segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Nada Pop

Lendas do Underground: Barata, do DZK – TEM PUNK AÍ??

Sem introduções, sem papo furado. O entrevistado da vez dispensa qualquer tipo de apresentação. Como certa vez disse o André, da banda Imminent Chaos, “um cara que se alguém abrir a boca pra falar mal já assina seu próprio atestado de mau-caráter”. Um cara que vive o punk de verdade, de corpo e alma, em toda a sua essência desde quando a maioria das pessoas que fazem a cena hoje ainda engatinhavam ou sequer tinham nascido. Com vocês uma autêntica lenda do underground e líder de uma das bandas punks mais importantes do Brasil: Barata, do DZK!!

Barata (1)

NADA POP – Barata, mil desculpas, mas eu não poderia começar essa entrevista de outra forma senão perguntando: TEM PUNK AÍ??

BARATA – Opa amigo, aqui tem punk até o osso! Sempre.

Barata (8)

Barata – Crédito: divulgação

NADA POP – Como foi que o punk e o punk rock entraram na sua vida?

BARATA – Nos anos 70 eu curtia o ‘rock pauleira’, como era chamado na minha época. Já nos anos 80 conheci o punk rock através do meu irmão mais velho, que começou a andar todo de preto e cheio de alfinetes pela roupa e um cadeado no pescoço. Aquilo me chamou a atenção pelo que já estava acontecendo, e perguntei a ele o que era aquilo, aquele visual diferente. Ele me respondeu: isso é punk! Essa palavra me bateu muito forte, comecei a me informar mais a respeito disso tudo. Me lembro da revista Pop com Sex Pistols, o livro do Antonio Bivar “O que é punk”… Vi que tinham bandas cantando em forma de protesto e aquilo tudo tinha a ver comigo. Desemprego, repressão, ditadura… Comecei a conhecer as bandas. Olho Seco, Cólera, Restos de Nada, Condutores de Cadáveres, Hino Mortal, Ulster, Garotos Podres e por aí vai. Aí acabei adotando o punk como estilo de vida. Quando vi já estava cantando na banda Desespero e depois vim pro DZK.

NADA POP – O punk foi um movimento de transformação muito grande para a sociedade quando de seu surgimento, tanto comportamental quanto musicalmente. Na sua visão qual a contribuição do punk atualmente?

BARATA – O movimento punk nasceu em forma de música e protesto, e tem contribuído muito até os dias de hoje, seja na forma de música, de se vestir e produzir, apesar que tudo hoje está muito confuso no meio da cena. Já não sabemos mais quem é quem. Eu prefiro, em meio a tudo isso, manter a palavra punk, sem nada antes dela e nada depois dela. Pra mim é punk e pronto. Nossa contribuição está aí. Veja quantas bandas temos, material produzido por nós mesmos. Isso tudo mudou o mercado fonográfico, onde o ‘faça você mesmo’ prevalece até os dias de hoje.

NADA POP – Você ainda acredita em uma revolução de comportamento, de ideais e de valores, como na época do lançamento de ‘Imperialistas’ (2000) ou o momento atual inspira certo pessimismo?

BARATA – Quando falamos de imperialismo já lembramos do Estados Unidos querendo impor sua dominação no mundo. Vivemos muito tempo com uma dívida externa com eles, onde eles é quem ditavam as regras por aqui. Aí começamos uma revolução de comportamento e ideais para acabar com essa farra de pegar dinheiro emprestado, e tirar do pobre coitado para pagar os juros da dívida que não acabava nunca. Alguns anos atrás conseguiram pagar essa dívida e se manter com o que produzimos, mas no momento atual vivemos uma crise política que impede o país de avançar, pois, sem exceção, todo político é ladrão. Se apoia no povo para tirar benefício próprio, enquanto nós é que pagamos com desemprego, falência da saúde, fome e todo tipo de miséria. é o que sobra pra nós, mas ainda acredito na revolução e ideais como forma de luta sempre.

Barata (2)

DZK – Crédito: Marco Rodrigues

NADA POP – O DZK acumula histórias e shows pelo circuito independente em todos os cantos do país. Tem alguma apresentação da banda que ficou guardada em um lugar especial da memória? O que aconteceu? Como foi?

