segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Nada Pop

Exclusivo: Nenê Altro fala sobre Blackclass e DoD

Blackclass e o tempo de soltar âncoras

blackclass_nenealtroCom 20 dias após o anúncio do último show do Dance of Days, realizado no mesmo lugar que consagrou a banda – o Hangar 110, Nenê Altro surge com o Blackclass. Na madrugada no dia 30 de julho, foi disponibilizado o álbum de estreia do grupo, intitulado de “Prospectus Omni”.

Segundo o Nenê, o Blackclass não tinha planos de nascer, foi criada em junho, após o anúncio do hiato do DoD, com um convite do amigo e baterista Filipe Freitas (Equivokke Records / ex-Seek Terror) para fazer apenas um show tocando músicas antigas do Sick Terror. O show, citado pelo Nenê, aconteceria no mês seguinte junto com o Ratos de Porão, em Campinas.

“Havia a ideia de seguir com uma banda powerviolence após o show, principalmente com a entrada do Jones (guitarrista do Taiko) e o convite da Converse, mas após os dois shows do Dance of Days no Hangar 110 não tive mais cabeça pra pensar nisso”, diz.

Porém, a banda seguiu ensaiando no estúdio Rising Power, em Santo André, do amigo André (Statues On Fire/ex-Nitrominds). Nele foram criadas as primeiras músicas do Blackclass, que foi chamado pelo projeto Converse Rubber Tracks para gravar no Family Mob Studios com a produção de Jean Dolabella e André Kbelo.

O restante dessa história você pode conferir abaixo, nessa entrevista exclusiva com o Nenê Altro, feita por e-mail nesta sexta-feira mesmo. Conversamos sobre o Dance of Days, Blackclass, o show de estreia de sua nova banda e mais algumas coisas. Confere aí.

ENTREVISTA NENÊ ALTRO

NADA POP – E aí Nenê, como sua vida se encontra neste momento (psicologicamente falando)? Você acredita que para um artista a melhor forma de se manter são ou consciente diante de situações críticas ou conflitantes a melhor saída é se manter criando e compondo? Essa sempre foi a sua filosofia de algum modo, certo?

NENÊ ALTRO – Sim, a criatividade livre é o âmbar da alma. Eu estou bem, na verdade incomensuravelmente melhor do que imaginei que estaria após tudo passar. E me sentindo leve, como há décadas não me sinto.

NADA POP – Antes da gente entrar em mais detalhes sobre a sua nova banda, por favor, nos diga quem é o Blackclass, além do significado do nome da banda e do titulo do EP, o “Prospectus Omni”.

NENÊ ALTRO – Blackclass é a minha banda nova, em que eu escrevo tudo e faço as músicas. A banda não tinha planos de nascer, foi criada em Junho, após o anúncio do hiato, com um convite do amigo e baterista Filipe Freitas (Equivokke Records / ex-Seek Terror) para fazer apenas um show tocando músicas antigas do Sick Terror no show de Julho do Ratos de Porão em Campinas. Como os ensaios eram bem divertidos, havia a ideia de seguir com uma banda powerviolence após o show, principalmente com a entrada do Jones (guitarrista do Taiko) e o convite da Converse pra gravar, mas após os dois shows do Dance of Days no Hangar 110 não tive mais cabeça pra pensar nisso. Quando os shows do Hangar passaram e fizemos nosso primeiro ensaio disse a eles que não queria mais tocar powerviolence e mostrei algumas músicas que tinha guardadas dos últimos anos e que não se encaixavam nos eps que eu tinha feito com o Dance of Days. A partir dessas ideias eu desenvolvi algumas outras novas e assim nasceram as primeiras músicas. A banda em si vem da minha prancheta, dos meus cafés, das minhas noites sozinho escrevendo e tocando guitarra. Meio que a mesma filosofia funcional do Dashboard Confessional mas bem mais pesado, é claro rsrsrs O título do ep é em latim e significa “todos os horizontes” ou “o contexto de tudo”. O nome da banda é uma referência político-ideológica pessoal, afinal não posso falar 100% por ninguém além de eu mesmo, mas com o qual divido vários pontos convergentes com eles.

jones blackclass

NADA POP – Ouvindo o EP do Blackclass acabei me lembrando de Endpoint, Split Lip e Boysetsfire. Ou seja, essas minhas lembranças fazem algum sentido para você? Como este álbum se diferencia de tudo o que você já fez até o momento?

