sábado, 26 de Maio de 2018
Nada Pop

Lendas do Underground: Edwiges, a fundadora da banda Menstruação Anárquika

Clube do Bolinha? Jamais! Batemos um papo com a Edwiges, guitarrista, vocalista e fundadora da banda punk Menstruação Anárquika e constatamos o que todo mundo já sabia: a mulher é uma fonte transbordando de personalidade e atitude. Mais uma autêntica lenda do underground, sem rodeios, no Nada Pop!! Para baixar o álbum “Bazar dos Milagres”, da Menstruação Anárquika, acesse: http://migre.me/t93gR

NADA POP – O que veio primeiro: o interesse pelo punk ou o interesse pela música? Como foi?

EDWIGES – Pela música, ao contrário da maioria. Tinha uns nove anos, apareceu um violão aqui em casa. Era pra ser da minha mãe, que nem ligou. Eu me apoderei dele e já saí tocando, mesmo sem saber nada. Daí tinham uns cursos aqui perto, de violão clássico e tal. Era o que tinha e também eu não tinha noção de nada que ia fazer na vida, mas que eu queria era prender a tocar. Caí dentro e só parei depois de uns 5 anos. Gostava tanto que depois de um tempo dava até aulas pra substituir a professora quando era preciso.

NADA POP – Quais eram as maiores dificuldades para uma mulher ter uma banda de um estilo musical predominantemente masculino na época? E hoje em dia? Mudou muita coisa?

EDWIGES – Bom, era… Como posso dizer? Estranho. Diferente do que se costumava ver, mas na real? Isso me dava mais força ainda. Sempre amei tudo que se tornasse um desafio. O que a maioria das pessoas julga impossível de acontecer tô eu lá dentro, envolvida. Pra mim isso é um estímulo. E se a coisa mudou? Sim, claro que sim. Conforme o tempo foi passando surgiram muitas bandas. A maioria delas não resistiu, mas pelo menos tentaram, tiveram a intenção, o que é muito bom. Deu muita força inclusive, pra nós continuarmos. Mais garotas dispostas a encarar a dureza de ter uma banda, meter as caras, falar, gritar, cantar, seja da forma que for.

NADA POP – A Menstruação Anárquika parece viver uma ótima fase. Quais são os planos da banda para 2016? Os fãs podem esperar material novo?

EDWIGES – É, isso é verdade. Acho que, nossa, durante tanto tempo… Nem sei mais. Não me lembro de ter uma formação em que estamos tão bem assim. Posso dizer tanto musical quanto pessoas envolvidas, que já sabem muito bem do que se trata isso, sem eu ter que ensinar ninguém de acreditar e fazer realmente o que é o propósito. Bom, é claro que temos planos, mas nós tentamos muito já, e sempre que falamos parece que o mundo cai em nossas cabeças. Mas prometemos em breve surpresas. Estamos trabalhando pra isso.

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Menstruação Anárquika: Cintia/baixo (esquerda), Edwiges/guitarra e vocal (centro) e Aleks/bateria) – Crédito: divulgação

NADA POP – No Brasil os shows independentes costumam ter ingressos bastante acessíveis quando não até mesmo gratuitos ou de contribuição voluntária, mesmo assim o público costuma ser aquém do esperado. Qual a explicação para isso?

EDWIGES – Bom, na verdade sempre fico feliz com a galera que vai no som da gente e assim, primeiro fator: grana. Tudo custa caro nesta merda de país. Até pra se locomover custa e não é barato. Outro fator: vários sons no mesmo dia. E nós vivemos no país do futebol, carnaval e samba, né? Não tem tanta gente assim pra gostar deste tipo de som. A maioria da população engole o que a TV lhe enfia pela goela abaixo. Não vai atrás de procurar uma cultura diferente, só aceita o que a TV empurra.

NADA POP – A Polícia Militar coleciona casos de abuso em todo tipo de ação que envolve civis. Muitos acreditam que uma organização militar só deva ser acionada em uma eventual situação de guerra. Você concorda com a extinção da PM? E qual seria uma alternativa à ela?

EDWIGES – Alternativa nenhuma! Acaba de vez com elas! Aff… Uma coisa criada pra reprimir, defender leis… Pra começar: leis são criadas pra que, hein? Quando você tem em seus princípios o respeito ao próximo não precisa de leis. Isso já basta. Seres humanos pensam e têm capacidade de avaliar. Precisa de lei? Pode ser boa pra quem, hein? Só deve ser pra quem cria elas, né? Em prol de seus próprios benefícios e ferindo sim o real direito de muitos.

