sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Nada Pop

I’m The One Hanging Out With Teenage Bottlerocket, Motherfucker!

AVISO

Este texto não é uma resenha. Resenha você encontrará em qualquer outro blog ou site. Isso aqui é um relato do que aconteceu no dia 20 de setembro antes, durante e, principalmente, depois do show da Teenage Bottlerocket e da Flanders 72 no Inferno Club, em São Paulo.

Eu odeio resenhas

Eu odeio resenhas. Não, não é verdade, não odeio resenhas. O que odeio são textos que não relatam o que realmente aconteceu em determinada ocasião, textos que não transmitem emoções, textos sem substância, textos para cumprir tabela, textos criados para agradar uma minoria, textos refinados e rebuscados para o que não precisa ser nem refinado, muito menos rebuscado. Portanto, se você busca aqui uma resenha do show que aconteceu no último dia 20, saiba que foi tudo ótimo, as bandas tocaram muito bem e todo mundo se divertiu, ok? Ok.

Agora, se você busca um relato sobre a experiência que foi esta noite, sem puxa-saquismo, mas com uma boa dose de emoção e verdade então se prepare, abra uma cerveja, coloque um bom som e aproveite. Este não é um texto imparcial. Não existe imparcialidade quando o assunto é boa música, fãs fervorosos e shows maravilhosos.

Quando rolou a notícia de que a Teenage Bottlerocket viria ao Brasil eu não acreditei. Alguns amigos já haviam tentado trazer o quarteto, mas nunca rolava. De repente surgem três flyers: shows em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Com a confirmação oficial pela banda, a parada ficou séria. Na mesma semana, os amigos da Flanders 72 foram anunciados como o grupo de abertura dos shows e foi bem legal ver que participariam de uma turnê desse porte.

O show de São Paulo aconteceria na Inferno Club, já tradicional casa do eixo Augusta-Loucura. Logo de cara, quando anunciaram os shows, achei que a gig de São Paulo rolaria no Hangar 110, querendo ou não, é o primeiro local onde se imagina que rolarão shows de bandas como a TBR, como também são conhecidos. Logo depois, meu pensamento foi o de “será que vai dar uma galera?” É uma preocupação natural, pois com a banda vindo pela primeira vez ao Brasil, normal que se pense assim dada a importância que têm para o cenário pop punk/bubblegum e, para os gringos, nada melhor do que encontrar um bom público quando se visita um novo país.

Garoa, muita cerveja e bubblegummers

O dia do show parecia um bocado estranho. Havia chovido bastante na noite anterior e um misto de garoa fina com céu cinzento me deixava com a sensação de que, provavelmente, poucas pessoas compareceriam. Engano meu. Após ensaiar com o grupo musical do qual faço parte, rumamos para a Augusta e por volta das 15h30 demos de cara com a banda chegando ao hotel, vizinho ao Inferno. Eu olhei, olhei mais e pude ver os caras saindo da van quando, de repente, aparece o grande Rodrigo (aka Tonny Powzer) da banda Os Pedrero acenando para que fôssemos até o hotel. Quando nos aproximamos, pudemos perceber que a barreira banda-público com certeza não existiria naquele dia. Brandon Carlisle, o baterista da TBR, foi um dos primeiros a cumprimentar o pessoal que ali estava. Alegre, falastrão e gente-fina, tentava dar atenção para todo mundo enquanto, ao mesmo tempo, ousava em tirar fotos de um morador de rua dirigindo seu carrinho de madeira habilmente pela Augusta. Após tirar algumas fotos com o pessoal, a banda convidou a galera toda para o hall do hotel. Mais fotos e mais bate-papo com toda a crew TBR, porém era hora dos caras descansarem e fomos para o boteco do Raul, em frente à Inferno, conhecido pela grande estátua do Raul Seixas exposta no estabelecimento.

