domingo, 20 de agosto de 2017
Nada Pop

Lendas do Underground: Espalhando a praga underground como todo bom inseto

Walkir Inseto – Foto: divulgação

O Carnaval se foi, o ano começa (segundo alguns) e, portanto, é hora de voltarmos à carga! Na volta da série “Lendas do Underground” chegou a hora de ir até o Centro-Oeste do país e descobrir a origem da persistência infinita de Walkir “Inseto”, um dos nomes fundamentais da cena de Goiânia.

Homem forte da Insetu’s Produções, lenda na produção de eventos independentes na região, fala um pouco sobre seus incontáveis projetos subversivos ao Nada Pop. Saca só!

Entrevista com Walkir Inseto

NADA POP – Essa é uma pergunta meio batida, surrada, mas que sempre rende respostas bem interessantes. Sendo assim, como começou seu romance com a cultura underground?

WALKIR INSETO – Foi em João Pinheiro, interior de Minas Gerais, em 1987. Já ouvia muita coisa no segmento rock’n’roll, mas ainda não tinha alcançado minha alma. Em 1989, quando ouvi thrash metal mineiro, aí fudeu. Logo em seguida metal, death… Olho Seco, Replicantes, Ramones, Attack Epileptico etc.

NADA POP – A Insetu’s sempre mostrou um grande “apetite”, por assim dizer, trazendo grandes atrações para seus eventos. Quais participações você destacaria e quais as maiores dificuldades encontradas para trazê-las?

WALKIR INSETO – Velho, todas as atrações foram importantes para nós. O propósito sempre foi trazer bandas que gostaríamos de ver. Nessa onda, vieram bandas de vários estados e regiões, mas o mais importante foi o primeiro: Cólera. Antes fazíamos apenas gigs com bandas locais, de Brasília e de Aparecida de Goiânia. Fazia mais de 10 anos que o Cólera tinha tocado em Goiânia. Quando vi quase 600 pessoas no DCE-UFG, puta que pariu! Ali que eu fui ver a magnitude e a responsabilidade de fazer um evento daquele porte. Para nós da Insetus aquilo não era uma coisa grande e sim enorme. Mas no final deu tudo certo. Acabou a big gig e ficamos lá até amanhecer o dia, bebendo e nos divertindo, e o Cólera não queria arredar o pé, mas como estavam todos cansados (tinham chegado da tour europeia no dia anterior), foram para o hotel já com o dia amanhecendo. Foi o primeiro show no Brasil da tour DEIXE A TERRA EM PAZ!

Lembrando que a INSETU’S PRODUÇÕES sempre foi um coletivo de amigos, que sempre ajudam da maneira que podem, com serviço, com grana, com disponibilidade de automóvel, panfletagem e divulgação em geral, sendo que a cada ano que passa todo mundo vai se afundado em suas responsabilidades que a vida vai acarretando e deixando de ser o que realmente eles gostariam, e de ajudar da maneira necessária. Isso vem diminuindo muito o coletivo, mas nós continuamos firmes, de cabeça erguida desde 2001.

A maior dificuldade é apoio, patrocínio. O governo ajudaria muito se não atrapalhasse. Quanto ao patrocínio, somente a Hocus Pocus Revistaria que sempre nos apoiou. Não somente nós, mas toda a cena underground goiana.

Para conhecer ou saber mais sobre a Hocus Pocus acesse: www.facebook.com/hocus.loja

Inseto em ação! Foto: divulgação

NADA POP – Você chegou a produzir um evento da Insetus em MG, porém já não morava lá. Como foi isso?

WALKIR INSETO – Velho, naquela época que comecei ouvir som era muito complicado. A sociedade apontava o dedo mesmo. Isso no interior de Minas, onde existia ainda o coronelismo e pessoas submissas, com medo de tudo, até mesmo de perder o humilde emprego… Mas já existia galera subversiva, que quando se sentia sufocada enchia a cara e descia a avenida principal chutando mesa, cadeiras e que quando aparecia alguém que batia de frente rolavam brigas. Existiam também pessoas que escreviam poesias e zines. Tinha uma galera que colecionava vinis, que era onde eu mais frequentava. Também tinham algumas pessoas que tocavam e formavam bandas. Aconteceram alguns shows.

