sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Nada Pop

Lendas do Underground: Adriano Pacianotto, o agitador cultural, poeta e DJ

Adriano Pacianotto botou os pés no underground em 1990, quando conheceu a cena gótica paulistana e passou a frequentar os “inferninhos” do centro da cidade. É poeta, DJ e produtor – tem que fazer um pouco de tudo pra sobreviver nesse cenário – e seu trabalho se desenvolveu em cima disso.

Publicou poemas em zines, livretes, Internet e pendurou poesias em banheiros sujos (sim, banheiros) por aí. Também teve um grupo performático chamado Pesadelo Químico entre 1995 e 1998, e produziu festas, shows, saraus, trabalhou como DJ e promoter em uma porrada de casas noturnas. Atualmente segue com o Projeto Penha Rock, que amplia o espaço para bandas independentes mostrarem seu trabalho, ao mesmo tempo, traz cultura e lazer para os moradores da região da zona leste de São Paulo. Adriano também atua na produção da banda Color for Shane, uma das principais bandas de São Paulo. Saiba mais sobre o que pensa essa lenda do underground.

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Adriano mostra um pouco da sua verve poética durante um dos últimos (ou último) shows da banda Jacks Revenge. Foto: arquivo pessoal

NADA POP – Quais são os maiores desafios e benefícios em ser um agitador cultural?

ADRIANO PACIANOTTO – Há dois desafios fundamentais: a falta de grana e a falta de interesse do público. Brasileiro não é muito fã de exercitar o cérebro, não gosta do imprevisível, prefere a futilidade e a repetição. Levar novos conceitos é um desafio imenso. A galera do “toca Raul” prolifera feito rato (risos). Os benefícios vão chegar futuramente, espero; trabalhar com cultura é trabalhar a longo prazo.

NADA POP – A internet possibilita que a própria banda divulgue seu som, porém muitas acreditam que só isso é o suficiente para atrair a atenção. Pela sua experiência esse é um grande erro, não?

ADRIANO PACIANOTTO – Tudo errado! A Internet é a coisa mais útil e a mais inútil ao mesmo tempo. Serve pra um monte de coisas bacanas, inclusive pra divulgação e comunicação, mas também é um mundo de ilusão. Vejo todos os dias bandas pagando de fodinhas porque atingiram não sei quantos mil plays em sei lá que porra de plataforma. Grande merda! É só clique, ninguém prestou atenção na música. Que adianta ter 1 milhão de amigos nas redes sociais e não ter um filho da puta pra pogar no show. Vale o quê? Engana quem?

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Em 1996, Pacianotto em atuação com o o grupo performático “Pesadelo Química”. Foto: arquivo pessoal

NADA POP – Fale sobre o projeto Penha Rock, quando surgiu e quem pode participar e a forma de contato.

ADRIANO PACIANOTTO – Foi pensando em toda essa coisa do público que não se interessa por novos conceitos que decidi tirar as bandas independentes do underground e colocá-las em espaços públicos abertos. Escolhi a Penha por ser meu bairro e ao mesmo tempo um reduto rock’n’roll. Tem funcionado bem. O projeto completa 4 anos em agosto, e embora sofra com a falta de recursos não vai parar tão cedo. Tem uma lista enorme de bandas interessadas em participar, por isso demora pra agendar. Não tem restrição, dou preferência pra trabalhos autorais, mas às vezes tocam bandas cover. Em suma, se você tem uma banda e leva seu som a sério, mande um e-mail pra projetopenharock@gmail.com.

NADA POP – Entre as histórias que você já viveu no undergorund, o que realmente te motiva a continuar se envolvendo com projetos culturais, bandas e shows?

ADRIANO PACIANOTTO – Creio que cada um nesse plano terrestre tem uma missão estabelecida, uns vem para serem médicos, outros juristas, outros artistas, enfim. Vim ao mundo para a arte e para a cultura, não poderia viver uma vida diferente. O underground foi o meio que encontrei para expressar minhas ideias e desenvolver meu trabalho, foi onde encontrei os ouvidos mais atentos e as histórias mais interessantes. Sou movido pelo amor ao que faço.

