sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

Entrevista: Vale a pena participar do crowdfunding do Showlivre?

Nascido no ano 2000, antes do surgimento da banda larga no Brasil, o Showlivre foi um dos programas pioneiros na transmissão de shows online. Em 2004, implantaram o programa de entrevistas chamado “Pé Na Porta” e, neste mesmo período, passaram a transmitir ao vivo os shows em um estúdio próprio.

Atualmente, possui cerca de 260 milhões de visualizações e quase 377 mil inscritos em seu canal no YouTube. Além disso, estima-se que 600 atrações já passaram pelo estúdio, artistas de todos os gêneros musicais e com diferentes públicos.

Mesmo com números tão expressivos, o Showlivre vem sofrendo com a diminuição de sua receita publicitária, o que acarreta problemas financeiros mesmo com a audiência aumentando a cada ano. Assim, a falta de uma boa perspectiva nesse cenário motivou a criação de um crowdfunding pelo Showlivre com o intuito de manter o programa no ar e com a mesma qualidade.

Para falar sobre o Showlivre e a respeito do crowdfunding, conversamos com o João Vicente Seno, apresentador e editor-assistente do programa. É importante citar que, na elaboração de algumas questões, contamos com a partcipação de alguns músicos e produtores culturais (não vamos citar os nomes, mas deixamos o nosso obrigado também!). Confira a entrevista abaixo.

NADA POP – Por que as bandas devem ajudar o financiamento coletivo do Showlivre?

SHOWLIVRE – Nossa convocação é para fãs, bandas e empresas. Gostaríamos que todos os interessados em ver a continuidade do trabalho do showlivre.com contribuíssem com esse projeto de financiamento coletivo.

NADA POP – O Showlivre não pensa em outras formas de programas que poderiam contribuir para uma arrecadação financeira? Vocês pensam em outros formatos ou serviços, quais?

SHOWLIVRE – Ao longo desses quinze anos de história, tivemos diversos programas, com diversos formatos. Alguns deles foram Pé na Porta, Mão na Massa, Preview, Palco Showlivre, Passe Livre. Todos estão acessíveis no canal do showlivre.com no YouTube. Todos estes programas atuam sob o guarda-chuva do site showlivre.com.

Além do trabalho do site, também atuamos como uma produtora de vídeo, a Showlivre Filmes. Nela, utilizamos a expertise adquirida em todos esses anos de showlivre.com: transmissão de eventos, coberturas, produção de vídeos. Esses trabalhos poderiam ser uma fonte alternativa de receita para subsistir a atividade do showlivre.com, porém, com a atual crise, essas demandas estão rarefeitas.

NADA POP – O Showlivre está passando por alguma crise financeira? Perderam patrocínio? O que motivou de fato a criação do crowdfunding no kickante?

SHOWLIVRE – Há uma crise financeira geral que, sem dúvida, alcançou nosso setor. É um panorama difícil pelo qual todos os produtores de conteúdo do YouTube estão passando. Embora nossa audiência tenha aumentado ano e ano, nossa receita publicitária diminuiu drasticamente. Para ilustrar a situação, de 2014 para 2015, nossa receita no YouTube caiu para menos da metade. A falta de perspectiva de melhora nesse cenário nos motivou a criar o projeto de crowdfunding.

NADA POP – Na descrição do financiamento coletivo vocês explicam o custo de realização de cada programa que vocês fazem. O valor de R$ 412 mil reais cobriria os custos de 6 meses de programa. Caso não consigam obter o valor no Kickante, qual o futuro do Showlivre?

SHOWLIVRE – Desde a edição exibida em 12/03/16, enxugamos o formato do nosso programa na TV Cultura para o mínimo possível. Ele não tem mais apresentadores e é produzido apenas com imagens de acervo, sem gravação de qualquer conteúdo novo. Caso o projeto de financiamento coletivo não seja bem-sucedido, essa lógica de diminuição de custos daria nossos próximos direcionamentos. Não fecharíamos as portas, mas operaríamos com o mínimo possível. (Estamos usando os verbos no futuro do pretérito porque as palavras têm força! _/\_)

NADA POP – Como funciona a parceria com a TV Cultura? Existe apoio financeiro da TV para com o Showlivre?

SHOWLIVRE – Não existe apoio financeiro. No nosso acordo, eles oferecem espaço para exibição e nós oferecemos conteúdo. Caso existam anunciantes interessados em exibir mídia durante nosso programa, dividimos a receita publicitária. Porém, quem acompanha o programa desde que foi ao ar, em 08/08/16, pode ter notado que não tivemos qualquer anunciante desde então. Essa dificuldade não é exclusividade nossa: é de conhecimento público a situação financeira delicada pela qual passa a TV Cultura. Houve, inclusive, mobilização da classe artística em prol do canal. A atual crise financeira só agrava a situação.

