terça-feira, 14 de agosto de 2018
Nada Pop

[entrevista] Sandrinho, do Mukeka di Rato: Ciências Sociais, Escola de Frankfurt e cultura punk

Sandro Juliatti, vulgo Sandrinho, é vocalista do Mukeka di Rato, bacharel em Ciências Sociais, pesquisador e colaborador em projetos sociais.

Apesar de ser o “frontman” de sua banda, Sandrinho não costuma dar entrevistas, função majoritariamente desempenhada por Fábio Mozine, baixista do Mukeka e CEO da Laja Rex.

Nesta entrevista formulada por Arthur Banzatto (integrante do Xupakabras), Sandrinho fala sobre o ano sabático da banda, próximo disco, trabalhos sociais, projetos paralelos, Escola de Franfkurt e outros temas de interesse público. Confira Abaixo:

Sandro, primeiramente feliz ano novo e obrigado por ter aceitado conceder essa entrevista.

SANDRINHO: Boa tarde Arthur, satisfação e gratidão imensa pelo espaço. Cê é doido de gostar de uma bagaceira dessa…(risos).

Arthur Banzatto (baxista do Xupakabras) com o Sandro (vulgo Sandrinho), do Mukeka di Rato. Foto: arquivo pessoal

Vocês divulgaram recentemente que o Mukeka não fará shows em 2018 para se dedicar à produção de um novo disco. É a primeira vez que isso ocorre desde o surgimento da banda em 1995, certo?

SANDRINHO: Oficialmente sim, mas acho que outras vezes já botamos a viola na sacola sem declarar…

Para além da necessidade de produzir material novo, existem outros motivos que explicam esse ano sabático?

SANDRINHO: Olha, depois de mais de duas décadas produzindo junto com quem quer seja, você torra a paciência. É preciso dar um tempo às vezes até pra se revigorar, reaprender a respeitar diferenças entre os integrantes e focar nas convergências estéticas e discursivas, para ter inspiração em comum e produzir algo que preste, nem que seja para piada. Essas nossas férias prolongadas de palco também tão servindo pra gente se concentrar somente em estúdio esse ano, e fazer um disco com cautela, coisa que nunca fizemos. É sempre uma correria no naipe de um grind o chão de fábrica da produção do Mukeka. Agora vamos mais doom metal… Já temos o conceito (discursivo) do disco fechado e uma meia dúzia de letras e algumas músicas. O disco se chamará “40 Carnavais numa Noite” e falará sobre Sexo Drogas e Rock n Roll, envoltos do hedonismo à política. Ainda tá um pouco no ar, qual vai ser a estética musical que desenharemos. Existe uma dúvida se terá alguma pitada eletrônica ao som, mas acho que isso não vingará. Na real, nesse ano ainda nem paramos nisso, e isso mostra que isso tudo é uma mentira e mais um golpe em curso nesse Brazilzão.

Já em 2017, é possível observar uma queda no número de shows da banda. Curiosamente, no mesmo ano, o Pasqualin (1º disco) e o Carne (disco mais importante, talvez) completavam, respectivamente, 20 e 10 anos de lançamento, fazendo com que alguns fãs esperassem turnês maiores e shows especiais de comemoração como algumas bandas costumam fazer. Vocês chegaram a cogitar essa possibilidade? Será que para o aniversário de 20 anos do Gaiola vai rolar algo assim em 2019?

SANDRINHO: A queda também é proporcional ao avanço da velhitude dos integrantes, e somada à “crise” e à preguiça alheia, despencou mesmo o número de apresentações. Nós já tocamos o Gaiola na íntegra em SP e aqui no Espírito Santo, em comemoração. Mas eu sou mais na pilha de produzir coisa nova, ou fazer releitura. Tenho vontade de regravar o Pasqualin (tipo como o Ratos fez com o “Crucificados”). Eu acho a comemoração bacana, mas nostalgia não me apraz. Prefiro sangue novo. Inclusive, percebo que muita gente não consegue acompanhar o trabalho do Mukeka, pois o impacto dos dois primeiros discos é tão forte pra muita gente, para além do som e letras, que marcou época e ajudou formar a identidade de muita mina e de muito maluco aí. Massa. Mas eu mesmo também acho o disco “Carne” um dos mais importantes, falaria até o mais elaborado. Só que conversando com pessoas que curtem essa doidera, muitas delas categorizam que nenhum álbum será melhor que os dois primeiros. Falta olhar as coisas com um pouquinho mais de frieza e menos amor nesse caso. Em 2019 espero que seja show pra divulgar um álbum novo, mais que comemorar algum antigo.

