terça-feira, 24 de outubro de 2017
Nada Pop

Lendas do Underground: uma entrevista Letall com o Ação Direta Gepeto

Às vésperas de completar 3 décadas à frente de uma das mais respeitadas e influentes bandas do hardcore nacional e com disposição e coragem para começar do zero um novo projeto, o Nada Pop conversou com Gepeto, vocalista das bandas Ação Direta e Letall, sendo a última a sua mais nova empreitada, no primeiro episódio da série ‘Lendas do underground’, que vem para dar voz aqueles que tem muito pra dizer e que a gente sempre quis ouvir.

Preste atenção, porque o cara não tem medo nenhum de colocar o dedo na ferida e sabe muito bem do que tá falando.

ENTREVISTA NADA POP COM GEPETO – AÇÃO DIRETA E LETALL

NADA POP – Depois de tantos anos de estrada a frente de uma banda tão emblemática quanto o Ação Direta, ainda rola ansiedade e aquele frio na barriga nesses momentos que antecedem o lançamento do ‘Máquina de propaganda’, primeiro trabalho do Letall?

GEPETO – Com certeza! Rola sim aquela ansiedade, aquela expectativa! Foram 2 anos de trabalhos fortes para preparar as músicas, nos entrosarmos e nos lançarmos como uma nova banda! Tudo feito na velha batalha D.I.Y., então finalmente nosso álbum de estreia está chegando! Estou feliz com esse novo desafio nesse momento da minha carreira em que a AÇÃO DIRETA está a caminho de completar 3 décadas e eu estou aqui recomeçando e explorando algumas influências de raiz , tocando um som mais básico, novos músicos, novos amigos, uma nova banda!

NADA POP – Como tem sido a resposta do público aos dois sons que foram disponibilizados para streaming no Bandcamp?

GEPETO – Soltamos as músicas ‘3000 VOLTZ’, um punkão irado que traz na letra um mergulho ao submundo dos pichadores de rua, inspirada no documentário PIXO AÇÃO. A outra foi ‘MÁQUINA DE PROPAGANDA’, faixa que dá título ao álbum! Um HC irado! O feed back foi excelente! As pessoas se identificaram com os sons muito rápido e de forma natural! São musicas para serem cantadas nos shows! Espero que todos possam ouvir o álbum completo que está realmente muito forte!

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Letall e o álbum “Máquina de Propaganda”. Clique na imagem para curtir a página da banda no Facebook.

NADA POP – Como se deu o processo de composição do disco? As letras foram escritas por você? Elas costumam ser compostas antes ou depois da música?

GEPETO – Começamos como um trio, e as musicas foram surgindo através de takes gravados em computador, com baterias eletrônicas. Assim começamos a montar o repertorio da LETALL! Transformando ideias em takes! Esse processo se deu durante o ano de 2014 e estávamos trabalhando eu e os irmãos Wagner (guitarra), Gigante (baixo /vocal)! No início de 2015 comecei a ouvir os takes e mergulhei fundo em pesquisas, leituras e informações e comecei a escrever as letras e gravar algumas vozes guias. Não costumo escrever letras antes de ouvir as músicas. Gosto de ouvir os riffs, as bases, as batidas, os acordes, as linhas de baixo, a pegada, a intensidade. É meu jeito de trabalhar! As ideias para temas e títulos vêm dessas audições, do que as músicas estão pedindo!

Com os primeiros takes prontos era hora de convocar um baterista! Convidamos o Filipe Freitas para a função e a partir desse momento passamos a ensaiar forte e transformar aqueles takes no material do nosso álbum de estreia. Foram 4 meses de ensaios pesados até que em setembro a banda foi selecionada para participar do projeto CONVERSE RUBBER TRACKS no renomado STUDIO FAMILY MOB, em São Paulo. Entramos na pegada e foi um dia pra lá de especial que passamos junto com o Jean Dolabella, o André Kbelo e a equipe do estúdio! Passamos cerca de 9 horas no estúdio e gravamos cerca de 20/25 takes ao vivo das nossas 10 músicas! Guitarras, baixo e a bateria foram captadas ao vivo no estúdio.

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Letall: Gepeto (vocal), Wagner (guitarra), Filipe Freitas (bateria) e Gigante (baixo) – Crédito: divulgação

NADA POP – Ainda sobre as letras, as bandas independentes passaram anos convocando os ouvintes a uma maior consciência política e social. Você acredita que essa nova postura da população, de contestar, cobrar seus governantes e protestar por seus direitos possa ser fruto desse trabalho?

GEPETO – Hoje a informação se propaga rapidamente pelas redes sociais! As pessoas estão tendo acesso e a informação é imediata. Essa tecnologia mudou o comportamento das sociedades em geral.

As pessoas estão sofrendo muito por causa das péssimas gestões governamentais, do abandono do estado e da impunidade que assola! Todos os meios de comunicação de massa estão mostrando claramente manobras e impunidades, e a sociedade está pagando um preço alto. Alto demais! Isso tem deixado as pessoas de um modo geral agitadas, transtornadas, revoltadíssimas! Estamos todos vivendo no limite. É uma panela de pressão que está prestes a explodir!

A música é um canal de sintonia com a juventude muito grande. Sabemos que a garotada se influencia muito pelas letras, atitudes e postura das bandas! Com certeza essas bandas vêm fazendo um papel importante de difundir ideias, provocar discussões e debates, alertar e denunciar fatos e acontecimentos. Sempre dei muita importância para as letras e sempre procuro no meu trabalho passar uma mensagem com responsabilidade. Seja qual for o assunto abordado!

