sábado, 17 de novembro de 2018
Nada Pop

Lendas do underground: Marcello Kaskadura, o homem das 1001 utilidades

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Tour do Atos de Vingança em comemoração aos 11 anos de estrada. Confira as datas e acesse a página da banda no Facebook para mais informações.

Admirado tanto por sua técnica e domínio das baquetas quanto por sua simpatia e solicitude, a lenda do underground de hoje é um dos maiores faz-tudo da cena. O cara se desdobra entre inúmeras atividades ligadas à cultura de rua, como seu sebo, o ‘Ultima Quimera’ e seu selo ‘No war records’, e ainda encontra tempo pra ‘descer o braço’ atrás da bateria das bandas Atos de Vingança, Sub Existência, Crônicas Marcianas, Cannibal Coffe e sabe-se-lá mais o quê… Com vocês Marcello ‘Kaskadura’:

NADA POP – Com que idade você começou a se interessar pela música? E pela bateria? Teve alguma grande influência ou algum incentivador?

KASKADURA – Pela música desde criança. Aquela velha história dos LPs da família, tipo Jovem Guarda, aqueles “rocks” do Roberto Carlos, Rita Pavone, essas coisas. Depois veio a influência de caras como Raul Seixas e Beatles até que na adolescência dei uma trombada de frente com muros chamados Punk e Metal, aí fudeu tudo, (risos). Sobre incentivadores, na verdade nunca tive. Ninguém tocava nenhum instrumento musical em casa, foi meio ouvindo e curtindo. Eu fui me ligando em bateria por causa de bandas como The Who, Deep Purple, esses bateras animalescos que não seguem muito padrão, cheio de improvisos e tudo cavalo, tudo pesado.

NADA POP – E o underground? Você o escolheu ou foi escolhido? Como aconteceu?

KASKADURA – Foi consequência. Como disse antes, quando tomei contato direto com a cena Punk e Metal foi inevitável. É um tipo de cenário que tem tudo a ver com pessoas como nós e apesar das falhas que o underground apresenta, eu acredito que ainda é uma grande sacada pra galera que tem banda, pra quem escreve ou desenha, para os fanzineiros e produtores independentes. Se a galera pensar coletivamente o underground se fortalece, mas ainda tem chão pra isso acontecer.

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Atos de Vingança em Santiago, no Chile – Crédito: Arquivo pessoal

NADA POP – Em quais bandas você toca atualmente e quais são os projetos delas para 2016?

KASKADURA – Eu toco nas bandas Atos de Vingança, Sub Existência e Crônicas Marcianas, e um projeto bacana chamado Cannibal Coffee que tá parado. Esse ano sai o CD full do Crônicas Marcianas depois de quase 30 anos. Faremos uma comemoração dos 30 anos do Sub Existência também. O Atos de Vingança vai lançar alguns materiais split com Total Silence, Final Trágico, Holocausto (Chile), Misa Histérica (Chile), uns em CD outros em (vinil) 7”, vai depender do que sobrar de grana. Tô começando a recolher material para dois documentários, um dos Atos de Vingança e outro do Sub Existência. A gente tá fechando uma tour europeia pro Atos e pro Sub Existência, mas creio que só para 2017, e pro Chile com o Crônicas Marcianas. Vamos ver o que dá.
Tem o tributo do disco “Desordem” do Melody Monster que está parado por falta de grana, mas pretendo colocá-lo pra rolar esse ano também.

NADA POP – Você acredita que assim como a igreja católica perdeu fiéis para as igrejas evangélicas com suas linguagens mais simplistas e populares, o rock e a música pesada sofre do mesmo mal com relação a outros estilos?

KASKADURA – Claro, sofre sim. Não sei a comparação entre as igrejas sejam cabíveis nesse nosso formato, mas de qualquer forma o Rock é chato demais hoje em dia, principalmente o Rock mais popular, aquele que toca em rádio etc. É muito descartável e perdeu pra todo mundo. Tem banda sertaneja que tem mais guitarra que algumas paradas intituladas Rock. Mensagem então nem se fala, é só letra bosta.

