segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Nada Pop

Horace Green conversa sobre paternidade, política, cena e show no Morfeus Club

Em 2010 surgiu o Horace Green, banda paulista formada por Shamil Carlos, Fernando Chero, Clayton Romero e Guilherme Amato. Em 2013 foi lançado o seu primeiro registro, o EP Sempre Melhor. No ano seguinte foi a vez do EP Madeira e no ano passado o primeiro full do grupo intitulado Jazz Depois da Meia-Noite.

Após o lançamento de “Jazz” a banda precisou dar uma pausa por conta da recém-paternidade dos integrantes. Assim, o show de lançamento do primeiro álbum cheio do grupo só irá acontecer no dia 27 de novembro, no Morfeus Club, ao lado das bandas Better Leave Town, Mudhill e Chalk Outlines.

Conversamos com a banda para saber sobre o show, esse lance de paternidade e, claro, sobre como anda a “cena” independente e política. Confira abaixo.

NADA POP – Um ano depois do lançamento de “Jazz Depois da Meia-Noite” vocês fazem, no dia 27 de novembro, lá no Morfeus Club, o show oficial de lançamento desse álbum. Sabemos que vocês pararam um tempo porque o Shamil se tornou pai e precisou se afastar por certo período. É a festa que esse álbum merece e a continuidade de shows da banda?

Shamil: Não só eu, mas o Fox também foi pai e aí nossa agenda complicou né? Mas não podíamos deixar passar em branco o nosso primeiro full, ele saiu na internet em Novembro/15, chegou o físico só em Março/16 eu acho, voltamos a tocar em setembro e agora era a hora de lançar oficialmente (heheheheeh).

Chero: Com certeza! A gente ralou muito pra conseguir terminar o disco antes das paternidades. Soltamos o “Jazz” e entramos em pausa logo em seguida. Então a ideia é exatamente essa, fazer o show de lançamento como se fosse novembro do ano passado! Continuar de onde parou.

Clayton: Foi um combo de crianças em nossas vidas! Por isso que a banda até parou além do que tinha planejado anteriormente. No início, quando conversamos sobre, achei estranho “lançar” o álbum um ano depois, mas agora tô gostando bastante da ideia, a gente foi surpreendido com a recepção desse CD pela galera e acho que vai ser uma festa legal com muita gente já conhecendo os sons e grandes amigos ao nosso lado. E quem sabe as crianças apareçam por lá também (haha).

Fox: Eu particularmente estava sentindo falta de um show oficial de lançamento, fiquei extremamente feliz de conseguir ainda por cima juntar três bandas que eu gosto tanto pra fazer essa festa com a gente! Vai ser uma chance de ver as músicas ao vivo, algumas a gente tocou bem pouco até agora.

NADA POP – O que muda na perspectiva de vocês com a paternidade e como a banda observa o futuro musical do grupo? Existem novos projetos, clipes ou novas músicas surgindo por aí?

Shamil: Eu acredito que o que muda basicamente é o cuidado, pós paternidade a gente tem analisado melhor os shows e as agendas pessoais e cada um, não da mais pra sair marcando tudo quanto é show e nem digo show grande ou pequeno, isso a gente não liga. É mais o lado de marcar com pessoas que são responsa, saber que vamos viajar 14h de carro mas que vamos chegar lá e ter um som bom, vai ter rolado divulga do show e tal. Já que vamos ficar longe das crias, que pelo menos valha a pena!

Chero: Vez ou outra vai acontecer de não podermos abraçar todas as datas que gostaríamos. Vamos ter que deixar de tocar nessas vezes e não é nenhum bicho de sete cabeças. A gente compreende tudo isso e é natural. E tem coisa nova da banda vindo, estamos bolando o segundo clipe do disco e além disso pensando em começar novas composições também. Outras bandas e projetos de cada um estão rolando sim! Somos meio viciados eu acho.

Clayton: Não dá pra fazer tanta coisa na loucura, isso ajudou muito no planejamento dos novos passos.

Fox: É exatamente isso, tentar levar de boas porque a possibilidade que eu e o Shamil temos agora diminui um pouco. A necessidade de estar por perto da família é enorme, e tem que ser prioridade, e a gente se vira pra encaixar o máximo que der de datas com a banda sem comprometer o outro lado.