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Clemente (da banda Inocentes), Wladimir Cruz (Zona Punk) e Adriano Pacianotto durante o Projeto Autobahn (2012). Foto: arquivo pessoal.

NADA POP – Quais são os erros que as bandas cometem com mais frequência? E, vamos ser sinceros, qual é o pior tipo de bandas que existe? Não precisa citar nomes (risos).

ADRIANO PACIANOTTO – Viver a ilusão dos cliques de internet, como dito acima é, sem dúvida, um dos mais comuns, mas o egocentrismo não fica atrás. Banda que se acha a última bolachinha do pacote é o tipo mais desprezível que existe, porque não é um erro artístico, é um desvio de caráter. Esse tipo de banda nunca age honestamente e procura sugar qualquer brilho alheio. São bandas destrutivas. Se eu for citar nomes só termino esta entrevista amanhã (risos).

NADA POP – Quando as bandas conseguem ficar mais conhecidas e até lotar shows, sei que você viu um monte de banda alcançar certos objetivos, esquecer as suas origens pode ser fatal. Não?

ADRIANO PACIANOTTO – É bem simples: se cuspir no prato que comeu se fodeu (risos).

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Poesias do Pacianotto publicadas em fanzines.

NADA POP – Quais bandas você tem escutado ou acompanhado de perto o trabalho e recomenda pra gente? Não vale citar nem Color for Shane e nem Sky Down, ok? Já sabemos que elas são ótimas.

ADRIANO PACIANOTTO – Como adivinhou que eu ia citá-las? (risos). Bom, ouço tanta coisa, então vou citar o que andei ouvindo na última semana: Asteroides Trio, Jair Naves, FireFriend, Hitchcoks, Krias de Kafka e Porno Massacre. São todas de altíssimo nível.

NADA POP – E o público? O quanto ele mudou nos últimos anos, deixou de ser participativo e está mais perto do YouTube do que de um evento do lado da sua própria casa? Tem alguma ideia do que causou esse afastamento? Ou estamos falando bobagem?

ADRIANO PACIANOTTO – Hoje grande parte do público está no You Tube com certeza, porém, presença e participação são coisas distintas, antigamente o público era presente, mas não participativo, não estava nem aí pra banda nem porra nenhuma, só queria chapar e se divertir. Nosso cenário sempre foi uma merda, só que antigamente estávamos chapados demais pra perceber.

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Em 2015, a Porno Massacre foi uma das bandas que participou do Projeto Penha Rock realizado no Centro Cultural da Penha. Foto: arquivo pessoal.

NADA POP – Vemos muitas bandas se manifestando politicamente – seja a favor ou contra ao atual governo. Claro, não basta se manifestar, mas embasar seus argumentos. Porém, muitas evitam esse debate e preferem se omitir para não criar incômodos com o seu “público”. Você acredita que essa é uma atitude correta (ser uma banda mais isenta)? Qual o papel social de uma banda de rock, em sua opinião?

ADRIANO PACIANOTTO – Acho que o papel da banda, como de qualquer artista, é aquele a que se propôs, seja tendo um posicionamento político ou não. Exigir essa ou aquela postura do artista é, no mínimo, desrespeitar seu direito à liberdade. Já o papel social também está relacionado à proposta da banda. Envolver-se em alguma causa social nunca é demais, mas não deve ser obrigatório.

NADA POP – Adriano, muito obrigado pelo papo. Deixo o espaço destinado para você incluir o que você quiser ou dar algum recado. Valeu!

ADRIANO PACIANOTTO – Muito obrigado, Nada Pop! Meu recado é: saiam da Internet e vão viver a vida, ela é curta demais pra ser vista através de uma tela fria.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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