BARATA – Na minha memória guardo vários momentos. Citarei aqui um desses. Nos anos 90 tínhamos uma guitarrista na banda, a Chileninha (Karina Zapata) e fomos tocar em Apucarana, no Paraná. Detalhe, ela estava no oitavo mês de gestação. Ela quis participar pois seria o último show dela no DZK. Chegamos no local e encontramos toda a galera reunida numa casa, no centro da cidade, mas o show seria em outro lugar, o que ficamos sabendo na hora. Seria na fazenda Colônia Mineira. Partimos em passeata rumo ao local. Chegando lá já escuro, maior breu, total sem luz. O lugar estava fechado.

Um punk já meteu o pé na janela arrombando tudo e invadimos o local. Perguntei o porquê daquilo e eles me disseram que era um protesto contra a venda da fazenda, pois aquilo era patrimônio histórico da cidade e o show seria ali, no dia seguinte. Iríamos dormir ali aquela noite. Falei que tudo bem, só queria arrumar um lugar menos pior pra Chileninha dormir, porque o estado dela era delicado. Conseguimos uma rede e armamos para ela dormir e o resto da galera se arrumou em qualquer canto da casa. Ao amanhecer saio pra fora, para apreciar o lugar. Era lindo, cheio de casas e… um monte de policiais em frente, todos de braços cruzados nos olhando, sem falar nada. Mas já deu pra sentir que as coisas não iriam terminar bem. Descemos todos para um campo de futebol. O show seria ali.

Um caminhão de som já estava sendo montado. Quando fomos passar o som alguém cortava a energia do lugar. Em boicote mesmo. Não à banda DZK e sim ao evento. Ai a polícia colocou as mangas de fora e pediu para que todos fossem embora, porque ali não iria rolar nada de show. Beleza. O caminhão sai dali em direção a uma praça no centro da cidade com todos os punks atrás. Paramos na praça central, puxamos os cabos de força da praça, lá já tinha um coreto em forma de palco, tudo pronto. Começamos a tocar e boicotaram de novo, pois o local estava cercado de viaturas. Aproveitei ainda um momento em que tudo funcionava, microfone ligado ainda, e falei pra galera que eles viviam uma ditatura na cidade e os políticos dali eram conservadores e não queriam esse tipo de manifestação por ali. Aí tocamos duas músicas: ‘Promessa de político’ e ‘Cabeça quadrada’. Foi quando acabou de vez o show, fomos todos embora.

Barata (3)

Barata no Inferno Club – Crédito: Nadia Ramone

O DZK foi pra rodoviária. Ao chegar lá me deparei em frente uma banca de jornal com uma matéria estampada no jornal da cidade, com os dizeres ‘Punks protestam contra a venda do patrimônio histórico Colônia Mineira’ e tinha uma foto da galera, todos juntos, e eu numa foto com a mochila nas costas. Queria comprar o jornal, mas estava com o dinheiro contado pra voltar. Foi quando um senhor ao meu lado perguntou se era eu quem estava ali na foto. Disse que sim e ele falou: pode levar o jornal. Eu apoio esse protesto. Fiquei super feliz com aquilo, e vi que não foi em vão o que passamos.

NADA POP – As crianças continuam abandonadas e não valendo nada nesse país. Não bastasse isso, agora temos esse surto até o momento sem explicação de microcefalia. Essas crianças irão crescer, claro. Você acredita que serão tomadas medidas para inclusão desse enorme número de pessoas com necessidades especiais na sociedade nos próximos anos ou os governantes serão omissos mais uma vez? Quais medidas você acredita que deveriam ser tomadas já, pensando nesse quadro futuro?

BARATA – Infelizmente ainda vemos milhares de crianças sendo largadas em lixeiras, rios e qualquer outro canto do país. Com o avanço dessa epidemia falam em uma vacina sendo testada para prevenção, mas custa muito caro para eles investirem nisso. Falam em milhões para a saúde, mas sabemos que esse dinheiro, quando liberado irá se perder no meio do caminho, para os bolsos dos políticos. Acredito que terá sim uma assistência a essas crianças, mas muitas perderão suas vidas como foi para amenizar a mortalidade infantil. As medidas a serem tomadas partem da prevenção, e nós também fazemos parte disso, procurando não facilitar com descuido em sua própria casa. Mas quem tem o poder do dinheiro para investir são eles, pois já temos um sistema de saúde falido. Agora cabe ao povo cobrar, ir atrás mesmo e fazer valer seus direitos de cidadão.

