terça-feira, 24 de outubro de 2017
Nada Pop

Lendas do Underground: entrevista com o podre e satânico José Rodrigues Mao

flyer_dr_mao_capanp

Clique no flyer e confirme sua presença no evento

No próximo dia 5 de março, a partir das 19h, o Hangar 110 será palco de uma das lendas do punk rock em mais show e performance cheia de ironia, sarcasmo e revolta política. Há mais de 30 anos José Rodrigues Mao Jr. é símbolo do street punk nacional, com os Garotos Podres imortalizou canções como “Oi, tudo bem?” e “Papai Noel, Velho Batuta”, sem falar nos álbuns “Mais podres do que nunca”, “Canções Para Ninar” e “Com a Corda Toda”, só para citar alguns. Agora, com a banda O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos, esse senhor mais podre do que garoto (como o próprio diz), irá se apresentar de forma provavelmente histórica no Hangar. Os shows de abertura ficam por conta das bandas Subalternos, Filhos do Zé e The Boneyard Club.

Formado em História, com Mestrado e Doutorado em História Econômica, Mao é professor e leciona desde 1988. Por conta da sua tese de doutoramento “A Revolução Cubana e a Questão Nacional – 1868/1963”, Mao já foi convidado algumas vezes por programas de TV para falar sobre Cuba.

“Geralmente me entrevistam uma única vez. Quando percebem que eu tenho uma posição “simpática” à Revolução Cubana e não falo o que eles querem ouvir, não me chamam mais…”, responde Mao rindo.

Um dos episódios mais engraçados, como conta Mao, envolve uma jornalista da Globo News, que primeiro fez um interrogatório por telefone para saber qual era a sua posição política. “Parecia um interrogatório do DEOPS. Depois, obviamente não me chamou… Isto é coisa da ‘democrática’ mídia que temos no Brasil”, diz ainda rindo.

Se você for ficar ou estiver por São Paulo no próximo dia 5 de março, garanta seu ingresso para a apresentação no Hangar 110. Só ficará a dúvida em relação a esse professor do rock, será uma aula punk ou uma punk aula? Confirme sua presença no evento AQUI. Compre seu ingresso de forma antecipada no site do Hangar 110 – clique AQUI.

Confira abaixo nossa entrevista com o José Rodrigues Mao Jr.

satanicomao_espioessecretos

O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos – Crédito: Theguiih

NADA POP – Mao, particularmente você acredita ser possível uma pessoa com posicionamento político de direita ouvir e ser fã de uma banda historicamente com posicionamento político de esquerda? Isso soa contraditório para você?

MAO – Isto ocorre, embora ache isto extremamente incoerente. No caso dos Garotos Podres isto era muito comum.

A banda sempre teve um posicionamento político de esquerda. Chegamos a gravar a “A Internacional”, que é um hino do movimento operário, e ao longo da história sempre foi cantada por anarquistas, socialistas e comunistas dos mais diversos matizes. Entretanto entre nosso público sempre houve “fãs” dos mais diversas correntes políticas. Creio que a maioria dos fãs da banda era composto por pessoas que tinham um posicionamento político “à esquerda”.

Mesmo em outras músicas, onde a politização não é tão evidente, esta inflexão à esquerda é presente. Como exemplo poderia citar a Papai Noel Velho Batuta. Nesta música questiona-se o consumismo e rotula-se o Papai Noel como um Porco Capitalista – uma das mais prediletas ofensas que um comunista poderia dirigir a um capitalista no “áureos tempos” da Guerra Fria.

Então como poderíamos entender a existência de fãs que são aparentemente de direita que curtiam os Garotos Podres? … bem … creio que estas pessoas eram tão despolitizadas que sequer entendiam o que nós cantávamos. Acho que é a única resposta que consigo visualizar.

NADA POP – Em sua opinião, quais os principais riscos de uma pessoa ser declaradamente apolítico ou que acredita que a música e política não deveriam se misturar?

MAO – Acho que existem dois conceitos diferentes. Ser apolítico não é a mesma coisa que ser apartidário. Todo ser humano é um ser político. Negar esta dimensão humana da política é a base ideológica daquilo que Bertholt Brecht definiu como “O Analfabeto Político”. E a negação da ação política das massas é a base o fascismo. Não há nada mais “político” do que alguém se intitular como “apolítico”.