E as bandas no underground ao invés de aproveitar a fase “merda” do Pop Rock e meter o “loco” pra cima, agitando festivais, documentários, movimentando-se culturalmente, acabaram por se acomodar. Claro, existem as exceções de bravos que ainda mantém a chama acesa, mas é pouco. Dos anos 90 pra cá tá todo mundo separado por um rótulo, um sufixo ou um prefixo tipo “metal alguma coisa”, “sei lá o que Core”. Meia dúzia de nego no som, muito mimimi e cada um por si. Fogueirinha patética de vaidades. Resultado: cena zero.

NADA POP – A população brasileira redescobriu recentemente seu direito de ir às ruas e protestar. Você é a favor dos protestos comedidos como pedem prefeituras e polícias ou acredita que só através do incômodo e do impacto as massas serão ouvidas realmente?

KASKADURA – Protesto sempre e doa a quem doer. Não importa se é por alguns centavos. O certo é que os governos são surdos, só percebem os gritos. Não é questão de violência gratuita, não vamos ser ingênuos e achar que estamos vivenciando uma película da Laranja Mecânica, não é por aí. Mas passou da hora de se manifestar. Que isso seja um começo, que parta da tarifa do transporte público e vá até os problemas mais obscuros. É o povo reagindo, e quando há reação de uma classe a “outra” que até então estava cômoda começa amostrar a cara. Isso serve pra mostrar quem é quem. Quem está do lado do povo e quem está do outro lado.

NADA POP – De qual banda que admira você gostaria de ter feito parte da formação? Em qual álbum?

KASKADURA – Pô aí ferrou! (risos) Gostaria de ter tocado com alguém super criativo, sei lá, tipo Raul Seixas. Fazer uma anarquia musical, sem fronteira, mas provavelmente teria que aprender a tocar (risos). Ou talvez ter a inspiração de gravar um disco tipo “Reign in Blood” (risos).

NADA POP – As redes sociais colaboram para uma maior interação entre as pessoas, alimentando discussões saudáveis que geram soluções ou se tornaram uma espécie de ‘clube do bolinha’, onde quem pensa diferente é excluído e se constroem apenas laços com seus pares? Quais são as consequências disso na sua opinião?

KASKADURA – Não da pra negar que internet é fundamental, que as redes sociais são bacanas, mas acabam dando umas merdas às vezes. Hoje eu tenho acesso a sons que quando eu era moleque seria impossível ter e isso é bom demais. Posso mandar minha música pro mundo inteiro sem custo muitas vezes. É aquilo que falamos a pouco. Hoje todo mundo é filósofo, psicanalista e cientista político, daí as distorções de informação e opinião são absurdas e gritantes. Reforço que o lado “bom” disso é que as máscaras vão caindo aos poucos. O cara é o que ele pensa, e como todo mundo é PHD em alguma merda, nós vamos conhecendo a mente doente das pessoas nesse grande divã que são as redes sociais. Um mal necessário. Tem que saber filtrar pra não se lascar.

NADA POP – O que de mais importante o underground e a música independente trouxeram para sua vida?

KASKADURA – Tudo que eu aprendi até hoje. Literatura, política, música de todo tipo, possibilidade de criação e camaradagem. Mas é importante ressaltar que o underground não transforma ninguém por si só. O cara usa a cena como base filosófica, como é o Punk ou o Rap por exemplo. Se ele quiser fazer merda ou ser uma pessoa melhor, é ele que vai direcionar a própria mudança de comportamento.

NADA POP – Muito obrigado pela conversa. Este espaço é livre para o que você quiser dizer!

KASKADURA – Eu que agradeço a oportunidade. Espero que a galera tenha lido até o final esses devaneios. Fiquem em paz e nos vemos nas gigs.

SAIBA MAIS SOBRE OS TRABALHOS DO MARCELO KASKADURA

Atos de Vingança
www.facebook.com/atosdevinganca

Atos de Vingança
atosdevinganca.bandcamp.com

Crônicas Marcianas
www.facebook.com/cronicasmarcianasoficial

Sub Existência
www.facebook.com/subexistenciapunk

Melody Monster
www.facebook.com/melodymonsterhc

Holocausto
www.facebook.com/victimasdelcaos

Misa Histerica
misahisterica.bandcamp.com

Sebo Última Quimera
www.facebook.com/sebo.ultimaquimera

Selo No War Records
www.facebook.com/NoWarRecs

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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