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No dia 27 de novembro, no Morfeus Club, o Horace Green realiza o show de lançamento do álbum “Jazz Depois da Meia-Noite”. Clique AQUI e confirme sua presença no evento criado no Facebook.

NADA POP – Como foi abrir o show do H2O e qual a importância na trajetória de vocês esse reconhecimento por outras importantes bandas?

Shamil: Pra mim foi muito foda, sou fã da banda, tenho tatuado One life One Chance e me identifico muito com a trajetória do Toby Morse, só não gosto do lance com a Nike (hahahahaha).

Chero: Foi foda, o rolê todo foi foda. Nós gostamos muito de todas as bandas que tocaram também no dia e o show dos gringos é pedrada!

Clayton: Tocar com o H2O foi uma oportunidade incrível, só de pensar na história dos caras e ainda mais sendo a nossa volta aos palcos, foi um dia pra ficar marcado. Mas pra mim tem coisas que tem sido mais impactantes nesse lance de reconhecimento, ver gente cantando nossos sons a cada show, pessoal vindo conversar sobre as letras e até sobre timbre dos instrumentos, isso me deixa com a satisfação lá em cima. Ver que estão prestando atenção no que fazemos, não só bandas mas também o público em geral.

Fox: Eu passei a curtir a banda mais depois do show, não era muito fã, e achei o show deles bicudasso! Ver o Chuva Negra mandando uma baita brasa foi legalzão também, e dividir isso com o Direction, que é uma banda de amigos muito queridos, deixou a data mais especial ainda!

NADA POP – Sendo direto na pergunta: o que vocês consideram que existe de MELHOR e PIOR em nosso cenário independente? (fiquem à vontade para destacar certos pontos ou focar algum assunto)

Shamil: Perguntinha complicada né, tem muita coisa boa acontecendo em nossa “cena” tanto musicalmente quanto em questões ideológicas, vejo várias bandas de estilos diferentes se unindo e se posicionando politicamente, o que é algo que valorizo até mais do que a música em si. Mas o pior, eu acredito, é a falta de pessoas reais. 10.000 likes no Instagram e três pessoas no show é algo inaceitável né?

Chero: Atualmente, uma coisa boa que eu vejo é o crescente foco na arte. Quero dizer o trabalho para fazer algo relevante, tanto na sonoridade quanto na mensagem. Isso é o que importa. Creio que as bandas estão menos interessadas em vender ingressos pra tocar em evento de fulano X e mais interessadas em criar algo legal. Isso é bom pra todo mundo. Uma coisa ruim é o anúncio de que o Hangar deve encerrar suas atividades em 2017. É maluco pensar em como as coisas acontecem e em como aquele lugar contribuiu com minha formação e a de muitos(as) das gerações que presenciaram aquilo acontecendo!

Clayton: O melhor é a internet e o pior é a internet. Ao mesmo tempo que conseguimos conhecer mais rapidamente uma banda de alguma cidade a mais de mil quilômetros da gente, pessoas que moram na próxima esquina não saem para ver a banda que gosta. O que me anima é que tem muita gente produzindo, muita coisa boa surgindo, tanto como banda mas também como fotógrafos, ilustradores, geradores de conteúdo e por aí vai.

Fox: como os caras falaram, acho que tem um lance legal que é esse filtro que a falta de interesse provoca. Tem cada vez menos pessoas se mobilizando pra ir em show, pra organizar, pra tocar, pra participar, mas em compensação, os que ainda estão ali realmente amam o bagulho! Então rola uma valorização maior do esforço de quem tá correndo, e uma identificação e um sentimento de unidade por ver que somos poucos mas estamos aí, podendo contar um com o outro.

NADA POP – O nosso atual momento político está um caos (bom, quando esteve normal?). Nesse sentido, qual a importância de uma banda se posicionar politicamente e qual a percepção de vocês sobre os últimos acontecimentos políticos do país?

