segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Nada Pop

In Venus: banda feminina em luta contra o sexismo no cenário musical independente

In Venus - Foto: Joe Santos

In Venus – Foto: Joe Santos

“Mother Nature” é o primeiro single da banda paulista In Venus, formada em 2015 por Cintia Ferreira (voz e sintetizador), Priscila Lopes (baixo), Rodrigo Lima (guitarra) e Camila Ribeiro (bateria). No grupo não existem “iniciantes” na música, muito menos no feminismo. Seu discurso é de empoderamento e revolta, mulheres que lutam diariamente contra preconceitos. Em seu primeiro som, não se preocupe se ficar ficar hipnotizado, numa sensação de êxtase. É a mãe natureza invadindo o seu corpo e mente, são mulheres revelando sua força e demonstrando que você está em suas mãos. Seja guiado pelo som, a viagem pode ser mais interessante do que você imagina.

Abaixo a nossa entrevista com as mulheres que fazem o som da In Venus. Ouça Mother Nature abaixo.

NADA POP – A In Venus é uma banda sobre o empoderamento e luta feminina, certo? Como a banda surgiu, qual é a proposta política e social das letras, além, é claro, como foi a criação, produção e lançamento do single “Mother Nature”?

IN VENUS – A banda surgiu da resolução de “treta de mina”. A Camila e eu (Cintia) fomos alvos de algumas fofocas machistas que acabou nos afastando. Até que um dia eu percebi que a gente precisava conversar e resolver essas coisas. Nesse dia que nos encontramos pra conversar, ela estava com a Pri e eu com o Rodrigo. Estávamos querendo botar fim às ideias erradas que nos colocaram e resolvemos que deveríamos unir forças. A Pri e a Ca já haviam tocado juntas quando adolescentes na cidade natal delas, Guaratinguetá, e eu e o Ro já pensávamos em fazer alguma coisa também. Nesse dia a banda surgiu. Isso foi no começo de 2015.

A nossa música é feita por e para mulheres, apesar de termos um homem na banda e valorizarmos muito a participação dele, é importante ressaltar o nosso destaque. As letras retratam inconformismos contemporâneos, as lutas do dia a dia e em especial a luta das mulheres.

Mother Nature é uma exaltação a Gaia, é uma lembrança de que todas nós mulheres temos um passado histórico, que fomos colocadas como bruxas por questionar o patriarcado. É uma saudação de que todas nós temos a mãe natureza dentro de nós e que todas somos fortes, tal qual a natureza vem provando todos os dias.

Nosso primeiro single também foi uma das nossas primeiras músicas feitas, que ao longo de pouco mais de um ano passou por transformações. Com a ajuda do Lucas Lippaus (produção artística), que trouxe vários elementos novos, conseguimos chegar numa nova harmonia. Lançamos em parceria com a Efusiva, PWR e Howlin, dois selos que destacam o trabalho autoral de mulheres e um selo que nos viu engatinhar como banda. Não tinha como ter sido um lançamento melhor!

In Venus - Foto: Joe Santos

In Venus – Foto: Joe Santos

NADA POP – Sobre o single, é possível sentir as influências de noise, postpunk e até um gosto meio gótico. Quais as influências da banda nesse sentido, cite bandas se quiserem, e o que podemos esperar do EP que vocês pretendem lançar em 2017?

IN VENUS – Sim, tem muita influência de noise, postpunk e gótico sim. As nossas influências são muito variadas e a gente tenta misturar tudo na hora de compor. Cada um trouxe uma referência diferente. Eu (Cintia) e a Camila viemos de uma escola do punk/hardcore/post-punk. Temos também muita influência de bandas de minas, Riot Grrrl. A Pri tem uma pegada mais rock alternativo e indie. E o Rodrigo é total 90’s shoegaze, noise… Todas essas referências se refletem muito na nossa música. Pra colocar em bandas, a gente pode citar muitas coisas: Xmal Deutschland, Malária, As Mercenárias, 7 Year Bitch, Babes In Toyland, Bikini Kill, The Gits, Sonic Youth, PJ Harvey, Patti Smith, Siouxsie and the Banshees, Lava, Yeah Yeah Yes, Joan Jett, Cat Power, Dominatrix, Alice in Chains, Mudhoney, Dead Kennedys, My Bloody Valentine, Placebo, The Cure, Smiths, Joy Division, David Bowie… A lista é extensa.