NADA POP – Imaginando que a meta no Kickante seja obtida (sucesso!), depois dos seis meses de programa, pretendem fazer um novo Kickante para continuar o programa ou já possuem alguma carta na manga que poderiam falar?

SHOWLIVRE – Nossa intenção é usar o fôlego dado por esses seis meses para um esforço massivo na busca por modelos de negócios que permitam sustentar a operação do showlivre.com. Aliás, essa busca já acontece neste momento.

NADA POP – Oferecer a participação no programa para as bandas mediante o pagamento de R$ 2.000 a R$ 3.500 reais não pode ser um risco para o Showlivre? Isso não pode prejudicar a credibilidade do programa e até favorecer bandas que possuem apenas grana ao invés de talento em detrimento de bandas com talento e sem grana?

SHOWLIVRE – Em primeiro lugar, a escolha dos artistas que se apresentam em nosso estúdio nunca foi feita por uma medida de “talento”. Isso seria impraticável porque, dentro da nossa própria redação, há discordância sobre quem é ou não talentoso. O que procuramos fazer é preencher nossa programação com um retrato da música que está sendo produzida. Convidamos artistas que acreditamos serem nomes representativos de suas respectivas cenas.

Nós enxergamos o showlivre.com como uma casa de shows, um palco disposto a receber todo tipo de música. Não temos a pretensão de julgar o talento ou a qualidade artística das nossas atrações. Por isso recebemos artistas tão diversos – funkeiros, sertanejos, projetos infantis, bandas de metal. Acreditamos que a nossa credibilidade mora na qualidade do conteúdo audiovisual que produzimos, não em uma pretensa “curadoria da boa música” – um papel que nunca tomamos para nós.

Além disso, é muito importante ficar claro que as nossas produções sempre foram pagas por alguém. Tentamos produzir registros audiovisuais com excelência e isso tem um custo alto. Em momentos de maior estabilidade econômica, como respondemos anteriormente, as receitas publicitárias eram suficientes para subsistir a nossa atividade – logo, os anunciantes pagavam a conta. Para utilizar mais uma vez o exemplo da casa de shows, antes produzíamos nós mesmos os eventos e contávamos com o retorno da bilheteria. Agora, estamos abrindo nosso palco para que os artistas produzam os seus próprios shows.

NADA POP – Nesse ponto, como funciona a participação de uma banda no programa? Quais dicas contribuem para uma banda ou artista ser convidado para participar do Showlivre?

SHOWLIVRE – Como respondemos na questão anterior, não há uma curadoria, mas uma seleção de nomes representativos de diferentes gêneros musicais. Assim, sobre dicas, cabe notar que trabalhamos majoritariamente com artistas da cena musical independente. Ela se renova e se atualiza a todo o momento e, embora nossa equipe seja composta por pessoas que vivem essa cena, é impossível acompanhar tudo o que acontece.

Desta maneira, nossa dica é que os artistas se façam notar. Já chamamos várias bandas que organizaram seus fãs nas mídias sociais e mostraram que muita gente queria vê-los. Essas bandas costumam ser ativas nas interações com nosso pessoal e costumam ter muita persistência.

NADA POP – A tecnologia avançou rapidamente nos últimos tempos e isso possibilitou que bandas ou até pequenas produtoras possam fazer vídeos semelhantes ao Showlivre como, por exemplo, o Rock Together Sessions e Motov Live Sessions. A própria gravadora independente HBB tem o seu Live Sessions. Vocês vêem esses programas como concorrentes ou acompanham essas mudanças até mesmo para trazer atualizações ao Showlivre?

SHOWLIVRE – Não vemos como concorrentes, mas como iniciativas que agregam à cena. Quem trabalha com música tem amor à causa, não enxerga a música como uma batalha campal em busca da aniquilação de concorrentes. Essas produtoras vêm apenas somar à missão do showlivre.com de aproximar a música que está sendo feita de seu público potencial.

Em tempo, seguramente esses programas podem trazer atualizações e insights para nós!

NADA POP – Quais são os caminhos possíveis do Showlivre em relação ao futuro, seja com êxito no financiamento coletivo ou não? Como tornar a mídia independente sustentável financeiramente?

SHOWLIVRE – Olha, essa é a pergunta que não quer calar. Se você tiver sugestões, agradecemos. Estamos sondando vários modelos de negócio. Fortalecer o trabalho como produtora é um caminho possível. Outro modelo de negócios que sondamos é aquele usado por empresas como a ClapMe, no qual a audiência contribui financeiramente com o veículo e a renda obtida é dividida com o artista que é atração do programa. O modelo de negócios tradicional de um veículo, com a presença forte de anunciantes, também sempre é uma possibilidade.

Saiba mais sobre o crowdfunding do Showlivre: bit.ly/vamoShowlivre

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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