Cervejas e mais cervejas eram severamente devoradas enquanto o público começa a chegar. O mais incrível foi ver o pessoal de várias bandas pop-punk e/ou bubblegum comparecendo como Firstations, Xupacabras, Seven-Elevenz, Teen Lovers e bastante gente de fora de São Paulo também. Ainda deu tempo de dar as boas-vindas à meninada da Flanders 72 e levar um lero rápido com a meninada. Estavam bem ansiosos, mas não pareciam nada nervosos. Acredito que pelo show anterior, em Curitiba, ter sido bom, então a pressão não é mais a mesma. Parecia uma reunião da classe de 2000, ano em que o estilo musical calcado na marca registrada pelos Ramones estava em seu auge no independente brasileiro. Quando dou por conta, já havia uma boa galera fora do Inferno e algum pessoal já entrando na casa.

Eu, que não sou vacilão, preparei um kit-presente para os caras da TBR com camiseta e CD da Lomba Raivosa! e CDs da galera da Luta Civil, Triste Realidad (ARG) e Zeta (Venezuela), além de uns bottons. Logo na entrada do pico, tive a chance de encontrar o Clint Carlin (que toca com o Miguel Chen na banda Stat Dad), roadie e merch guy da TBR ali pela banquinha de camisetas e CDs que os caras montaram. Coitado do Clint, ele é tão zoado pela banda que deixei um kit para ele, mas creio que ele não pirou muito na ideia, achando talvez que eu usaria aquela manobra para tentar trocar por merchandise da TBR. Ele foi educado, agradeceu e logo depois, deixei o mesmo kit com o Ray Carlisle, guitarrista e vocal, que curtiu ganhar a parada e ficou feliz em conhecer bandas latinoamericanas. O Miguel, que é todo zen, também agradeceu pelo presente e ficou feliz com a surpresa. Bom, eu não preciso nem dizer como estava me sentindo. Havia conhecido os caras de uma banda que sou absurdamente fã e sempre rola um receio de ser meio que maltratado pela galera ou não ser bem recebido nessas horas, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário.

O show

Com o som passado e o pessoal entrando na casa, a Flanders 72 começou seu show com “The Same Stupid Kids”, a primeira canção do “South American Punk Rockers”, CD que os caras lançaram em 2011. Acaba o som e o Paulinho já convida quem quiser subir para cantar, que ficasse à vontade. Eu fui lá e estraguei “Homeboys”. Coitados, eu sempre estrago algum som deles, mas dessa vez me segurei e fui rápido.

Já vi vários shows deles, até tocamos juntos algumas vezes e me impressiona a qualidade ao vivo dos caras. Ensaiam sempre, tocam bem, se preocupam em passar uma imagem legal para quem está vendo o show e assim conseguem conquistar uma boa parte da galera, exatamente como acontece no Sul do país. Engraçado que, meses antes, tive a oportunidade de conhecer o novo baixista da banda, o Dudu, e acabou que nem trocamos tanta ideia e essa note serviu para solidificar a amizade com o garoto. O Chuck, batera novo, é outro cara bem legal, toca bem e vou dizer que a formação nova ficou bem interessante!

Eu, preocupadasso em reabastecer meu estoque de cervejas, perdi os caras tocando “The KKK Took My Baby Away” com o Ray nos vocais. Só vi alguns vídeos e fotos nos dias seguintes, mas quem viu disse que foi massa. Como não ser, né? Ainda ganhei uma dedicatória de som em “Sampa Streets”. Obrigado Paulinho, você é muito gentil. E, aproveitando para divulgar o mais novo CD, “Dummyland”, tocaram “You Look So Cheesy” e “Totally Right”. Fiquei esperando entrar a voz do Joe King, mas bah, tive que me contentar com a dos caras mesmo. O Queers deu sua pinta na cover para “Tamara is a Punk”, aí não tem erro. Baita escolha.