Em 2017 lançaremos um full álbum com 9 músicas. Só podemos dizer para esperarem muito barulho hehehe 🙂

NADA POP – “Mother Nature” me pareceu representar a força feminina na criação (natureza) em paralelo com a força feminina e a força do feminismo. Que tipo de impacto as mulheres, com cada vez mais consciência sobre direitos iguais aos homens, podem causar em nossa sociedade e o quanto acreditam que estamos perto desse acontecimento?

IN VENUS – Não podemos falar apenas em direitos, hoje temos direitos muito parecido aos dos homens, o que precisamos falar é que ainda temos uma desvantagem social que nos deixa pra trás no que diz respeito a equidade. Mulheres ganham menos que homens, mulheres negras ganham menos que mulheres brancas, mulheres gordas perdem oportunidades de trabalho quando concorrendo com mulheres magras. Mulheres ainda morrem por serem mulheres. Homens não morrem por serem homens. Ainda temos uma série de estigmas que estão muito além de direitos.

Acredito que o primeiro passo é o mais difícil, mas como disse a Camila, é um caminho sem volta. Cada vez mais, mulheres vão se calar menos. O impacto disso será uma sociedade mais justa e menos desigual, mas ainda estamos muito longe. Não chegamos nem perto do ideal dentro do capitalismo que é um ideal extremamente liberal, trazer igualdade significa quebrar com o capital e o patriarcado, acredito que ainda serão séculos de luta intensa.

NADA POP – Nesse sentido também, o quanto a nossa “cena independente” ainda é sexista – cite, por favor, exemplos – e como nós, homens (e eu me coloco inserido nisso), podemos contribuir para a compreensão desse problema e, o mais importante, impedir que isso aconteça?

IN VENUS – Cara, é tão sexista que, numa banda composta por 3/4 de mulheres, a gente recebeu uma mensagem falando “Ae rapaziada, muito dahora o som de vocês!”. hahahahaha
É tragicômico. A gente tá lutando intensamente para sermos vistas como banda (e não banda de mina) e ainda temos que reafirmar toda hora que somos mulheres que lutam por representatividade. Segundo é perceber que mulheres podem fazer e muitas fazem melhor que homens, não se sentir diminuído por isso é fundamental, o que a gente percebe é que somos ironizadas e tiradas o tempo inteiro quando provamos ser tão boas ou melhores que homens. Terceiro é deixar de lado a homisplicancia (mansplanning) porque não somos burras, isso é só mais uma prova de que homens se sentem inseguros com nossa relevância, em especial quando estamos falando em música (eu já fui cobrada de coisas do tipo “quarto guitarrista de uma banda xyz”, como se isso tivesse alguma diferença). Quarto é importante que homens entendam que são o problema do patriarcado (tem muito homem que não compreende isso), muitos estão aí pagando de desconstruidão, mas continuam cometendo pequenas (e grandes) violências contra mulheres.

A In Venus também lançou um fanzine. Clique na imagem para ser direcionada(o).

A In Venus também lançou um fanzine. Clique na imagem para acessar.

NADA POP – Temos diversos casos de homens envolvidos com a cena punk/ hardcore ou alternativa que são denunciados por assédio e violência moral e física contra mulheres. Nesse sentido, é possível identificar pessoas que usem de argumentos pró-feminista a favor de interesses próprios? Dá pra sacar isso? Um caso recente que chamou a atenção de todos foi o Chileno que carregou “cartaz feminista” em protesto e logo em seguida foi denunciado pela ex-mulher por violência (leia o caso aqui: http://migre.me/vCfW0).

IN VENUS – Difícil identificar de primeira, porque eu (Cintia), pelo menos, tendo a acreditar que esses caras estão do nosso lado. Só que aos poucos as máscaras caem, o machismo vai aparecendo, esses caras vão sendo expostos… Não tem muito uma regra, mas sempre acontece. É uma parada que não falha. É homem? Já fez ou vai fazer merda sexista uma vez na vida. O lance é minimizar o “desgosto”.

NADA POP – A banda lançou junto com o single também um zine. Como surgiu a ideia desse tipo de lançamento junto com a música, quem fez o zine, do que trata e quem quiser pode baixar/comprar onde?