NENÊ ALTRO – Sim, acho que tem mais influência de Endpoint e BSF do que qualquer outra coisa nesse ep, umas coisas meio Blindfold até talvez, já “Les Enfants Sauvages” é meio In-Casino Out, mas tenho muitas coisas em projeto pra trabalhar ainda. O “Prospectus Omni” se exigiu, acelerou seu nascimento, então não define 100% do que quero trabalhar musicalmente com essa banda. Acho que a grande diferença entre esse e meus outros trabalhos é a de que estou me sentindo muito livre pra colocar e tirar o que bem entender, pois isso foi conversado desde o princípio, e isso acrescentado ao talento e suporte de músicos incríveis tem sido uma experiência única de plenitude.

NADA POP – “Nos deem um dia e faremos um disco”, essa sua frase pode significar muitas coisas (necessidade, talento, força, união etc.). Mas com qual urgência este EP foi elaborado e planejado? Como os integrantes se juntaram a este projeto, há participações especiais no EP?

NENÊ ALTRO – Na verdade essa frase foi uma referência à soma das horas que contamos quando o disco estava sendo masterizado. Percebemos que foram 5 ensaios de duas horas, 12 horas de gravação e 2 de mix, totalizando 24 horas. Esse disco não era pra ter sido feito tão rápido, mas, como acabei de dizer, se impôs. Meus planos eram gravar em Setembro ou Outubro, um disco full, mas como a Converse Rubber Tracks havia feito o convite antes de a banda mudar de proposta e seria loucura abrir mão de um estúdio como o Family Mob e de produtores como Jean Dolabella e André Kbelo, aceleramos e gravamos o bruto que tínhamos em mãos em um ep. O que foi muito autêntico, pois pegou a rocha mesmo do trabalho inicial, sem lapidações. Não houve participações no ep, até porque a banda em si nem estava 100% definida, estávamos nos primeiros ensaios. Ainda estamos, pra falar a verdade.

NADA POP – “Sei que já me encontrei aqui uma vez, nesse mesmo chão” – O EP está cheio de referências, seja nos títulos ou até mesmo em frases das canções. O mesmo Nenê Altro parece que vem apurando cada vez mais suas composições. Mas compor pode ser um processo doloroso, mas acredito que sempre expurgatório – com qual frequência você compõe e quais são os momentos que você se sente mais inspirado (dias tristes ou felizes – noite ou dia, exemplo)?

NENÊ ALTRO – Tenho me sentido mais leve pra escrever, sem a pressão de “isso está mais acessível”, “isso não dá pra entender”, etc. Isso está fazendo com que eu volte a me sentir literariamente falando como na época do Coração de Tróia, mais livre e despreocupado, o que está refletindo em meus poemas e textos. Tenho virado madrugadas escrevendo. A Nicolle é uma esposa incrível, as vezes na madrugada ela bate na porta e eu penso que vem me chamar pra cama e ela aparece com um café e torradas, ou seja, me dá muito espaço e incentivo aqui em casa, então minha criatividade está radiante. Passei por fases em que só escrevia triste ou desesperado, e isso não foi algo bom. Saía de mim, ajudava a aliviar, mas nem por isso fazia bem, eu era louco para que tudo aquilo acabasse. Hoje escrevo porque é o que minha alma faz de melhor, porque gosto e transpiro tudo isso. Era assim antes dos tormentos da vida, e hoje estou mais próximo de mim e mais distante dos personagens.

NADA POP – Alguma música do EP, em especial, você poderia dizer que faz uma referência direta aos últimos acontecimentos com o Dance of Days? Qual?

NENÊ ALTRO – Não ao Dance of Days em si, mas “Boas Lonjuras, Les Enfants Sauvages” faz alusão ao que senti nos últimos meses, em como o espírito livre, das “crianças selvagens” se deixou ofuscar por pesadelos e como é importante que respire e brilhe acima de qualquer outra coisa na estrada.

NADA POP – Há algum tempo você “cortou relações” com as redes sociais. Vem utilizando o Facebook apenas para divulgar seus respectivos lançamentos e trabalhos com a Hard Kiss. Afinal, o que as redes sociais significam de positivo e de negativo para você? E o que você pensa sobre os tais “haters”?