Com cerca de 40 minutos de show, os caras fecham a conta com “Christmas is Coming”, canção que não sai do set da banda e que funciona bem legal ao vivo. Show rápido, sincero e bem tocado. Deu para ver que a banda se preparou legal para os shows da turnê e que aproveitaram bem demais a oportunidade. Ponto pros guris!

Com minhas cervejas em mãos, me posicionei logo à frente do palco após o show da Flanders 72. Com um backline de primeira e com os acordes de “South of Heaven” do Slayer tocando ao fundo, um a um a TBR entra ao palco da Inferno, sendo que o último a pisar ali foi o Clint. Ele sempre participa dos shows com uma máscara de caveira parecida com o Eddie, mascote do Iron Maiden, porém com o acréscimo de uma bandana dando um ar Cyco à fantasia. Carregando uma placa com o símbolo da caveira e dois pequenos foguetes cruzados, ele vai de um lado ao outro do palco enquanto a banda inicia os trabalhos com “Headbanger” a toda velocidade. Eu achava que não fossem começar o show logo com esse petardo, mas foi uma boa escolha e já botou todo mundo para pogar logo de cara.

“Don’t Wanna Go” e “Stupid Games” seguem como dois mísseis e impressiona a coesão da cozinha da banda. Brandon e Miguel beberam tanto na fonte de Marky e Dee Dee Ramone que não tem como errar aqui, é um festival de ximbau fritado e palhetadas pra baixo, encaixados e sonicamente perfeitos. Ray e Kody Templeman, também vocal e guitarra, dividem a liderança no microfone durante todo o show, o que assemelha ainda mais a banda ao vivo com a banda dos CDs e na canção “Crashing”, aumentaram a velocidade e pegada do show, com Ray firmemente cantando versos como “I’ll stay here and pound five beers/Smoke three joints and disappear”, provocando um belo mosh na plateia. Porém foi com os vocais de Kody e a canção “Bloodbath at Burger King”, uma das favoritas dos fãs, que todo mundo começou mesmo a curtir o show. Deu para perceber muitas pessoas cantando junto e colocando o punho nas caras de Miguel e Ray que, a toda hora, iam para cima da galera mais próxima do palco.

Uma coisa a se notar em bandas que vêm ao Brasil é a questão não só dos set-lists que dificilmente mudam de show para show, mas o que mais diverte quem gosta da banda é perceber que os trejeitos dos integrantes estavam todos lá: Miguel levantando os dois braços ao final de cada canção como que comemorando com os presentes e tocando seu baixo, o  “PreciChen”, tão próximo ao chão que parece que suas pernas não vão mais voltar à posição normal. Brandon toca sua bateria como se fosse um maníaco, mexendo a cabeça de um lado para o outro. Ray faz de sua guitarra uma espingarda e profere “tiros” em direção à galera, aliás, não é à toa que ele batizou sua guitarra custom, uma mistura de Les Paul com Mosrite, de “Raygun”, criação do talentoso luthier Jason Ingrodi (para ver seu trabalho CLIQUE AQUI), que fabrica os instrumentos de cordas de toda a banda e o Kody? Bem, o Kody é o Kody, com sua palhetada característica e backings oitavados remanescentes da sua época na banda The Lillingtons.

Os caras sempre interagem com a plateia e deste vez não foi diferente. Ray aproveita a oportunidade para dedicar a próxima canção a todos os presentes e comenta que ela foi escrita em homenagem ao Miguel e sua mente poluída (para quem não sabe, o baixista da banda é viciado em S&M e pornografia). Tocando uma pequena intro de “Sex and Violence” do Exploited, emendam sem dó “Mutilate Me”, uma das letras mais legais da banda em uma ode ao prazer. Dava para ver Miguel sorrindo o tempo todo. Nada como ser homenageado, né?