Shamil: Acredito que viveremos dias ruins ainda, deixamos a direita-branca-machista-patriarcal retomar o poder e agora eles querem fazer a gente se sentir incapaz. Tirar investimento em educação, saúde e transporte é o meio mais rápido para criar robôs para esse sistema. Fora a grande alienação de massas que nossa grande mídia consegue fazer né? Acho que meu maior medo é de retrocedermos a um ponto que nossas vozes não possam ser ouvidas e que ser parte de alguma minoria nos faça sermos uma ameaça, mas se eles querem que tenhamos medo e que trabalhemos para morrer, bom, no que depender de nós eles falharão!

Chero: Acho importante! Pra mim e pros caras é importante. A arte é um instrumento poderoso e libertador. É só ver a perseguição que todos os meios de expressão artística sofreram e sofrem em regimes não democráticos. Então se a gente ouve música e se é isso que a gente produz, é através disso que vamos passar uma mensagem. Agora sobre os últimos acontecimentos, cara, quem aqui poderia imaginar que nós estaríamos vivendo hoje o que estamos vivendo? Ouvi o André (Good Intentions, Direction) falando isso durante um show e é exatamente o que eu venho pensando. Rolou um golpe de estado, pegaram nossos votos e limparam a bunda. O país deveria estar parado. Greve geral e fogo em Brasília até tirarem o Temer de lá, mas tudo continua acontecendo como se vivêssemos numa democracia ainda. Está tudo bem estranho! Quero estar mal-informado ou queimar a língua, mas não vejo nem mesmo os sindicatos parando as máquinas. Os bancários só pararam em benefício próprio. Eu fui pra rua, foi impossível não ir. Mas as cartas parecem todas marcadas e é como querer jogar pelas regras com eles jogando sujo. Então pra mim bateu um desânimo. Ando mais interessado em adotar alternativas independentes do estado e seus mecanismos e/ou também em modos de responder à altura contra as arbitrariedades que acontecem.

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Horace Green em show no Hangar 110 – Foto: Andréia Assis

Clayton: A autogestão pra mim tem ficado cada vez mais essencial, havia muita coisa que não concordava com o governo anterior, muita mesmo, mas não dá nem pra comentar sobre o atual que eu não reconheço mas está lá, vai influenciar nossas vidas e da pior maneira. Mas o resumo é esse, é um jogo marcado, tem muita gente ganhando com tudo o que rolou, só aconteceu porque muita gente lá de cima se deu bem com isso. É uma ingenuidade muito grande das pessoas acharem que esse golpe foi para salvar o país e ajudar a população. Sobre bandas se posicionarem, é um fator que eu particularmente respeito muito e valorizo ao máximo para que isso se mantenha.

Fox: Eu me sinto assistindo aquela parte do filme onde você vê as tramas dos vilões, preparando terreno, fazendo uma pá de coisa errada, e depois cortando pro mocinho alheio a tudo achando que o vilão é tá pensando no bem dele. Fico feliz de ver que a mídia independente está alcançando cada vez mais pessoas, fico feliz de ver a molecada ocupando escola e se mobilizando, e espero mesmo que agora que o maldito do Cunha foi preso, ele abra o bico e foda todo político com rabo preso, independente de partido/alinhamento político. Que caiam todos eles!

NADA POP – Gostaria que vocês falassem um pouco dos outros projetos que cada integrante possui. Pode ser? Deem os links das respectivas páginas e sites. E aproveitando, qual a maior dificuldade, conciliar esses projetos com a banda ou ficar sem projetos?

Shamil: Atualmente eu toco baixo no Faca Preta e sou um dos puxadores do Bloco 77 (que só ensaia em janeiro/fevereiro) e não quero fazer mais nenhum projeto musical além desses, tenho um filho e uma companheira que merecem atenção e carinho demais para querer ensaiar mais do que 2 vezes por semana

Chero: Fora o Horace estou com três bandas agora. É difícil falar porque nenhuma tem nome ainda e nem material gravado, mas a que mais tem ensaiado é puxada para o lado do punk e pós-punk. As outras duas ensaiam um pouco menos, mas tem alguns sons engatilhados. Uma puxa pros HWM velhos e a outra pra uma pegada meio OFF! + Jawbreaker + Pegboy.

