quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Flanders 72 – Histórias sobre a tour na Europa

Em outubro de 2014 a banda Flanders 72, de São Leopoldo (RS), fez uma tour pela Europa simplesmente com a cara e a coragem. Claro, houve um planejamento para essa tour, porém sem a ajuda de algumas pessoas, como o próprio Paulinho Tscherniak (vocal e guitarra) irá nos contar, não seria possível essa viagem. A banda, formada também pelo Eduardo Lippstein (baixo) e Chuck Santos (bateria), há poucos meses esteve em shows com Teenage Bottlerocket nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.

No caso da tour na Europa, conversamos com o Paulinho para saber como foi essa experiência, suas impressões sobre o cenário underground de lá, além de possíveis roubadas ou momentos que ficarão guardados para sempre na memória da banda.

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Flanders com Gundinho, Nolti e Fernando.

ENTREVISTA – PAULINHO TSCHERNIAK (FLANDERS 72)

NADA POP – Antes de entrar no papo da tour, gostaria que você falasse a respeito dos integrantes Rodrigo (batera) e do Lippstein (baixista). O quanto esses caras são importantes para a Flanders e, pessoalmente, o quanto você acredita que a banda evoluiu com a entrada deles, sem desmerecer os outros integrantes que já passaram pela banda, obviamente.

Paulinho Tscherniak – O Lippstein e o Chuck são excelentes músicos, a Flanders 72 evoluiu bastante musicalmente falando, nosso show ficou mais redondo e, recentemente, começamos um projeto acústico bem legal da banda também. Além da bateria, o Chuck toca gaita de boca e o Lippstein violão, tem ficado muito legal! Essa será a última formação da banda.

NADA POP – Nos dê detalhes a respeito do planejamento que foi feito para a tour da banda pela Europa. Como surgiram os contatos, você já conhecia os lugares que iriam tocar, onde vocês dormiram, onde comeram. Afinal de contas, vocês tiraram a grana do próprio bolso para essa tour?

Paulinho Tscherniak – Tudo começou pela internet, sempre divulgamos a banda para todos os lugares! A Europa foi o lugar que abraçou a banda. Começamos a receber inúmeros e-mails de lá e começamos a vender bastante CD virtual e físico para países europeus. Ano passado, um alemão chamado Axel, que escreve para a Ox Fanzine, entrou em contato querendo fazer uma entrevista. Fizemos via Skype uma entrevista com mais de 2h de duração, acabamos ganhando um espaço maior na revista, tivemos uma página inteira de entrevista.

A partir daí começamos nossa história com a Europa. Logo depois, tivemos nosso disco “Dummyland” resenhado pela revista e ganhamos a nota máxima para uma banda “mortal”: nota 9 (eles apenas dão 10 pra discos como It’s Alive dos Ramones e clássicos assim). Começamos a receber mais e mais atenção de lá, logo pintaram convites para tocar na Alemanha, Espanha, Austria, Iglaterra. Conversamos com Axel sobre nossa vontade de ir para Europa e ele fez contato com diversos lugares de lá e em alguns meses estávamos de malas prontas!

Não sabíamos de NADA, fomos pra lá confiando em Axel, ele apenas queria saber se tínhamos os “rins” saudáveis (risos). Nosso medo era acordar em banheiras de gelo com cicatrizes no corpo! Chegamos em Frankfurt, esperamos alguns minutos e surgiu nosso amigo pra nos levar pra maior aventura que a Flanders 72 faria até então. Seguramos na mão do Gundinho (Axel) e fomos! Nossa ideia era bancar as despesas com grana dos shows e merchan da banda. No final das contas, tiramos uma semana em Londres e acabou saindo um pouco mais caro do que o previsto, mas a banda pagou tudo. Pra falar a verdade, tiramos 300 reais do bolso pra pagar a primeira parcela com as taxas de embarque e tudo mais, o restante foi pago com grana que a banda mesmo fez. Foi muito louco poder conhecer países que nunca sonhávamos pisar e tudo isso graças ao nosso sonho de fazer música.

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Em Berlin, na casa do Nolti.

NADA POP – Quais foram os lugares que vocês tocaram, quais foram os espaços que chamaram mais a atenção de vocês, algum lugar decepcionou a banda por algum motivo? O público compareceu aos shows, tocaram com outras bandas? Quais?

Paulinho Tscherniak – Tocamos em diversos lugares legais. Primeiro fomos da Alemanha para a Bélgica, lá tocamos em um grande festival chamado Summer in October, tocamos com diversas bandas do mundo inteiro, como os italianos do The Manges, os austríacos do Dee Cracks, os japoneses do Kingon, entre outras inúmeras bandas de todos os lugares! Foram dois dias de festival, dormimos na casa de um dos organizadores do evento, bem em frente ao evento. Foi muito legal, conhecemos muitas bandas que viramos fãs, conhecemos muita gente legal, vendemos muitos CDs, posters, camisetas, quase acabamos com tudo na primeira banquinha do primeiro show.

Depois fomos para Bruxelas por dois dias e dai pra Inglaterra, onde passamos a semana em Londres, na quinta pegamos avião de volta para a Alemanha, pois tinhamos show em Berlin no sábado. Chegamos em Berlin e o amigo do Gundinho, chamado Nolti, nos pegou. Fomos para casa dele, Nolti é um cara muito legal, trocamos muitas ideias sobre punk rock, ele tem, praticamente, um museu do punk rock em casa e, nesse museu/escritório, ele faz um programa de radio muito legal que toca bandas independentes do mudo todo, anotem aí e mandem material pra ele www.new-rose.de. Tocamos no Museu dos Ramones, foi muito legal, nosso primeiro show acústico valendo mesmo. O museu era um lugar que eu sempre quis conhecer desde piá (criança em gauchês), nunca imaginei que iria conhecer fazendo show lá. Fomos muito bem recebidos pelo dono. Saímos de lá correndo para o próximo show na parte escura de Berlin.