NENÊ ALTRO – As redes sociais são nocivas para alguém como eu, que tem sentimentos à flor da pele. Às vezes você está num mau dia e pronto, uma resposta ou frase errada vira um pesadelo, pois você se relaciona com um mundo lá fora que na verdade não consegue enxergar, e que tem tanto pessoas de bem com a vida como pessoas que estão passando por problemas particulares. Isso está condenado a dar errado, tira o humano dos relacionamentos, o olho no olho, afasta as pessoas. Então após um último infortúnio virtual me desliguei, apaguei meu perfil de facebook, excluí meus tweets, apaguei todas as minhas contas públicas de email e deixei minhas páginas nas redes nas mãos de terceiros, inclusive a da Hard Kiss. Pessoalmente mantenho apenas meu blog. Quanto aos “haters” acho triste até que esse termo exista. Ninguém deveria nascer para odiar. Mas, hoje em dia o ódio é uma forma de chamar a atenção, você criar uma polêmica ou fazer uma crítica áspera ao trabalho de uma pessoa só pra “dar sua opinião” atrai holofotes, e numa sociedade em que as pessoas são tão solitárias como a nossa, esse desespero por atenção chega a ser regra nas redes sociais, não exceção. Tudo é muito consternado sabe, e não quero isso perto de mim.

filipe blackclass

NADA POP – Como ficou sua relação com a gravadora HBB após o anúncio do hiato do Dance of Days? Eles lançaram os últimos quatro EPs do Dance e havia o planejamento desses quatro EPs virarem um único álbum. Esse último plano foi desfeito, há alguma novidade sobre isso?

NENÊ ALTRO – A HBB é o selo mais de boa que existe, já tivemos alguns impasses burocráticos pois somos humanos e humanos tem suas diferenças, mas no fim a amizade sempre falou mais alto em todo nosso relacionamento. Até agora não fomos lá decidir isso, eles estão nos dando tempo pra ajeitar as coisas, mas em breve quero dar um pulo lá e tomar um café pra resolvermos tudo.

NADA POP – Em uma recente entrevista, que pode ser conferida AQUI, você cita outra banda, o Nowhere Fast. Essa banda seria, como você mesmo disse, sua terapia nos próximos meses. Essa banda é o Blackclass (houve mudança do nome?) ou podemos esperar mais projetos do Nenê Altro nas próximas semanas ou meses? E seus livros, há algum novo lançamento previsto, ou até mesmo relançamento?

NENÊ ALTRO – É o Blackclass, o “Nowhere Fast” era só o nome que usamos pra fazer aquele show tocando as músicas do Sick Terror, e como desisti de tocar powerviolence e mudei toda proposta mudei também o nome da banda. Bom, eu estou escrevendo. Muito. Tinha me colocado a data cabalística de 13 de setembro pra lançar meu novo livro, mas decidi me dar um pouco mais de espaço e se atrasar uns meses tudo bem, estou trabalhando na libertação desses TOCs. Musicalmente eu estou com músicas prontas para um projeto solo já em andamento e devo me dedicar a isso nos próximos meses, e também a um trabalho mais elaborado com o blackclass, agora com paciência.

NADA POP – Essa é uma pergunta pessoal e, portanto, entendo caso não queira falar disso. Muita coisa foi especulada sobre o fim/hiato do Dance, citaram até a Nicolle (sua esposa) como um dos motivos. O que você poderia dizer a respeito e, claro, qual foi a importância da sua esposa neste processo (apoio, motivação, incentivo etc)?

NENÊ ALTRO – A Nicolle sempre tentou me fazer seguir com o Dance of Days. Tenta até hoje, inclusive, mesmo eu não querendo sequer falar sobre o assunto. Em 2010 na praia eu não queria mais saber de tocar e foi ela quem me fez ver sentido em tudo e me ajudou a animar e seguir em frente. O mesmo em 2012, em 2013, em 2014, em todos esses anos eu sempre me vi em dilemas e ela sempre me ergueu e me incentivou. Eu sou uma pessoa muito desesperada quando em conflito, às vezes meto os pés pelas mãos devido ao nervosismo, derrapo, falei sobre isso na letra de “Na Estrada”, mas acho que grande parte das pessoas não entendeu, mesmo eu falando que “a mesma encruzilhada sempre vem: largar tudo ou seguir em frente”, por incrível que pareça. Uma hora iria acontecer. Eu precisava parar e colocar as coisas no lugar em meu coração em relação à banda. A Nicolle entrou em minha vida em 2010, bem no momento em que decidi abandonar a vida junkie e autodestrutiva que levava e me ajudou muito nessa batalha, tanto nas vitórias quanto recaídas. Com isso, muita gente que, por alguma razão que não entendo, “me preferia” daquele jeito, sempre relacionou essa mudança em minha vida à ela e não à minha vontade e sempre, em todos esses anos, a envolveram em coisas que não lhe diziam respeito. Por isso não estranhei quando falaram essas coisas, não seria diferente agora com o hiato. Mas não tem nada a ver, saibam que até o último momento ela tentou me fazer desistir da ideia. Só que o momento chegou em que eu precisava do hiato para ficar bem, e hoje sei que estava certo.