NADA POP – 2016 é ano de eleição. Será que tanto acesso à informação como o que a sociedade tem hoje vai ser de fato aproveitado, e veremos os velhos políticos corruptos de sempre darem lugar à melhores escolhas?

BARATA – Hoje temos acesso muito mais rápido as informações. Acho que o povo está acostumado com aquele velho bordão ‘esse candidato é menos pior’, e vota nele, dando poder a eles, para mais tarde te colocarem um cabresto. Na verdade já sabemos que quando eleitos nada irão fazer. Nada para ajudar o povo, e sim vão trabalhar em favor próprio e deixar o povo à míngua. Pra mim o voto não deveria ser obrigatório. Vota quem quer, mesmo sabendo que sempre vai ter um político ladrão no poder para te foder. Cabe ao povo não se calar e ir pra cima mesmo, quebrando tudo.

Barata (6)

DZK em ação – Crédito: divulgação

NADA POP – Conte um pouco sobre o programa ‘Rota 77 – O rock da periferia’, apresentado por você e Marcos Ribeiro. Como as bandas devem fazer para ter seu som incluído na programação?

BARATA – Sobre o Rota 77, começamos a fazer a rádio em 2003. Eu sempre tive material de muitas bandas que ganhava ou acabava comprando mesmo. Depois de um tempo tinha um site onde as bandas podiam mandar seus materiais para tocarmos, mas no momento a radio está parada. Pretendo voltar a fazer, mas preciso de arrumar outro parceiro para fazer comigo, porque o Marcos não quer fazer mais. Era ele quem fazia a edição do programa e colocava no ar. Assim que eu tiver pronto para continuar aviso a galera uma forma de me mandarem material.

NADA POP – Recentemente você fez uma tatuagem que imortaliza o apelido ‘Barata’. Como surgiu esse apelido?

BARATA – Antes de entrar no DZK eu participava da banda Desespero, de 1986. Eu já tinha um apelido de Necão, dado pela família, pois meu nome é Manoel. Quando vim pro DZK, o Makarrão, batera da banda, me deu esse apelido de Barata, porque eu costumava cantar olhando para os cantos da parede. Aí o apelido pegou e é como sou conhecido, o Barata do DZK. O Leandro Franco, cartunista que tem a banda Asteroides trio fez a minha caricatura e me mandou. Adorei a homenagem que ele fez e imortalizei na pele, com o amigo Alexandre Longo, da banda El Bosto.

Barata (7)

Charge do Leandro Franco, dos Asteroides Trio, em homenagem ao Barata.

NADA POP – A pergunta que não quer calar… Existe mesmo o projeto de lançamento de um álbum de inéditas do DZK? As músicas já estão prontas? Qual a previsão de lançamento?

BARATA – Existe sim. Estamos trabalhando no novo álbum, mas como todos trabalham vai ficando cada vez mais difícil de nos encontrarmos pra terminar isso. Estamos sempre tocando, o Charuto (baixista) mora em Limeira (interior de São Paulo)… Começamos a fazer menos shows pra ver de terminar o disco, mas também não tem rolado. Quando dá pra um, não dá para o outro. Aí vai ficando mais difícil de concluir as músicas para entrar em estúdio. Espero que 2016 saia logo esse disco.

NADA POP – Muito obrigado pela conversa e este espaço é livre. Pode dizer o que quiser!!

BARATA – Muito obrigado a você Wagner e ao Nada Pop por me permitir ainda aos meus 54 anos de estar participando de tudo isso. Agradeço a todas as bandas que já tocaram com o DZK e a todos que sempre nos apoiaram nos shows. Punk sempre!!! Sempre punk!!!

Álbum completo – De geração para geração eternamente punk (1997)
https://www.youtube.com/watch?v=0i8mFYlKHz8

Álbum completo – Imperialistas (2000)
https://www.youtube.com/watch?v=r6NlwTBVfes

Álbum completo – Fui punk (2006)
https://www.youtube.com/watch?v=7-ht0vq3J8E

Contato e-mail
barata@bandadzk.com

Página Facebook
https://www.facebook.com/bandaDZK

Site oficial
http://www.bandadzk.com/

Página Facebook Rota 77
https://www.facebook.com/programarota77

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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