Com o jogo ganho, os caras mandam “Bigger Than Kiss”, que é a típica canção do Kody. Com menções à bandas de heavy-metal e rock farofa, ele consegue criar pérolas como esta, onde a TBR é maior e mais famosa que o Kiss, sendo que nela, “Ace Frehley sabe tocar guitarra mas não é melhor que o maldito do Kerry King”. Kody, aliás, é metaleiro assumido e sempre veste camisetas de bandas de heavy e black metal nos shows.

Eu estava extasiado. Rouco de tanto cantar, já nem ligava mais para que canção fossem tocar depois, contanto que não parassem. E foi com a novíssima “TV Set” que deu para ver que o próximo CD dos caras vai ser TBR clássico! Tocaram a música pela primeira vez na Warped Tour desse ano e não deve mais sair do set-list. Emendaram nela a “Sk8 or Die!”, uma das melhores faixas do CD “They Came From The Shadows”, só faltou mesmo uma piscina vazia ou um half-pipe no meio da pista. Mas, foi com “On My Own” que eu quase tive um ataque. Eu piro nesse som e o medley que eles costumam fazer com “Lillington High” é maravilhoso. Juro que pensei positivo, fiz boas vibrações, até chamei o Miguel e fiquei lá “L-I-L-L-I-N-G-T-O-N-S! L-I-L-L-I-N-G-T-O-N-S!” achando que ia ser atendido, mas que nada… No break do som, tocaram “Blitzkrieg Bop” do Ramones mesmo. Tudo bem, vai.

O show chega à metade e nada dos caras aliviarem. Eu acumulava garrafas de cerveja ao lado do retorno do Miguel, já completamente bêbado e feliz ainda tenho que me contentar com meu bom amigo Passa-Mal querendo me enrabar enquanto éramos contemplados com a linda trinca “Necrocomicon”, “Radio” e “Welcome to the Nuthouse”. Os caras ainda tocaram “Maverick” que é um som que o Ray não curte muito tocar ao vivo, pois o deixa bastante cansado. Se ele realmente fica cansado depois dela nunca vou saber, porque para tocar emendadas “I’m The One Smoking Marijuana, Motherfucker!” e “Bottlerocket” tem que ter mais do que ar nos pulmões, hay que tener cojones, cabrón!

Das velharias, os caras tocaram “A-Bomb” e, sinceramente, não achei que fossem colocar esse som no set, animal! Só que aí, os caras me vêm com “Done With Love”, minha canção favorita do “Freak Out!” e aí fodeu, era cerveja para o alto, dedo na cara do Miguel e não me aguentei, subi no palco e cantei o primeiro refrão com o Kody, acompanhado da garota Homem-Aranha. Eu achava que a qualquer momento o Clint ia chegar ali e me despachar do palco, mas não. Como um querubim bêbado, tive meus 15 segundos de vocalista da TBR. Valeu a pena demais.

O BIS foi bem legal também. Depois de saírem por alguns instantes, voltaram com uma versão para “Henchman” do Bad Religion. Pena que muita gente ali ficou com cara de interrogação, mas tudo bem, ninguém é obrigado a conhecer tudo também. Liquidando a fatura com “So Far Away”, a banda havia não só conquistado a galera de São Paulo, mas com certeza deixou uma baita marca em cada um ali. Luzes acesas, corre-corre para pegar as últimas cervejas e eu ali, levitando e com a certeza de que a noite tinha sido absurdamente foda.

Ahhh, como eu estava enganado!

“Bicho, isso está mesmo acontecendo?”

Após o show, saí do pico e encontrei com a galera da Flanders 72 e outros amigos que já estavam na função alcoólica pós-gig. E o que rolou depois foi algo que jamais imaginei. Mal sabia eu que começava ali uma verdadeira celebração à amizade e a o que o punk proporciona: a conexão entre indivíduos através da música e da (contra)cultura. Mal sabia eu que as próximas horas me reservariam décadas de boas lembranças e risadas.