Quando vim para Goiânia prometi fazer contatos e levar bandas para tocar em Jomps. Foi quando teve uma reunião de amigos em uma chácara próximo da cidade de João Pinheiro/MG. Cansados de ouvir a família mandar abaixar o som ou no bar que você gastava sua grana que foi uma luta para conseguir, e ainda o dono bar rodar somente um lado da fita cassete, que quando terminava um lado era uma vitória, saímos em busca de outro bar para ouvir o outro lado da fita (risos). Então foram parar nessa chácara do pai de um amigo nosso. Eles estavam radiantes de sentir a tal liberdade que procurávamos. E era tão simples! Ouvir um som alto e sem ninguém incomodar, mandar abaixar o volume. Isso durou dois dias: sábado e domingo. Nessa eu não estava. Fui pra Brasília, escondido dos meus pais. Ainda era menor de idade. Show no Guará, fui conferir uma banda que tinha chamado muito a minha atenção, a SEM DESTINO, banda de punk rock, que me inspirou a montar banda e fortalecer a cena ou pelo ao menos o meu redor. Quando deparei com a felicidade mútua da minha galera de João Pinheiro falando da chácara, logo perguntei se rolava de fazer show lá. Eles disseram que sim e fizemos o primeiro, em 1999. Esse ano completam 18 anos que reunimos bandas de vários estados para celebrar um dia de paz, festa e rock n roll! O RURAL ROCK acontece toda primeira semana de agosto em João Pinheiro, numa chácara ou fazenda!

OBS.: como resido em Goiânia, a Insetus organizou várias edições do Rural Rock em parceria com amigos. Atualmente a organização fica por conta de um grande amigo, Emerson Ruber e sua trupe, e vou todo ano curtir as bandas, rever meus amigos e chapar o coco (risos).

Descarga Negativa HC – Foto: arquivo pessoal

NADA POP – Além de promover eventos, você também se apresentava antes com a banda Descarga Negativa HC e atualmente com a Repugnância. Como andam os trabalhos na música? Planos para lançar material em breve?

WALKIR INSETO – O DNHC foi a porta de entrada para viver uma vida 100% ativa no underground, em todos os sentidos. A primeira formação durou quase 2 anos e foi tudo muito intenso. Mal registramos a banda, quase não temos fotos, não gravamos… Só ficou a história muito rica de assuntos e contos que levaria horas e horas para contar.

A partir da segunda formação que tivemos essa preocupação, ao longo desses 15 anos que a banda durou, de altos e baixos. Viemos nos arrastando com conflitos internos e externos, mas fazendo hardcore agressivo e do nosso jeito, sem frescuras. A banda encerrou as atividades em janeiro de 2014. O baterista da primeira formação está tentando reunir a banda para reparar um erro que cometemos, de não ter gravado as músicas e já andou conversando com todos da primeira formação. Ainda não tem nada de concreto, mas quem sabe em um futuro próximo voltaremos a contribuir com a cena novamente.

Sobre o Repugnância ainda estamos em fase de elaboração das músicas. Já mudamos de guitarrista e baixista. Vamos sem pressa, temos a vida toda para fazer o som que queremos. Já estamos com 5 músicas e já fizemos alguns shows. Para completar o set list tocamos músicas das nossas ex-bandas: DNHC, CHORUME, VACILO e um cover do ROT.

Estamos finalizando mais algumas músicas e ainda este ano vamos lançar um demo.

NADA POP – Não contente, você ainda atua no Insetus Zine, que foi por bastante tempo um zine impresso dedicado à contracultura e focado no suporte ao crescimento da cena underground. O zine continua na ativa? Quais as maiores diferenças em fazer um zine antes e depois desse momento onde praticamente tudo em termos de informação se resume a internet?

