro no crânio, para que ouvi-la?”.

Krias de Kafka é um murro e uma mordida. Mesmo com a chuva caindo pesada em minha cabeça na volta para casa, a mochila molhada e os pés encharcados, não há palavras para descrever com muita fidelidade de como um show ainda pode nos fazer lembrar de que estamos vivos. Então viva, porra!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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