Contrariando as expectativas de alguns, os caras da TBR se instalam na Rua Augusta e começam a atender aos fãs ali mesmo, distribuindo autógrafos, tirando fotos e dividindo algumas cervejas com a galera mais ávida por contato com os caras. Eu aproveitei a deixa, comprei umas brejas e engatei um baita papo com o Miguel e o Kody sobre o Brasil, a tour e o que estavam achando dos shows. Logo de cara, deu para ver que o Kody estava matadasso e ele acabou indo capotar no hotel. Brandon, que finalmente havia começado a tomar umas, já colou na roda e por ali ficou. Máquina de falar, já veio perguntando se o show tinha sido bom e onde poderia conseguir mais bebida. Bebida, aliás, foi o que não faltou a noite toda.

O Ray é um caso à parte. Usando a camiseta da Lomba Raivosa! que dei de presente, o que me fez sofrer um mini-enfarte, vinha a todo momento na rodinha e falava, “Hey Brandon, eu amo esse cara, vamos levar ele para os EUA com a gente!” Peraí, um dos meus ídolos fazendo isso comigo? Faz isso não rapaz… Foi legal saber mais sobre o cara (até vídeo do filho dele, Milo, andando de skate ele me mostrou) e que ele já havia vindo ao Brasil em outras duas oportunidades. A empresa para a qual ele trabalhava nos EUA tinha contrato com a Petrobrás e ele foi para Cabo Frio e Macaé, no RJ, em algumas oportunidades. Segundo ele, o trabalho nas estações petrolíferas era tranquilo e a galera ficava doidona com ele por lá quando o chefe saía para resolver algum problema. Esta época o marcou bastante e, de acordo com o próprio, foi quando se apaixonou pela cerveja brasileira, em especial pela Skol, momento em que posou de lado, olhou para o latão em sua mão, olhou para mim e disse, “Fuck I love Skol, Testie” soltando um sorrisão de quem já estava mais pra lá que pra cá. Concordamos e brindamos. Pena que logo depois ele derrubou meu latão…

Do nada e inacreditavelmente, ele convida o pessoal que estava por ali para um rolê no hotel, onde pudemos conhecer os aposentos da banda. Chegando lá, o pobre Clint dormia de cueca e foi prontamente acordado com o Passa-Mal dançando em sua cama. Era o rolê perfeito, com os caras da Flanders 72, alguns dos meus melhores amigos e os gêmeos da TBR todos juntos louvando a Jah e orando pelo bem da humanidade. Só consigo me lembrar de coisas como o Brandon falando sem parar, o Passa-Mal dançando naipe Snoop Dogg em cima do Clint, a Carol com sua máscara de Homem-Aranha e o Ray dizendo, “Crush it, crush that motherfucker, Testie!”

Em dado momento, acabamos por voltar à Augusta e comecei a bater um papo com o Brandon, Miguel e com o Paulinho da Flanders 72. O batera me contou tudo sobre o começo da banda, os primeiros shows, como era difícil começar uma banda em Laramie, que, por ser uma cidade do interior, tornava as coisas um pouco mais difíceis, tours na Europa, rolês com o Fat Mike, shows que assistiu, além de termos trocado altas ideias sobre futebol(?).

Brandon não parava de pedir fotos com a galera e acabamos posando para mais um monte de retratos. Um detalhe interessante foi que ele comentou ser super fã de Sepultura e de Carbona, inclusive a esposa dele é fãzassa da banda carioca. Ele até esboçou cantar uma canção dos caras para ver se lembrávamos o nome, mas ele é melhor tocando bateria. Outro lance curioso foi ele me perguntando se a galera ficaria mais alvoroçada caso o Pelé ou o Max Cavalera aparecessem ali na Augusta. Claro que falei que se o Max aparecesse ali o bicho ia pegar, foi quando ele começou a cantar meio que rindo “Roots, Bloody Roots!” Nessa hora, o Ray já estava ao meu lado, me puxando, “Hey Testie, Testie… Você curte Cavalera Conspiracy?” A resposta veio em forma de um dueto gutural com a fera, “Inflikted, show no mercy motherfucking wicked! Inflikted”, surreal! Foi legal ver que os caras são fãs de boa música e falam sobre qualquer tipo de assunto. Após concordarmos que o Arise é um puta disco e que os irmãos Cavalera são treta, era hora de mais fotos com o Ray, meu novo BFF.