Lá foi muito louco, chegamos pra passar o som e o lugar era sombrio, parecia um bar punk dos anos 70. Passamos o som e fomos jantar em um restaurante chinês ao lado. Quando voltamos, o lugar estava tomado de punks 77, galera mais velha, de moicano e tudo mais. Pensamos: “vamos morrer no palco, esses caras não devem curtir Ramones e pop punk… vamos ser linchados!” (risos). Começamos a tocar e o lugar veio abaixo, foi o melhor show da trip. A galera tava louca, os punks subindo no palco, cantando junto, foi inesquecível! Pintou um show a mais no fim das contas, uma banda americana chamada Don’t estava fazendo seu último show da tour europeia e nós tocamos com eles, foi muito legal também.

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Com os Americanos do Don’t no show extra em Würzburg.

NADA POP – Quais foram os perrengues que vocês passaram? Chegaram a discutir entre vocês, passaram fome, frio? Conta ae!

Paulinho Tscherniak – Cara, acho que não passamos nenhum perrengue f#da. O Gundinho foi demais, nos levou pros lugares, nos tratou MUITO bem. Agradecemos TUDO a ele. Nosso único momento de estresse foi quando chegamos em Londres, estava frio e chovendo, tivemos que nos virar com os mapas de trens gigantescos poucos minutos antes de encerrarem as linhas. Quando chegamos na estação, tivemos que caminhar a pé bastante, estávamos exaustos e com pouca grana (a libra equivale a quase 5 reais). Chegamos no hostel e a galera meio que estranhou o lugar, pois era muito democrático, quartos com pessoas estranhas dormindo junto. Aí tivemos um pouco de estresse. A mascada definhou! (a grana acabou em gauchês)

Nosso almoço era na rua, nos viramos, como bons brasileiros! Nunca caminhamos tanto na vida em Londres, essa era a diversão, saíamos de manhã cedo e voltávamos só a noite pra dormir. Ah, lembrei de outro mal entendido (risos), fomos tocar com essa banda americana Don’t, mas chegou na hora e os caras não queriam liberar os amps, pois tinham alugado e estavam voltando pros USA no outro dia. No fim das contas eles aliviaram, tocamos, nos divertimos e ficamos amigos. Ajudei os caras a guardar as tralhas na van depois do show. Tudo certo.

NADA POP – O quanto você considera importante essa tour para a banda e quando pretendem voltar ou se pensam em uma tour americana ou até mesmo pela América Latina?

Paulinho Tscherniak – Consideramos muito importante. Lá eles consomem nosso som, lá os contratantes respeitam as bandas, ganhamos comida, bebida, cachê, enfim… Somos tratados como toda banda deveria ser tratada. Foi uma experiência de vida! Queremos muito fazer uma tour americana, mas temos que planejar muito bem, um dia vai acontecer!

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Show acústico no museu dos Ramones, em Berlin.

NADA POP – Vocês levaram seus equipamentos para a tour ou pegaram emprestado de lá? E o Rodrigo, como fez com a bateria? Levou a dele ou usou o equipo de lá mesmo?

Paulinho Tscherniak – Quando fechamos os shows, sempre ficou claro que não levaríamos equipamentos de palco. Não teria como uma banda do nosso porte levar amplificadores, bateria e tudo mais. Somos chinelos! (risos). Todos os lugares tinham equipamento de primeira, nada monstruoso, mas tudo de primeira, impecável!

NADA POP – Quais as diferenças que você sentiu na cena underground da Europa com a brasileira, elas (as diferenças) são gritantes?

Paulinho Tscherniak – Infelizmente são gritantes! O público vai para se divertir e ouvir bandas novas e, pasmem, não querem ouvir covers!! A galera é sedenta por coisas novas e se curtem, compram tudo que tiver na banquinha. Não existe preconceito, vai gente de todas as idades, de 15 a 60 anos. Fizemos muitos amigos com mais de 40, 50 anos e ali éramos todos “guris”, estávamos ligados pela música e não pelo ano de nascimento, isso foi uma das coisas que eu mais gostei nos europeus. As bandas lá são muito boas, o nível deles é acima das bandas daqui no geral. Não havia uma banda que pensamos “nossa, que ruim!”. Os bares eram muito legais, como eu disse acima, respeitam as bandas, têm tudo certinho para que ocorra um show digno.

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Na casa do Mambo em Nijlen, Bélgica.

NADA POP – Quais são as principais dicas ou sugestões que você daria para uma banda que tem interesse de fazer uma tour pela Europa?

Paulinho Tscherniak – Ensaiar muito, se dedicar muito, amadurecer, ter muita humildade e caprichar no material! Tudo isso mais uma dose exagerada de persistência e tudo vai dar certo! 🙂

NADA POP – Vocês levaram muitos merchans? A galera comprou por lá?

Paulinho Tscherniak – Levamos tudo que deu, dividimos em nossas mochilas e cases. Vendemos TUDO.

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Banquinha do show em Nijlen, no Summer in October.

NADA POP – Quais são os próximos passos da Flanders a partir de agora?

Paulinho Tscherniak – Próximo passo e compor para o novo disco, talvez lançar um DVD com esse material da Tour na Europa. Queremos gravar um disco melhor que o Dummyland esse ano!

NADA POP – Paulinho, acrescente o que quiser, beleza?

Paulinho Tscherniak – Gostaríamos de convidar todos os leitores do site a conhecer nosso som, nossos clipes no Youtube e curtir nossa fanpage no Facebook. Obrigado pelo espaço!

Site
http://tscherniak.wix.com/flanders72

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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