terça-feira, 24 de outubro de 2017
Nada Pop

Entrevista com Fabio Prandini, do Paura: “Se essa não for a sua luta, você já foi derrotado”

Paura – Foto: divulgação

Certa vez o escritor britânico C. S. Lewis disse que “as dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários”. Fabio Prandini é uma dessas pessoas com uma biografia de destaque diante do cenário independente. O vocalista da banda Paura, que existe desde 1995, conversou com o Nada Pop para falar um pouco do novo lançamento do grupo. “Slowly Dying of Survival” não é só mais um lançamento, é um manifesto à democracia e liberdade, expressa as mazelas do mundo e mostra como nossas atitudes ainda fazem diferença na sociedade.

A banda continua misturando o peso do metal com a a agressividade do hardcore, para os fãs isso já é mais do que uma marca do Paura, é como os caras são. Não há meio termo ou máscaras, sem falsas ideologias ou demagogias baratas. É a realidade de quem grita por igualdade diante de uma multidão sem interesse, mas que ainda encontra sentido e significado naquilo que faz. É a luta que os caras escolheram e que já fazem deles vitoriosos por não desistirem. Quem disse que seria fácil ou que haveria lucro? A liberdade de fazer aquilo que se tem vontade de fazer já não seria o próprio benefício? Confira a nossa entrevista com o Prandini e ouça o novo álbum da banda.

NADA POP: Prandini, em primeiro lugar agradeço o tempo e atenção para esse papo. Gostaria de começar perguntando a respeito do que álbum “Slowly Dying of Survival” particularmente representa para você e para a carreira da banda.

PRANDINI: Valeu você, Mauricio! Esse disco é especial porque é o primeiro com a formação atual, que já tem quase 3 anos. É um bom momento da banda. Principalmente nos dias atuais que estão cada vez mais difíceis. Estar firme na missão da cultura independente no Brasil é quase uma obrigação!

NADA POP: Houve algum foco especial para a produção do álbum diferente dos outros trabalhos da banda?

PRANDINI: Nada diferente dos outros. Queríamos mais um registro sincero, gravamos do jeito mais analógico possível e tentamos absorver tudo o que aconteceu nesse período de 3 anos desde o “Tameless” e transformar em música feia.

NADA POP: O álbum foi produzido pela banda e por Rogério Wecko, sendo gravado no Dual Noise Studio. Gostaria de saber como surgiu o contato com o Rogério e o que motivou a escolha, tanto do estúdio quanto do Rogério, para gravação e produção do álbum. Vocês ficaram satisfeitos com o resultado ou fica aquela sensação (natural até) de que algo poderia ter sido feito diferente?

PRANDINI: A gente conhece o Wecko faz muito tempo… desde a época do Black Jack. Estávamos procurando estúdio pra gravar e fomos conhecer o Dual Noise. Nunca tínhamos trabalhado com ele, mas não poderíamos ter feito escolha melhor. O processo todo foi muito suave. Provavelmente pelo entendimento que tivemos desde da primeira ideia. O estúdio é excelente, com equipamentos fodas, mas nada disso adianta sem a pessoa que faz a gravação funcionar. Estamos muito felizes com o resultado. Sempre tem coisas que vocês escuta e sabe que daria pra fazer melhor, mas isso é normal. Nesse processo de composição, gravação, mixagem, masterização e fábrica escutamos tanto as músicas que quase dá pra ficar com raiva delas…. hahaha

NADA POP: A partir do lançamento de “Slowly Dying of Survival” quais são os próximos passos da banda, mais uma tour? Por quais lugares e por quanto tempo? Com tantos anos de estrada ainda é possível ter ansiedade ou algum nervosismo por mostrar esse novo trabalho pelo mundo?

PRANDINI: A gente lançou o disco dias antes de embarcar pra sétima turnê europeia. Serão 16 datas, passando por Alemanha, Polônia, Holanda, República Tcheca, Hungria, Eslováquia e Áustria. A expectativa é alta, como sempre. Mas começar a bateria de shows novos, com as músicas do “Slowly Dying of Survival” no repertório, na Europa dá uma aumentada nessa ansiedade. É o começo de um novo ciclo e isso sempre traz uma puta motivação. Estamos negociando e agendando muitos shows pelo Brasil, em lugares que nunca tocamos e também por alguns países inéditos pra nós ainda. Mais um passo na caminhada…

NADA POP: Todas as músicas me chamaram a atenção, são mensagens que não só curti como me identifiquei MUITO. No entanto, “Because We Care” se tornou uma das minhas preferidas do álbum. Mensagens como “se essa não for a sua luta, você já foi derrotado”, ou “o que é difícil de conseguir é mais difícil de manter”. Em todos esses anos de Paura, você já se questionou se essa era a sua luta? Quais valores e ideais você adquiriu ou foram reforçados com o hardcore/metal que vocês fazem?

PRANDINI: Massa! Essa aí deve ganhar um videoclipe logo menos. Cara, quando eu entrei no Paura, em 2001, eu já tinha uma vivência no underground brasileiro com as bandas nas quais eu havia tocado anteriormente, mas foi no Paura que eu realmente percebi o que fazia sentido na vida pra mim. Questionamento interno sempre existe porque não é fácil, mas desistir nunca foi uma opção! Essa luta, na verdade, é uma paixão. Não é um hobby. É muito humano. O aprendizado vale muito mais do que as dificuldades, que nunca foram inesperadas. Na questão de valores e ideais, sempre foi algo positivo, saca? Mesmo que muitas vezes as decepções e frustrações tenham sido pesadas, o contraponto sempre acontece. Estar vivo é bom pra caralho… hahahaha

Slowly Dying of Survival, novo álbum do Paura.