NADA POP – E com os outros Dancers, você manteve algum contato após o último show do Dance? Há algo que você gostaria de ter feito diferente para que o caminho do Dance of Days tenha sido outro em relação aos últimos acontecimentos?

NENÊ ALTRO – Bom, dessa última formação só sobrou o Marcelo e ele também me disse estar mais leve com as coisas como estão agora. Não pretendemos falar sobre Dance of Days por um bom tempo. Não me arrependo de nada que fiz, talvez tenha me emocionado muito algumas vezes e poderia ter me reservado mais, mas fiz o que achei certo e sempre segui meu coração. Sempre fui assim e sempre serei. E se as pessoas não gostam disso em mim deveriam parar de seguir meus trabalhos.

NADA POP – Voltando a falar sobre o Blackclass, a banda irá fazer um 1º show no dia 8 de agosto no Centro Cultural Zapata. O que esperar desse show e o que ele simboliza, particularmente para você, após todos esses acontecimentos. O que você poderia dizer a respeito das outras bandas que participarão do show? Como as conheceu?

NENÊ ALTRO – Será um show de estreia, tocaremos as músicas do ep e talvez mais um ou dois covers, mas será histórico, pois será o primeiro. Estou bem feliz. Conheço o Wiseman pelo Thiagones e eles também tocaram num Antifest que organizei lá no Zapata mesmo. E o Cyrano é uma banda de amigos do Jones, então estamos todos em casa.

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Flyer do show de estreia do Blackclass

NADA POP – Antes do encerramento da entrevista, nos últimos anos você morou na praia, depois voltou para São Paulo, morando na região da Lapa (a famosa casa Moxei), depois partiu para uma região mais central de São Paulo e, agora, está na região do ABC. Você se considera um nômade – isso é importante pra você, mudar? Quais os benefícios das mudanças e o lado negativo disso. São Paulo, o município, é mais hostil a você ou você é mais hostil a ela?

NENÊ ALTRO – Bom, cada lugar que morei teve um sentido numa caminhada pessoal, muito do que está em meus primeiros livros. Já havia morado em Santo André antes, e após sair daqui e passar por vários bairros em São Paulo percebi porque as pessoas no ABC gostam tanto da região. Acho que pela cultura operária ser enraizada aqui as pessoas tem um espírito de união muito forte, e eu não digo cena punk, hardcore, essas coisas, digo gente real mesmo, família, padeiro, motorista de ônibus, pedreiro, todo mundo aqui tem algo mais forte em termos de comunidade, por isso eu não parava de pensar em voltar pra cá. E como minha esposa nasceu aqui o destino foi inevitável. Ser nômade é uma bosta. Mudar é horrível. Já falei muito que era legal, mas estava tentando justificar a incapacidade de criar raízes que tinha. Gente ruim tem em todo lugar, mas na minha balança o ABC ganha disparado em papo reto e amizade incondicional, o que é fundamental pra mim.

NADA POP – Nenê, agradeço o papo e desejo boa sorte em seus projetos. Esperamos que o Blackclass caminhe em passos largos e que nos mantenha sempre alerta a respeito de novidades. Se algo não foi questionado ou se gostaria de dizer algo que não teve oportunidade nas questões anteriores, por favor, aproveite esse espaço. Obrigado!

NENÊ ALTRO – Eu que agradeço Maurício, pelo espaço, e parabéns a todos do Nada Pop pelo trabalho, lembro que vi nascer e cresceu de forma surpreendente. Cara, como você tocou em alguns assuntos polêmicos eu só queria dizer que estou seguindo a minha vida leve, e que se a pessoa gosta de mim, de meu trabalho, de minha música, é muito bem vinda a me acompanhar ou comparecer, mas se quer trazer pra perto coisas carregadas de negatividade ou maldade, por favor, nem apareça. Outra coisa, o blackclass toca post-hardcore ou (real)emo mas não se considera parte da “cena” punk ou hardcore, ou seja, não estamos nem aí com as políticas e conveniências de cena, pra gente a banda é música, amizade, diversão e não estamos nem aí com sua opinião, sério, morra no inferno com ela. Resumindo: amigos e gente de bem são bem vindos, sempre serão. Essa é a única regra da classe preta.

Escute o EP “Prospectus Omni” no bandcamp:
http://blackclass.bandcamp.com

Baixe todas as MP3 e letras gratuitamente:
http://www.nenealtro.com.br/blackclass

Página oficial do Blackclass
http://www.facebook.com/theblackclass

Compareça ao show de estreia da banda!
http://www.facebook.com/events/609772392497290/

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.