NADA POP – Em algumas ocasiões podemos perceber o feminismo sendo visto com maus olhos por grande parte da própria população feminina. Na sua opinião quais as razões para esse comportamento?

EDWIGES – Ahahahahaha Enfim uma pergunta decente sobre este assunto! Na real o papo é reto, direto. Infelizmente tem mais de dúzias aí de mulheres que se dizem feministas e tal, só que elas têm uma visão distorcida de que é o feminismo. Realmente as mulheres lutaram por ter seus direitos iguais a de um ser humano, que na época os homens tinham, e elas ficaram sempre a mercê de suas decisões e submissas à vontade deles. Sim, tinham realmente motivos pra lutar por igualdade. Só que dentro do punk, pra mim, já é mais do que resolvida. Nós, punks, sim, queremos a igualde entre todos os seres vivos. E nem deveria se discutir feminismo, já que está claro nosso propósito. E sim, não estou fechando os olhos pra dizer que não existe ainda machismo. Sim, claro. Infelizmente existe, mas pessoas que estão vivendo uma cultura de que não sabem ainda respeitar, entender, estão perdidas. Ou vão assimilar isto ou vão acabar caindo fora.

Hoje, eu vejo aí mulheres que se dizem feministas meio que agredindo os homens verbalmente e nem falam em igualdade. O que elas querem? Alguma forma de poder? Poder do que? Quero deixar claro uma coisa. Desde que montamos a banda, claro, montamos uma banda só de mulheres, porque era um universo sim predominante masculino. Queríamos por nossa cara, falar de nossas ideias, mas sempre tivemos total apoio dos homens que estavam próximos. Nos ajudavam sim e em tudo eram aliados. E são até hoje. As poucas conquistas que tivemos durante este tempo foram graças à ajuda deles e a nós mesmas, que somos lutadoras e nunca desistimos. Na verdade acho muito chato falar de homem e mulher, viu. Gosto mais de falar de seres humanos bons, ruins, cheios das qualidades e dos defeitos. Estes sim somos nós.

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Menstruação Anárquika: Cintia (esquerda), Edwiges (centro) e Aleks (direita)

NADA POP – Negar o direito ao aborto à uma mulher é uma forma de a sociedade fugir de sua responsabilidade na educação sexual da população, usando a religião e seus dogmas como desculpa?

EDWIGES – Boa colocação a sua. Sim, perfeito. Não poderia retratar melhor a situação. Só com uma ressalva: não dá pra usar o aborto como um método anticoncepcional, né? Quando se fala de uma coisa pra todos é cruel, por isso acho a leis burras. Elas são pra todos e cada caso é um caso. Mas eu sou a favor do aborto sim. E sim, nada melhor pra usar como desculpa que suas crenças. Desculpa boa essa, mas cuidar das crianças abandonadas? Isso eu não vejo a igreja fazer não.

NADA POP – O que de mais importante o underground e a música independente trouxeram para sua vida?

EDWIGES – Posso dizer que se tornou a minha própria vida. Me ensinou a não ter preguiça, lutar, correr atrás do que eu quero. Quando encontro dificuldades no meio do caminho não tenho medo, não desisto. Assim sim que vou em frente. Quanto mais difícil melhor é o resultado. Uso isso sim, pra tudo em minha vida.

NADA POP – Muito obrigado pela conversa. Este espaço é livre para o que você quiser dizer!

EDWIGES – Pela cena punk em geral não desanimar! Desistir jamais! Continuem tocando, produzindo, escrevendo… Qualquer forma de manifestação é muito válida, mesmo que não possamos viver num mundo que sonhamos, podemos pelo menos tentar fazer nosso mundo melhor!

Obrigada à você pela paciência, de esperar. Desculpa pela demora. Perdi a minha página mesmo e junto com isso as perguntas… E também por não desistir. Gosto de gente assim. Eu também sou assim. Quero dizer a todos que se deram o trabalho de ler obrigada e convidá-los a comparecer nos próximos sons.

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Evento PesaDoNNas – Festa Punk na Raiz no dia 06 de março às 14h – Clique na imagem para ser direcionado para o evento no Facebook

SERVIÇO

Evento PesaDoNNas – Festa Punk na Raiz no dia

Onde: Casa Raiz Libertária – Rua Telmo Coelho Filho, 200
Quando: 06 de março, às 14h
Entrada: Doação de itens de higiene pessoal para mulheres em situação de rua (absorventes, roupas, cremes, entre outros)
Com as bandas Ratas Rabiosas + Motim + Trassas + Rebelião 16 + Terceira Lâmina + Menstruação Anárquika

Mais informações no evento criado no Facebook: http://migre.me/t930U

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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