IN VENUS – A gente queria lançar algum material junto com o single, mas não tínhamos pensado o que seria. Daí um dia o Lippaus mostrou o zine do Bratislava e achamos ótima a ideia de explorar esse formato, mas pensando mais em conteúdo do que em imagens apenas. Como a música fala sobre bruxaria, nós pensamos em continuar na mesma pauta e falar sobre Sagrado Feminino. Daí comecei a conversar com mulheres que participam de rituais, que tem material escrito sobre o assunto e convidamos a Carol Serrano (lascaa.com.br) para ilustrar os textos. A Camila fez a diagramação do zine e fizemos o lançamento virtual. A gente pretende fazer uma tiragem física limitada (ainda não calculamos o valor, mas acredito que seja no máximo R$10), poderão ser compradas em shows, através da nossa página, ou pela Howlin, pela PWR e pela Efusiva. Por enquanto pode ser visto aqui: http://migre.me/vChIB.

NADA POP – Gostaria que você indicasse e falasse um pouco sobre outras bandas atuais formadas por mulheres, além de coletivos feministas que possam incentivar pessoas interessadas no assunto ou apenas para que a gente conheça o trabalho e possa acompanhar.

IN VENUS – Tem vários projetos por ai pipocando, né? Mas o que destaco da cena nacional: Sky Down que tá com uma cara nova depois que a Amanda assumiu o baixo; Ema Stoned, quarteto fantástico de música experimental; Mietta, o Rodrigo e eu (Cintia) piramos muito no single que elas lançaram recentemente; La Burca, dupla muito massa; Trash no Star, banda fofa que eu tenho vontade de balançar a cabeça quando escuto; Bertha Lutz RiotGrrrl HC Feminista, pesadelo dos macho fascista; Ostra Brains, garage punk pesado made in RJ; Lâmina, que chegou quebrando tudo depois de quase 10 anos; Charlotte Matou um Cara, hardcore punk do amor e contra macho; 3D e a volta triunfante; Mari Bloody Mary Una Chica Band, que é uma garageira intensa; Travelling Wave e uma pira maravilhosa; Miami Tiger com sua mensagem direta e reta; Quarteta, que tá vindo poderosíssima; Readymades e suas bucetas pós modernas; Lari Pádua, que é uma musicista-toca-tudo incrível, tem muita coisa… Tem um monte de banda rolando e algumas que estão por vir que estou ansiosa. Tá em alta banda foda acontecendo, o que falta é abertura pra essas bandas que ficam quase invisíveis quando comparamos com bandas masculinas.

In Venus - Foto: Joe Santos

In Venus – Foto: Joe Santos

NADA POP – Vira e mexe vejo homens nas redes sociais recebendo críticas por comentários e insinuações que diminuem as mulheres. O quanto a internet é reveladora pra vocês nesse sentido e o quanto acreditam que os homens estão dispostos a reconhecer esses erros e não repeti-los?

IN VENUS – Na internet todo mundo pode ser o que quiser, né? É uma faca de dois gumes. Alguns até entendem quando a gente coloca que eles estão sendo babacas. Outros não e continuam insistindo que não estão sendo idiotas. Pessoas se protegem atrás do computador, e isso é o mais problemático. Quando a gente conversa pessoalmente, as respostas são outras, é bem complexo.

NADA POP – Gostaria de encerrar agradecendo o papo e peço para que vocês deixem seu recado e considerações finais. Valeu!

IN VENUS – Queria falar pras minas todas que lerem isso que a gente precisa se unir. Não precisamos concordar com tudo que se fala e muito menos vir com esse papo de “mais amor”, o mundo também é feito de discordâncias. Todavia, é bastante importante estarmos juntas em qualquer situação. O mundo já é muito injusto com a gente, já passamos boa parte da vida com raiva das companheiras porque o patriarcado faz isso com que sejamos competitivas desde que nascemos. Perceber que estamos na merda, e que a merda que a colega do lado está é maior que a nossa é um caminho. Pra sair dela, vamos precisar dar as mãos. Ainda que tenhamos histórias diferentes, muitos dos nossos estigmas são iguais. Como disse Audre Lorde “não serei livre enquanto outra mulher for prisioneira, ainda que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

PRECISAMOS NOS RESPEITAR E NOS PROTEGER!

Obrigada, NadaPop!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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