WALKIR INSETO – A Insetus Zine aconteceu em uma conversa com Kezio Oliveira, um amigo, ou melhor, um irmão que tenho, já fazem muitos anos que reside em Londres. Ele também é co-fundador da Insetus e quem sugeriu esse nome para nossos rolês, que veio do meu apelido Inseto, já que eu sempre tomava a frente para fazer as coisas acontecerem. Ele sugeriu o nome, eu gostei por soar bem e ficou legal. A ideia era fazer um zine para divulgar as bandas goianas em Londres. No início, foi impresso e saiu em 19 países e na língua de cada país. Com o tempo foi tomando outras proporções e virou um blog, e tivemos a oportunidade de divulgar bandas de vários lugares. Hoje temos vários colaboradores de diversos países, e não se restringe somente ao blog. Também movimenta uma puta banda, shows, rolês anarquistas etc…

O QG da Insetus Zine fica em Londres e é o Kezio quem toma conta. Eu sou um colaborador. Bem antes da Insetus Zine ele movimentou vários zines em Goiânia e Morrinhos (GO). Eu cheguei a movimentar alguns. O último foi o Vomitando HC, que tinha uma página em destaque para divulgar bandas e poesias marginais.

Bollaxa (baixo) e Didi (batera) do Mollotov Attack junto com o Walkir Inseto – Foto: arquivo pessoal

NADA POP – Também sei que você é um apaixonado por vinil. Quais são os xodós da coleção?

WALKIR INSETO – Gosto tanto que a maioria são meus preferidos. Tenho uma coletânea paulista de 1984,
Cólera (Pela paz em todo mundo), F.D.S., Desordeiros (A lei e o bicho), Olho Seco (Botas, fuzis e capacetes, Haverá futuro), Invasores de cérebros, Richie Havens (velho, esse comprei em um sebo por 1 real, nem acreditei, é o Freedom at Woodstock 1969).

Tem também o Agrotóxico (Caos 1998), The cramps (Garbageman), Terrorizer (World Downfall – 1989), Napalm Death (Scum), EXTREME NOISE TERROR (A Holocaust In Your Head), The Mist (Phantasmagoria), Dorsal Atlântica (Straigth), Tom Waits (Alcoholic Psychedelia), Circle Jerks, HC-137 (Made in GO – LP 12” 1993), Detrito Federal (Vítimas do Milagre), SUB que é muito importante na minha vida, só que em CD, mas vocês aí de Sampa podem me ajudar a resolver isso, achando em vinil para mim (risos).

Velho, se você me perguntar isso amanhã poderá ser tudo diferente… Foi o que veio em mente agora.

NADA POP – A cena de Goiânia sempre teve problemas em encontrar espaços para realização de eventos independentes. Por que isso acontecia? Essa realidade mudou nos últimos anos ou as dificuldades ainda persistem?

WALKIR INSETO – Mano, acho que aqui ou em qualquer lugar, se tenta de várias formas coibir movimentos subversivos. Quando você procura alternativas ou até mesmo fazer (eventos) na sua própria casa a polícia bate na porta com órgão público e com um bloco para te encher de multas. Nos lugares públicos onde teria que acontecer numa boa eles inventam tantas taxas e documentos para se conseguir que no final das contas fazem não valer a pena.

Quando vamos fazer um evento maior, sempre fizemos no Martim Cerere, espaço municipal, e sempre atendemos todas as exigências, taxas, ambulância, mil seguranças etc. Nunca teve uma briga, não quebramos nada e nem deixamos de pagar nossas contas e taxas. Mesmo assim não conseguimos nenhuma data durante 2015 e 2016.