NADA POP – Muitos especialistas acreditam que nosso estilo de vida e o capitalismo em si já sejam insustentáveis. Você acredita que seja a hora de rever esse sistema? Por onde deveríamos começar?

GEPETO – Rever? Começar? Perdemos essa guerra! (risos) É irreversível! Seguimos em rota de colisão!

Estamos à mercê de corporações, interesses militares, podridão política, domínio religioso, repressão, crise de água, desemprego e numa sociedade doente, com níveis elevadíssimos de violência, corrupção e impunidade!

Tudo que nos resta é seguirmos nossas vidas com nossas crenças e lutarmos pelo mísero pão nosso de cada dia! Viver se tornou caro, se tornou perigoso. As tecnologias agiram para o bem e para o mal, e em países subdesenvolvidos tem um efeito devastador sobre suas populações. As pessoas estão intolerantes e cheias de ódio, de medo, de indiferença! Retrocedemos em vários níveis! NO FUTURE!

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Shows da Letall nos próximos dias – Programação e links dos eventos abaixo.

NADA POP – Hoje se discute bastante a legalização da maconha no país. Você acredita que isso poderia trazer benefícios como diminuição da violência, economia com atendimentos hospitalares e ações policiais, além de uma maior arrecadação de impostos, como aconteceu em outros países que adotaram tal medida ou acabaria sendo apenas mais uma fonte de renda para políticos e instituições corruptos?

GEPETO – É um assunto muito complexo. Sinceramente não faço ideia do quadro que se instalaria no caso de uma legalização, levando em conta todos os setores da sociedade e toda essa confusão! A grande maioria das pessoas não sabe nada sobre drogas.

O ideal sempre será: as pessoas precisam ser melhor educadas, melhor informadas, melhor instruídas e menos alienadas! É preciso aprender a classificar as drogas, inclusive as legais como o álcool, por exemplo. Saber sobre que tipo de efeito cada uma provoca, qual o perfil de cada usuário. Milhares e milhares de pessoas curtem fazer uso de substancias que alteram o estado da mente, proporcionam prazer, etc. Algumas convivem em harmonia com essas substancias e outras são levadas ao vicio devastador. Então cada caso é um caso!

Essa tendência citada na pergunta é o grande caminho! Tem que ser implantada, levada a sério e conduzida por pessoas ligadas a medicina, artes, educação, política, relações humanas e a sociedade em geral. As pessoas têm que estar evoluídas e abertas para uma aplicação como essa. Com toda certeza os modelos em vigor não funcionaram, falharam todos, estão completamente falidos!

NADA POP – Qual a sua opinião sobre o sistema de cotas? Enxerga nesse sistema a possibilidade para diminuir os efeitos sociais de injustiças históricas contra a população negra brasileira?

GEPETO – Não sou a pessoa mais indicada para falar sobre cotas. A única coisa que posso falar com toda a certeza é que eu gostaria de que todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades! Os mesmos direitos, os mesmos deveres, as mesmas responsabilidades! Acesso assegurado à educação, saúde e mercado de trabalho! O jeitinho brasileiro, a tal da “malandragem” e a extrema diferença social nos mantém atrasados e subdesenvolvidos e em pleno retrocesso!

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Letall – Crédito: divulgação

NADA POP – Ter seu material lançado envolve custos proibitivos e no caso desse material ser físico (CD, DVD, vinil, livro, etc…) baixas expectativas de vendas na maioria esmagadora dos casos. Uma das alternativas que possibilitou que inúmeras bandas fizessem seus registros foram as coletâneas. Você acredita que essa ainda seja uma boa opção, ou os serviços de financiamento coletivo (crowdfunding) já são uma realidade para as bandas independentes?

GEPETO – O jeito de se ouvir música sofreu uma revolução com a chegada da tecnologia! De repente tudo está fácil e disponível na rede! Temos esse desafio de nos fazer escutar através de todas as formas e formatos possíveis. Do arcaico CD ao cult vinil, e as plataformas de troca de arquivos musicas mais hypes do momento, as coletâneas virtuais, enfim! Está ficando tudo segmentado e muito chato! Essas novas gerações estão acomodadas na facilidade e alienadas nas linguagens! ROCK IS DEAD??????

NADA POP – E então Gepeto, os fatos perderam mesmo a importância ou foram as pessoas que resolveram se deixar enganar pela versão que mais se enquadra em seus conceitos pré-estabelecidos? Gostaria de agradecer pela conversa em nome de toda a equipe do Nada Pop e disponibilizar este espaço para o que você quiser dizer!

GEPETO – Os fatos perderam a importância! Perderam para o individualismo, o egoísmo e a alienação! Perderam para as corporações e para as anti-éticas dos negócios! Perderam para a valorização do banal, do fútil e para os interesses de minorias! Perderam para as injustiças e imposições repressoras! Perderam inclusive para a falência dos conceitos pré-estabelecidos! Muito obrigado ao NADA POP pelo espaço! Esperamos todos vocês nos shows da LETALL!

Grande abraço!

Datas das apresentações da Letall até o momento:

27.02 – ITAPETININGA/SP – ESPAÇO DO SOM ROCK BAR
17.03 – SÃO PAULO/SP – HANGAR 110 C/ EXTREME NOISE TERROR
18.03 – SANTO ANDRÉ/SP – 74CLUB – C / SIMBIOSE
19.03 – JANDIRA/SP – CAVEIRA VELHA ROCK BAR
26.03 – SÃO PAULO/SP – HANGAR 110 – FESTIVAL PUNK NA PÁSKOA
07.05 – SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP – CASAMARELA
20.05 – JUNDIAÍ/SP – ALDEIA
05.06 – CAMPINAS/SP – QUINTAL DO GORDO

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.