Mukeka di Rato e Sandrinho em ação no Hangar 110. Foto: Felipe Manorov

Você é formado em Ciências Sociais, certo? Atualmente, quais trabalhos você desenvolve dentro da sua área de formação (ensino, pesquisa, projetos sociais, etc.)? Quais as dificuldades de conciliar estes trabalhos com a função de vocalista do Mukeka di Rato?

SANDRINHO: Sim sou bacharel em Ciências Sociais pela Federal daqui do ES. Atualmente sou supervisor de pesquisa de campo do programa Ocupação Social, aqui pela Secretaria Estadual de Direitos Humanos. Um projeto que me orgulho muito em participar que procura gerar oportunidades a jovens através da cultura e educação em 26 áreas de vulnerabilidade social do estado, onde tem alto índice de mortalidade juvenil e onde historicamente a única política que chegou efetiva, foi a da repressão. Também sou colaborador em ações e projetos do Instituto GG5 de Desenvolvimento Comunitário aqui na minha região, com enfoque em economia solidária e desenvolvimento local. Olha, nunca foi difícil conciliar isso não. Já ocorreu de ter de sacrificar uma sexta a tarde ou segunda de manhã, máximo isso… A banda sendo acionada para show ou estúdio, sempre é nas horas vagas ou férias, todos têm trabalho fora da banda. Ninguém vive dela.

E no âmbito da música, você tem outras bandas ou projetos paralelos?

SANDRINHO: Sim. Este ano estou animado com o retorno do grupo Volapuque, que é uma onda pós-punk, rock brazuca, shoegaze, e um jazz favela. O grupo começou em 2009, parou em 2012 e retomou atividades ano passado. Fizemos meia dúzia de shows e gravamos seis músicas lowfizão. Estamos com um integrante novo, e este ano lançaremos um CD com dez músicas, seis serão regravadas dessas que gravamos ao vivo no estúdio, e mais quatro novas. Possivelmente também esse ano, um projeto que tenho com o Willian Bodão, um brother do metal aqui da minha área, vai botar a cara na praça: Um dueto de noise/harsh/industrial onde toco bateria. ZarabatanaBlues o nome. Vou deixar o link dos projetos que já tem algo online divulgado. Aproveito também pra divulgar uma das bandas do Bodão, o Internal Death. Mais informações sobre o Volapuque: https://www.vagalume.com.br/volapuque/

Quando você saiu da banda em 2002, quais foram as suas motivações? Houve algum arrependimento? O que fez você voltar em 2006? (OBS: Corrija-me se as datas estiverem erradas).

SANDRINHO: Nunca me arrependi. Saí porque estava mais de saco cheio do nosso nicho que do Mukeka em si. Naquele momento, além de ter que dar mais foco no trampo da minha área, também tava naquela de precisar oxigenar, e o meio que circulávamos oscilava como um pêndulo em dois extremos, e eu não encontrava ar puro ali: ou a galera era junkie até lamber meio-fio e cheirar cal de poste, ou eram abstencionistas puros, livres de qualquer forma de contaminação. Entre os straights e os junkies eu tô no entremeio. Tanto que boa parte da minha amizade mais calorosa tá aí. Quem captou bem um retrato deste momento que descrevo foi a Laja Recs neste disco:

Eu oxigenei. Muitas pessoas mudaram, paradigmas caíram, o nicho mudou. Consegui achar vento livre, no meu peito e no lugar onde transitava, aí voltei. Na real, em 2006 o Mukeka tava com a viola na sacola, e não tinha declarado para o público. Exceto o pessoal mais velho e envolvido no hardcore, boa parte de quem admirava o trampo da banda não aprovava o vocalista Bebê, e os caras também não tavam na melhor fase de entrosamento com ele. Procurei a banda na intenção de gravar um disco de covers com os dois vocalistas. Mas conforme as coisas se apresentavam e se configuravam, não foi bem isso que o destino nos proporcionou.