NADA POP: Com tantas turnês pelo mundo, uma até no Japão, entendo que vocês se depararam com realidades completamente diferentes entre esses lugares. Quais foram os lugares que mais impressionaram positivamente (pode ser pelo que for) e aquele que trouxe mais impacto, mas pelo lado negativo e por quê?

PRANDINI: O Japão é um desses lugares, né… Tivemos várias experiências cabulosas no Brasil, na América do Sul e na Europa, mas o Japão é foda! Como a gente sempre tinha ouvido falar que é um país único, por toda história, cultura e costumes, você chega lá meio que sabendo o que esperar. Te garanto: o Japão surpreende! Teríamos que fazer uma entrevista só pra falar disso… hahaha

Tudo lá é surreal! Costumo dizer duas coisas pra tentar definir o que é Japão no meio da cultura underground e independente: é um dos países mais evoluídos tecnologicamente no mundo e eles AINDA COMPRAM CDs! E o fato de terem que fugir e se proteger de terremotos, vulcões e tsunamis frequentemente, tem uma influência absurda no moshpit! Os japas são insanos!

E, pra falar de coisa ruim, eu acho que os shows que tiveram impacto negativo foram na Romênia, na Hungria e na Polônia por causa da presença de lixo nazifascista nos eventos. Pessoas que tem problemas com bandas gringas tocando nos seus países não deveriam aparecer nos eventos. Isso sempre dá merda. Mas eles que se fodam, a gente sempre acaba voltando e eles desaparecendo…

NADA POP: Paura é uma banda reconhecida, com 22 anos de estrada e com muitos fãs pelo mundo. A banda já é autossustentável ou vocês ainda encontram dificuldades? Podem ser dificuldades financeiras ou não, mas como se adequam ou ultrapassam essas dificuldades?

PRANDINI: Não dá para viver financeiramente da banda. A gente consegue ter um retorno que fica sempre pra tentar facilitar a caminhada da banda de alguma maneira, mas viver e pagar as contas com a banda, definitivamente não rola! Mas saber que é difícil e sempre será, a gente sempre soube. Por outro lado, não é questão de escolha quando se ama aquilo que faz. Então a gente segue em frente porque não podemos viver sem isso.

NADA POP: “Slowly Dying of Survival” fala sobre diferentes temas, entre eles a decadência urbana/humana, sobre ser contra fronteiras e a favor dos imigrantes, ser contra ao machismo, do respeito às diferenças, sobre democracia e liberdade, aceitar e respeitar o próximo. Você acredita que o público do Paura assimila bem essas ideias ou, infelizmente, como vemos por aí, para alguns o mais importante é só a música e sua mensagem fica em segundo, terceiro plano ou até mesmo nem importa?

PRANDINI: É complicado. Curtir a banda só pelo som me parece bastante superficial. Entendo quem não fala inglês e tem problemas para compreender o que trazemos nas letras, mas não tentar ou não fazer questão é bem estranho pra mim. Felizmente, a grande maioria das pessoas que cola nos shows dá importância, entende e se identifica. Provavelmente, esse povo que não se importa deve ser público de YouTube… hahaha

NADA POP: Afinal, do que você ouve e enxerga na música hoje em dia, ela está mais para passion ou fashion? E por quê?

PRANDINI: Mais pra fashion, né? Sempre foi. Quem é passion, sempre foi minoria. Porque pra viver o lado mais difícil, tem que ter coragem, em primeiro lugar.

Paura – Foto: divulgação

NADA POP: Sei que você disse que não é bom com essas coisas, mas vou insistir. Quais as bandas que mais influenciaram a sua vida, seja como músico ou não. Cite umas cinco, que tal? Além disso, qual o impacto que essas bandas tiveram na sua vida e como você espera que seja o impacto do Paura na vida de outras pessoas?

PRANDINI: Ainda tenho essa dívida contigo, “Os 10 álbuns”. Prometo pagar um dia. Mas vou mandar um teaserzão… hahaha

De bate pronto (porque se eu parar pra pensar muito nisso, faço uma lista com 100): “Scum”, do Napalm Death, “I Against I”, do Bad Brains, “13 songs”, do Fugazi, “Kill´Em All”, do Metallica e “Appetite for Destruction”, do NWA. Cada um teve seu motivo especial mas, definitivamente, foram discos que mudaram minha visão da música pra sempre!

Sobre o Paura, eu espero que tenha um impacto positivo nas pessoas. Da mesma maneira que esses 5 discos tiveram em mim. Felizmente, já tive a benção de pessoas que falaram que a banda foi muito importante em momentos realmente difíceis em suas vidas. Isso é realmente uma benção. Fazemos música pra nós. Não pra vender um milhão, fazer sucesso e ficar famoso, etc. Quando alguém se inspira nisso por alguma razão, é uma benção de verdade!

NADA POP: Para encerrar, gostaria que você pudesse incluir algo que acredite tenha faltado nesse papo. Além disso, obrigado novamente pelo tempo. Que o trabalho de vocês percorra o mundo e consiga levar a mensagem adiante. Abraço!

PRANDINI: Ah…faltou aquelas perguntas chatas: quando e como a banda começou? Quantos trabalhos a banda já lançou? Como vocês enxergam a cena hoje? O que vocês acham da internet? Por que cantar em inglês? Setembro chove? hahaha

Valeu, Mauricião! Puta honra ‘estrear’ no Nada Pop! Parabéns pelo trabalho! Siga firme! Conta com a gente pro que precisar. Nóis memo!!!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.