De repente, o Miguel some. Há quem diga que ele estava só o pó da rabiola e devia estar mesmo, pois deve ser difícil acompanhar os gêmeos no rolê. Eis que de repente um dos ícones da Rua Augusta aparece ali, o Vovô, famoso por andar com seu isopor cheio de cerveja pelas calçadas tornando a vida do ébrio mais feliz. Claro que os caras piraram no bom velhinho e pediram algumas fotos com ele. Vovô que não é besta, empurrou várias latas de Skol pra dupla gringa. Mas, não foi só o Vovô que se deu bem não. Se minha memória não falha (muito provavelmente já falhou), os caras da Flanders 72 conseguiram uma maravilhosa pizza de um motoby perdido e por apenas 10 mangos. Se foi isso o que aconteceu eu não sei, mas foi o que eu entendi na hora. A pizza parecia ótima, que bom que eles se deram bem nessa.

Já eram quase 02h30 da manhã quando o Ray decide que o certo a se fazer é continuar a festa, claro, só que na balada. Após levar aquele lero maroto com a hostess da Inferno, foi decidido que a galera toda iria festejar na faixa com ele lá dentro. Alguns amigos já haviam ido embora e outros já estavam lá dentro. Eu já nem lembrava mais meu nome e estava perdendo a batalha para os gêmos, então era chegada a minha hora. Me despedi dos feras, agradeci a atenção e por terem ficado ali com a gente. Brandon agradeceu e disse que a “session” foi sensacional e que deveríamos repetir qualquer dia.

Os dias seguintes foram de contemplação, de remoer o que rolou e tentar fazer algum sentido de tudo. Mas, no fim das contas, isso nem é necessário. Só sei que teve amigo meu comentando que havia conseguido o ânimo que buscava para seguir em frente com sua banda e outro dizendo que, depois dessa noite, iria montar uma banda para tocar por aí. Acho que a música tem esse poder mesmo, de mudança, de provocar uma ação nas pessoas, de mudar a vida de alguém para melhor. Amigo, depois de ler tudo isso aqui, se seu coração não lhe dizer nada, então definitivamente você está morto.

Inacreditável? Pois é, eu ainda meio que não estou acreditando que tudo isso rolou. Você também não deveria, afinal, vai que eu inventei tudo? Mas, isso você nunca vai saber.

Set-Lists

Flanders 72 – Infelizmente não está na ordem que tocaram, pois o Paulinho ainda está doidão da tour.

1. The Same Stupid Kids
2. Homeboys
3. The KKK Took My Baby Away
4. Sampa Streets
5. You Look So Cheesy
6. Totally Right
7. Tamara is a Punk
8. Man I´m Sorry
9. Corruption Land
10. Hitting the Wall
11. Christmas is Coming

Teenage Bottlerocket

1. Headbanger
2. Don’t Want to Go
3. Stupid Games
4. Crashing
5. Bloodbath at Burger King
6. Freak Out
7. Mutilate Me
8. Bigger Than Kiss
9. TV Set
10. Sk8 or die
11. On My Own (medley com Blitzkrieg Bop)
12. Necrocomicon
13. Radio
14. Welcome to the Nuthouse
15. Maverick
16. Basement
17. I’m The One Smoking Marijuana, Motherfucker!
18. Bottlerocket
19. So Cool
20. Cruisin’ For Chicks
21. Lost In Space
22. A-Bomb
23. Done With Love
24. Henchmen (Bad Religion)
25. She’s Not The One
26. So Far Away

As Bandas

Flanders 72

O trio de São Leopoldo/RS não é nenhum novato aqui em São Paulo. Os caras tocaram aqui pela primeira vez em 2008, e vira e mexe estão de por terras paulistas. Da formação atual, apenas o Paulinho Tscherniak, guitarra e vocal, é membro original. No baixo, quem manda agora é o Dudu e na bateria, Chuck. Em 2012 lançaram seu primeiro álbum oficial, “South American Punk Rockers”.