Mukeka di Rato no Hangar 110. Foto: Felipe Manorov

Como é o processo de composição do Mukeka di Rato? Você, por ser vocalista, acaba compondo a maioria das letras ou não necessariamente? Quais são suas influências ao escrever? (OBS: não precisa necessariamente ser do meio musical).

SANDRINHO: Depois do primeiro álbum, que é meio mosaico, geralmente partimos de um conceito ou tema e tentamos fazer com que as letras girem nessa órbita. O Gaiola é mais existencial, o Carne é sobre globalização, o Hitlers Dog é sobre guerra e urbanidades, agora virá outro álbum sobre drogas (a moçada gosta parece!). Normalmente fica bem dividido a composição entre eu e o Mozine (escrevemos juntos ou eu reescrevo letras dele e ele reescreve algumas minhas. Também dou ideia para ele escrever algo e vice-versa), mas no último álbum eu escrevi a maior parte das letras. Uma delas foi um comunicado do exército zapatista que retransmitimos.

Busco inspirações em livros, lutas, reportagens, vídeos, dramas, poesias, músicas, amigXs, cotidiano e meto bronca. Por exemplo, Discharge e Ratos de Porão foram algumas de nossas fontes no último disco. Situacionismo e surrealismo: Acho que tô sempre bebendo aí há um certo tempo.

Talvez o Mukeka di Rato hoje em dia seja uma das pouquíssimas bandas em que o vocalista não é o “porta-voz”, vamos assim dizer, pois quem é responsável pela maioria das entrevistas e divulgações na mídia e nas redes sociais é o Mozine. Isso sempre foi assim? Foi algo conscientemente deliberado pela própria banda ou acabou rolando naturalmente?

SANDRINHO: Rolou espontaneamente, acho que pelo fato de além de ser baixista do Mukeka, ele é a Läjä Recs, principal empresa responsável na distribuição das obras do grupo. Antes da internet e da gravadora, os outros integrantes participavam mais desse processo de divulgação, que se estabeleceu com os fanzines do underground brasileiro e algumas revistas temáticas de grande circulação. Na base do processo de divulgação da banda, foi muita demotape em k7 que pesou a bolsa dos carteiros Brasil à fora, antes do império do mundo digital.

Sandrinho – Foto: Felipe Manorov

Depois do sucesso do Dead Fish e do contrato com a Deck para o lançamento do Carne em 2007, viver de banda chegou a ser uma possibilidade real ou na cabeça de vocês sempre foi apenas um hobby? Chegaram a ganhar dinheiro a ponto de largarem os trabalhos “comuns”?

SANDRINHO: Olha, os caras do Mukeka me contam que a época que eles mais se deram bem neste aspecto foi quando fiquei fora (otário ou asa de martelo?) da banda. Mas mesmo aí ninguém nunca largou seu trampo pessoal e apostou exclusivo nessa barca de viver de banda. Tiravam umas férias prolongadas e articulavam turnês milionárias (rsrsrsrrs). Eu, no hardcore, no circo ou no chorinho, jamais vivi exclusivamente do trabalho com música. Investi bastante nisso (Acervos, gostos, afinidades, pessoas) e tive um retorno financeiro que me ajudou até, mas nunca de fato segurou a peteca das contas, que mantenho com minha atuação na área dos direitos humanos. Eu, vacinado pela Escola de Frankfurt e pela cultura punk, sempre caguei e andei pra essa possibilidade de viver exclusivamente de música. Sabia já que essa barca era uma furada e dificilmente chegaria pra gente, esse exército de Brancaleone capixaba. Se uma cirurgia “plástica” transformasse a gente no Restart, quem $abe…

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