Ser “apartidário” é outra coisa completamente diferente. Não tomar partido (ser apartidário) não é o mesmo que negar a política (ser apolítico). Em certas situações ou lugares, é possível ser apartidário. Local de trabalho por exemplo. Em termos musicais e artístico também é possível “deixar de lado” as questões partidárias.

Entretanto o que tenho observado é que, geralmente quando alguém se define como “apolítico ou apartidário”, geralmente esta pessoa é, na verdade, de direita (obviamente há exceções). Em geral, aquele que se classifica como “apolítico ou apartidário” adota o “cômodo posicionamento” de quem decidiu estar do lado do mais forte.

NADA POP – Nas manifestações da direita, realizadas em diferentes regiões do país, é possível perceber jovens pedindo a intervenção militar. Você passou pela ditadura, por isso, qual o seu sentimento ao ver esses jovens pedindo a volta de algo que eles sequer vivenciaram?

MAO – Acho isto totalmente assustador. Revela o poder que a mídia tem em manipular as pessoas. Estes jovens que saem pelas ruas clamando por uma ditadura fascista são, ao mesmo tempo vítimas da mídia controlada pela classe dominante, mas também são algozes.

De uma certa forma os fanáticos membros das SS, SA, Juventude Hitlerista, Gestapo, etc, também foram vítimas da “propaganda”. Mas no final, a humanidade teve que combatê-los a ferro, a fogo e a “ponta de baioneta”.

O que a mídia capitaneada pela Rede Globo está conseguindo, é criar uma massa de manobra fascistizada. Espero que a coisa não evolua. Senão, inevitavelmente o sangue jorrará pela sarjeta.

NADA POP – Quem acredita em uma ditadura vermelha sendo construída pelo PT, provavelmente não conhece de forma suficiente como funciona o congresso nacional. Com partidos cada vez mais ligados a grupos religiosos, além dos famosos partidos, como o PMDB, que se sustentam no poder há décadas e que são favoráveis ao status quo, qual a sua opinião a respeito do atual momento político do nosso país e se você consegue enxergar alguma saída que possa alterar este cenário de uma forma mais positiva para a população proletária?

MAO – Nas redes sociais e na boca de políticos de direita se ouve muita asneira. Uma das maiores delas é a de que o Brasil vive numa ditadura comunista.

A única coisa que posso fazer, é lamentar que isto não seja verdade. Que maravilha seria se vivêssemos numa plena Ditadura do Proletariado (a Democracia dos Oprimidos). A propriedade dos meios de produção seria social (empresas nacionalizadas), haveria mais igualdade social … e quem sabe teríamos sistemas educacionais e de saúde quase tão bons quanto os de Cuba.

Lógico que uma Ditadura Comunista (como dizem) desagradaria muitas pessoas. Desagradaria, principalmente, uma minoria que vive da exploração do trabalho alheio. Certamente desagradaria os parasitas que vivem às custas do sangue, do suor e da miséria alheia.

O que os trabalhadores teriam a perder, além dos grilhões que os mantém presos à escravidão assalariada capitalista?

NADA POP – O quanto a desmilitarização da polícia é importante para a nossa sociedade e se você acredita que há pouca atenção para o assunto, pois interesse político é claro que não existe, certo?

MAO – Acho que a questão não é se a polícia é militarizada ou não. O problema é a quem serve a polícia. A polícia (seja civil ou militar) está À SERVIÇO DA CLASSE DOMINANTE. Polícia é instrumento de dominação de classe.

No caso de São Paulo a situação atual é muito grave. A PM deste Estado está desavergonhadamente à serviço das forças golpistas que querem restaurar a Ditadura Militar no Brasil através do Golpe do Impeachment.

No passado haviam muitos heróis à serviço do povo nesta instituição. Miguel Costa, Cabanas, Silvestre, Pedro Lobo, Wânio José de Matos, e muitos outros. Muitos sofreram a prisão, tortura, assassinato ou exílio. Deve-se lembrar que os Comunistas que atuavam dentro da Força Pública e Guarda Civil de São Paulo chegaram a publicar um jornal clandestino: o Sentinela Vermelha.

sescpompeia_mao

Show do O Satânico Doutor Mao no Sesc Pompeia e dezembro de 2014. Crédito: arquivo da banda

NADA POP – Alguns artistas se posicionam politicamente, porém muitos evitam esse tipo de debate. O quanto você julga necessário esse posicionamento e se ele poderia de alguma forma contribuir para a nossa sociedade?