A tour com a TBR serviu para que a banda apresentasse seu mais novo disco, “Dummyland”, gravado e lançado através de um projeto de crowdfunding que os caras promoveram no ano passado e que foi bem-sucedido. Em Outubro, irão pela primeira vez à Europa e tocarão na Alemanha e Bélgica.

Teenage Bottlerocket

Formada em Laramie, no estado do Wyoming, em 2001, a TBR nasceu na garagem dos irmãos gêmos Brandon e Ray Carlisle, baterista e guitarrista respectivamente. Os dois que já eram viciados em Ramones e Descendents, vivenciaram anos antes à nova explosão do punk com o Green Day, Rancid e Offspring, cimentando então o desejo de tocar mundo a fora. Antes de se chamarem Teenage Bottlerocket, a banda tinha o nome de Homeless Wonders e começaram a fazer shows como um trio, com Ray no baixo e Zach Doe na guitarra. Em recente podcast, Ray revela que Zach saiu logo depois e que chamaram um amigo, Joel Pattinson para a guitarra. Acabou que Joel não Pôde participar de uma tour e assim acabaram recrutando Kody Templeman, guitarrista e vocalista da maravilhosa The Lillingtons, que já era amigo dos irmãos. Kody seria peça-chave na banda devido ao estilo de tocar e o modo como compõe canções cheias de referências à ficção e filmes-B, temas que estão presentes na maioria das canções da TBR. Com a formação final, com Miguel Chen no baixo, seguiram tocando cada vez mais pelos EUA.

O ano de 2004 foi extremamente importante para a TBR. Brandon comentou que o momento decisivo foi quando lançaram seu primeiro álbum, “Total”, pela Red Scare Industries. Daí por diante foram turnês atrás de turnês, tendo mais um álbum lançado pela mesma gravadora, o ótimo “Warning Device”. Em 2009, a banda assinou contrato com a Fat Wreck Chords. Com uma melhor distribuição e divulgação, a banda participou de vários festivais e tours nos EUA e Europa. Pela Fat wreck, lançaram dois álbuns “They Came from The Shadows”, o último LP “Freak Out!” e o EP “American Deutsche Bag”. A Red Scare ainda lançaria, em 2011, o álbum “Another Way”, contendo faixas do primeiro EP da banda, A-Bomb, e canções que anteriormente só haviam sido lançadas em vinil.

2014 é um ano de grandes mudanças para a banda. Com contrato recém-assinado com a Rise Records (que tem em seu cast nomes como The Boucing Souls, 7 Seconds, Face to Face e Hot Water Music) e uma gira completa na Warped Tour, o grupo se prepara para gravar o novo álbum no final do ano, mais uma vez com Bill Stevenson (baterista do ALL e Descentents) e mais uma vez no estúdio Blasting Room, localizado no Colorado.

Texto por Tércio Testa
Testa é guitarrista da banda Lomba Raivosa! e foi especialmente convidado pelo Nada Pop para registrar o show da Teenage Bottlerocket no Brasil.

Mais informações sobre a banda do Testa neste link:
https://www.facebook.com/pages/Lomba-Raivosa/151704171595018?fref=ts

Observação: por razões alcoólicas os créditos das imagens não foram citados (O Testa não sabe quem tirou, pelo menos não lembra). Caso seja o autor da foto, mande uma mensagem pra gente que a gente coloca.

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Sobre o autor

Nada Pop

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