Clayton: Eu toco no Brain Stoker que por sinal tá lançando um novo EP também esse ano e tá meio frenético conciliar todos os corres, mas no fim tudo se alinha da melhor maneira. Fora o BS tem duas bandas que nunca terminaram e sempre voltam quando a gente tá com saudade que é o Nossa Vingança e o Nerds Attack. Fora projeto com a Ji (minha esposa) que ainda vai sair e outros por aí que sempre surgem pra atrapalhar os horários de ensaio.

Fox: As duas últimas que o Chero citou eu e o Clayton também estamos envolvidos. Fora isso, tem um com o Shamil de música punk pra crianças (mas não é banda, é meio que um coletivo/documentário) e dois convites em aberto que quando tiver tempo pretendo abraçar, um mais hardcore melódico rápido e um grunge/post hardcore cabeçudo. Mas só abraço quando a Duda tiver maior. Mas a prioridade agora é a minha filhota, minha esposa e o Horace Green.

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Capa do álbum “Jazz Depois da Meia-Noite”, do Horace Green, lançado virtualmente em novembro de 2015.

NADA POP – O que cada um de vocês está ouvindo atualmente? Além disso, cada integrante poderia destacar uma banda para o pessoal se ligar e ouvir? Pode ser nacional ou não.

Shamil: Eu sou desses que faz lista pra tudo, quando comecei a usar o Spotify fiz uma lista de bandas para ouvir a discografia e ouço em ordem alfabética, o que é muito doido porque toda hora eu adiciono mais bandas e todo dia escuto as coisas mais variadas possíveis, hoje mesmo já escutei um disco de cada um de: Off With Their Heads, OFF!, Offspring, Os Replicantes, Panic! At The disco, Paramore, Patti Smith, Paul Westerberg, Paura, Pegboy, Pentagono e Placebo. Uma banda para se prestar atenção nacional: Nada Em Vão; internacional: Shit Present.

Chero: Tenho ouvido bastante Death Cab For Cutie. Outras coisas como Fu Manchu, Helmet e Germs também. Até algumas semanas atrás eu estava num ciclo vicioso com Ship Thieves, Violent Soho e Alkaline Trio. Eu destacaria o Satya, banda paulistana que achei muito boa!

Clayton: Tenho ouvido muito Smashing Pumpkins, Farside e Seaweed. Recomendo ouvirem All For The Money que acabaram de lançar um disco incrível.

Fox: To escutando Refused, Slayer, TOE, Kid Dynamite e Neil Young. Recomendo ouvir o Menores Atos, uma das melhores bandas do Rio de Janeiro.

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Flyer do show no dia 27 de novembro pelas ruas. Vai deixar de ir?

NADA POP – Para finalizar, qual a expectativa para o show do dia 27 e informem o pessoal dos próximos shows de vocês. Agradecemos o papo!

Shamil: Expectativa total, é o nosso primeiro show lançando algo tão especial, até hoje em todas as bandas que toquei o show de lançamento sempre era quando podíamos abrir para alguém maior assim o show estaria cheio… Mas dessa vez chamamos mais três bandas que admiramos demais e que são amigos para fazer uma festa foda!

Chero: Pô, é a retomada de onde pausamos. Vai ser massa demais. Estamos com muita vontade de tocar os sons do “Jazz” e chamamos os caras do Better Leave Town, Mudhill e Chalk Outlines que são bandas que adoramos e que gostam de fazer a parada tanto quanto a gente. Eu sairia de casa pra colar nesse show! Haha. Temos datas dia 12 e 13 de Novembro em Guaratinguetá e Jacareí, dia 11 de dezembro em Sorocaba e ainda em dezembro vamos ter Serra Negra. Valeu demais Nada Pop!

Clayton: Vai ser divertido! E o legal é que todas as bandas estão lançando material novo esse ano, só coisa fina. Valeu Nada Pop pelo espaço e espero ver todo mundo dia 27.

Fox: Vai ser massa demais esse show! Muitos amigos, bandas muito legais com a gente, venda de material independente, numa casa bem perto do metrô! Só colar!

Acesse e confirme sua presença no evento criado no Facebook: http://migre.me/vnjIb

Facebook: www.facebook.com/horacegreen

Bandcamp: https://horacegreen.bandcamp.com

Youtube: www.youtube.com/user/HoraceGreen/videos

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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