No ano passado, desde janeiro tentamos alugar um espaço para fazer a festa de 15 anos da Insetus e não conseguimos. Sempre diziam que as datas que eu queria já estavam fechadas. Teve data que fui no local para ver se realmente tinha algum evento e estava fechado. Em outras, amigos meus foram, e também não tinha nada acontecendo. Acabei desistindo desse local. É uma pena, pois fazer evento maior, com bandas de fora, mesmo sendo caro era a garantia que o evento não seria interrompido pelo governo e sua corja. Outras produtoras e selos sempre conseguem de maneira mais fácil, sempre encontram datas disponíveis, inclusive as minhas (risos). Eles são envolvidos com a política e mamavam nas tetas dos órgãos públicos até pouco tempo atrás.

Hoje esses mesmos órgãos estão quebrados, como a maioria no Brasil. Eles sempre conseguiram espaços, verbas. E o pior, ainda elitizaram a cena local, superfaturando tudo. Bebidas, entrada… Se rola grana do governo teria que ser mais acessível, mas o verdadeiro underground continua de pé, nas quebradas e nas valas dos esgotos de Goiânia. Respondendo a sua pergunta, a cada dia que passa está mais complicado.

NADA POP – Quais bandas você destacaria hoje na cena do centro-oeste do país e por quais motivos?

WALKIR INSETO – Quero destacar todas! Além de ter gostado do som, também pelo comprometimento com o underground, e tentar não somente movimentar as bandas, mas também shows, zines e ideias, fortalecendo a cena no centro oeste. São elas:

RUSGA

CALIGO (Dom Metal) de Brasília

WHAT IWANT (Grindcore) de Brasília

LEECH ECLIPSE de Goiânia (GO)

DEAD MEAT de Goiânia (GO)

DIABO VELHO de GOIÂNIA (GO)

ARMUM Death de GOIÂNIA (GO)

HC-137 de Goiânia (GO)

DRUNK EXPERIENCE de Anápolis (GO)

LASCADOS de Anápolis (GO)

NADA POP – Muito obrigado pela conversa e pelos anos lutando pela cena independente em nome da equipe do Nada Pop. Esse espaço é livre para dizer qualquer coisa que queira!

WALKIR INSETO – Velho, eu que agradeço pelo bate papo. Sempre é satisfatório aproxima as cenas. Sempre acompanhei toda a cena paulista, afinal foi onde tudo começou, onde o punk é pra valer. Não somente a cena punk, mas sempre teve o metal e toda cena underground forte. É uma referência para todo o Brasil. Espero que aconteçam outras entrevistas com pessoal aqui de Goiânia e vice-versa, estreitando um pouco mais essa distância, aproximando bandas, produtores, coletivos, zineiros, enfim, todos nós.

Em um futuro próximo estamos projetando um rolê pelo estado de São Paulo. Queremos fazer uma mini tour, rever alguns amigos, conhecer pessoalmente uma cambada que só conhecemos por correspondências (e hoje por e-mail), fazer novas amizades e projetar a vinda não somente da Mollotov Attack (pois ficamos devendo isso pros caras), mas de todas as bandas que fazem parte desse universo e estejam afim de trocar ideias, materiais, experiências e conferir o que anda acontecendo aqui no cerrado.

Um Grande abraço à todos do Nada Pop, em especial ao Wagner Cyco, uma grande pessoa, um grande amigo que o underground me proporcionou. A cada dia que passa vamos fortalecendo isso ainda mais. Nos mostra que no nosso mundo ainda acreditamos nas pessoas, nas amizades, e que podemos construir um lugar melhor através de nossas escolhas. Toda vez que saímos para um rolê com bandas, gigs, shows ou um simples rolê com nossos amigos estamos colocando isso em prática. Isso não tem preço. Na maioria das vezes tudo é muito tenso e não tem nada de flores, mas sãos nossas escolhas e nossa sobrevivência.

“A cada dia a realidade arranca profundo pedaços da minha carne, mais eu resisto e continuo sendo eu. Mas eu resisto e continuo sendo eu” – Descarga Negativa HC.

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.