MAO – Músicos, artistas, escritores, jornalistas, são pessoas públicas, e as suas opiniões podem influenciar outras pessoas. No meu caso, sempre considerei a minha atividade artística como uma forma de intervenção política. A música sempre foi a forma para dar ritmo às minhas ideias.

Confesso que fico bastante contente quando alguma destas pessoas públicas se posicionam a favor da democracia, da emancipação dos trabalhadores, da ampliação dos direitos sociais e da justiça social. Me entristeço quando alguém externa algo que vai contra os princípios humanos mais fundamentais.

NADA POP – No caso do punk e hardcore, que historicamente mantém uma postura de contestação social, política e cultural, certos temas como homofobia, racismo desigualdades sociais são mais recorrentes. Dentre as bandas novas que você escuta ou já escutou, quais delas você indicaria ou colocaria como referência para o público ouvir e conhecer?

MAO – Uma coisa que me assusta atualmente é ver, através das redes sociais, um número significativo de “punks véios” que vem aderindo a esta onda conservadora. Muitos começaram a comungar as ideias de Bolsonaro, golpe, impeachment, Olavo de Carvalho, etc … se aproximando cada vez mais do “coxinismo”.

Felizmente, a imensa maioria dos integrantes das bandas punks não embarcaram nesta onda conservadora. Acho desnecessário citar esta ou aquela banda, pois poderia deixar de citar alguma banda importante neste contexto, e assim ser injusto.

Apesar disto, gostaria de citar uma banda, até para fazer justiça “perante a História”.

Durante muitos anos, João Gordo do Ratos de Porão foi acusado de ser “traidor do movimento”. Esta acusação era feita pelo fato do João Gordo ter tido a oportunidade de ter um bom emprego na antiga MTV. Com o tempo João aprendeu a “levar na boa” esta acusação.

Hoje, curiosamente , muito “punk véio” que acusava o João Gordo de “Traidô”, está hoje compartilhando imagens de Bolsonaro, frases de Olavo de Carvalho e memes contra a Dilma e favoráveis ao Golpe. João Gordo até hoje nunca renunciou às suas ideias. Sempre se posicionou favoravelmente à democracia, aos direitos dos trabalhadores e das minorias. Jamais compactuou com esta onda “coxinha”.

E agora, cara-pálida? … quem é o “traidô” ??… rs

NADA POP – Em relação a sua atual banda – O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos – como surgiu esse nome e se você busca, de certa forma, representar o mesmo humor tratado em certos temas políticos que você consagrou nos Garotos Podres?

MAO – “O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos” emergiu das trevas da clandestinidade em maio de 2013. Este projeto musical surgiu em função do “racha” (dissidência) que ocorreu com os Garotos Podres no ano anterior (julho de 2012).

Quando os Garotos Podres racharam, eu e o Cacá Saffiotti (guitarra) fomos para um lado, e os demais integrantes para o outro. Inicialmente eu e Cacá pretendíamos dar continuidade aos Garotos Podres (com este nome), já que eu era o fundador da banda, autor e compositor da maioria das letras. Por este motivo dei entrada no registro do nome Garotos Podres, junto ao INPI.

Entretanto os antigos baixista e baterista tentaram se apropriar do nome Garotos Podres mesmo eu tendo feito o pedido de registro. Como eles nos ameaçaram de inúmeros processos judiciais, resolvemos utilizar um novo nome para dar continuidade em nossas atividades artístico-subversivas.

Desta forma eu e Cacá, mancomunados com Uel (baixo) e Shu (bateria), assumimos o codinome: “O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos”, como sendo o nome público dos “únicos e verdadeiros” Garotos Podres (Garotos Podres é a nossa identidade secreta, mas não conte para ninguém … rs).

Assim, artisticamente falando, “O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos” é a continuidade dos Garotos Podres.

NADA POP – Houve algum posicionamento da justiça em relação aos direitos de uso do nome Garotos Podres? Você pode falar desse assunto? Em outra entrevista sua você disse que o nome da banda – O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos – mudaria imediatamente para Garotos Podres caso você receba o direito de utilizar o nome. Fato?

MAO – Sob o ponto de vista judicial, o processo em torno do nome Garotos Podres caminha com a famosa velocidade da justiça brasileira. Se algum dia ganharmos este processo, assumiremos a nossa identidade secreta: Garotos Podres.

NADA POP – Algumas pessoas insistem em acreditar que ser ou ter um pensamento político de esquerda é ser partidário ao PT. Você poderia, de forma didática, esclarecer as diferenças entre a política de direita e de esquerda?

MAO – A história daquilo que chamamos de “esquerda política” remonta os históricos debates na Convenção Nacional durante a Revolução Francesa iniciada em 1789. Na mesa diretora de tal Convenção, os Jacobinos – representantes da pequena burguesia e que contavam com o apoio das massas populares de Paris – sentavam-se à esquerda. Por outro lado os Girondinos – representantes da alta burguesia – sentavam-se à direita.

Durante os acalorados debates que ocorriam na Convenção, os diversos grupos se digladiavam sempre se referindo a um ou outro grupo como o grupo da esquerda ou da direita. A partir de então convencionou-se chamar os grupos políticos mais conservadores e ligados às classes sociais mais abastadas como direita. Enquanto os grupos ligados aos setores populares como de esquerda.

Ao longo do século XIX os diversos grupamentos e ideologias de esquerda se foram gestando. Do socialismo utópico evoluiu-se para o anarquismo e o socialismo científico (Marxismo). Ao longo do século XX, surgem novos conceitos, como a Social-Democracia e os diversos matizes do Marxismo-Leninismo.

Sob o ponto de vista da direita política o velho conservadorismo aristocrático baseado nas religiões oficiais cede terreno a diversas correntes do Liberalismo, enquanto ideologia burguesa dominante. No século XX temos o surgimento das diferentes modalidades de Fascismo, corrente política burguesa que ia muito além do anticomunismo. Os Fascismos (italiano, alemão, etc) além de ser contra a esquerda, também era contrário ao Liberalismo e a tudo aquilo que tivesse a mais remota ligação com o Iluminismo.

Todas estas correntes políticas repercutiram no Brasil ao seu devido tempo. No século XIX, um reduzido grupo de intelectuais é seduzido pelo Socialismo Utópico. Nos finais do século XIX e início do século XX, os imigrantes que trabalhavam nas fábricas brasileiras inovam ao trazer consigo novas formas de organização e ideologias. Surgem os primeiros sindicatos, em sua maioria organizados em torno da ideologia anarco-sindicalista, então dominante. Fundou-se a Confederação Operária Brasileira – COB, que protagonizou a mais longa Greve Geral da história brasileira: a de 1917.

As rubras centelhas que da Revolução Bolchevique de 1917 espalharam-se pelo mundo. Em todos os países, a mais ativa vanguarda dos trabalhadores se aprestam para fundar os seus respectivos Partidos Comunistas. O PCB foi fundado em 1922.

A partir de então, o PCB foi a principal organização revolucionária e de massas do proletariado brasileiro no século XX. Cometeu muitos erros e acertos, durante décadas teve que sobreviver na clandestinidade, tendo os seus ativistas sistematicamente perseguidos, mesmo nos períodos aparentemente democráticos. Ao longo do século XX, o PCB conviveu com outras correntes políticas, tais como os diversos grupos trotskistas, católicos progressistas, sociais-democratas e até mesmo remanescentes do anarquismo.

Depois do Golpe de 1964, e da decorrente instauração de uma Ditadura Militar de clara inspiração fascista, o PCB entrou em profunda crise. Impiedosamente perseguido pelo aparato repressivo, sofreu diversas cisões internas, particularmente de grupos que discordavam da política do Partido e desejavam resistir à ditadura através da Resistência armada.

Depois de duas décadas de Ditadura, a esquerda se reorganiza. O assim chamado Novo Sindicalismo (do qual Lula fazia parte) se aproxima dos sobreviventes dos diversos grupos de Resistência armada que sobreviveram, da Esquerda Católica, dos diversos grupos trotskistas em atividade no Brasil. Surgia assim o Partido dos Trabalhadores – PT.

Ao longo da década de 1980, o PT era o partido que abrigava aquilo que a esquerda tinha de mais radical. Era o período em que o PCB e o PCdoB eram sinônimos de “moderação política” (eram muito próximos do PMDB, partido que faziam parte até serem legalizados em meados da década de 1980).

Ao longo da década de 1990, o inicial ímpeto de radicalidade do PT foi perdendo força. Aos poucos o Partido foi se “adaptando”, com intuito de se viabilizar enquanto “alternativa” de poder “dentro da ordem vigente”. De uma certa forma o PT acabou seguindo os mesmos passos trilhados pelos Partidos Social-democratas Europeus. Uma vez perdida a radicalidade revolucionária, acabaram por administrar o regime social que no início queriam derrubar.

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.