terça-feira, 14 de agosto de 2018
Nada Pop

Entrevista com Black Alien: “Meu plano é continuar vivo, bem vivo, criando”

Black Alien é considerado por muitos um dos melhores letristas de sua geração. Nascido no Rio de Janeiro, em 1972, conquistou reconhecimento nacional com o Planet Hemp. Mesmo com a sua saída do grupo, seus versos marcaram a história de uma geração.

Seu primeiro álbum solo foi lançado em 2004, Babylon by Gus – Vol. 1: O Ano do Macaco é considerado uma obra de arte, faixas como Mister Niterói, Como Eu Te Quero, Na segunda vinda e Caminhos do Destino são clássicos do rap nacional e só contribuíram para aumentar ainda mais o seu reconhecimento e o interesse por um novo álbum.

A espera por um novo trabalho só terminou em 2015, com o lançamento de Babylon By Gus – Vol. II: No Príncipio Era O Verbo. Foi a volta por cima de um rapper consciente depois de anos brigando com demônios internos e contra o álcool.

Mas ao contrário do que pode parecer, seu segundo disco não é sombrio e nem traz lembranças obscuras. Com participações especiais de Luiz Melodia, Céu, Edi Rock, Parteum e Kamau, além da continuação da parceria com o produtor Alexandre Basa, Black Alien consegue realmente apresentar em Babylon By Gus II uma nova vida. “Seja bem-vindo”, ele diz.

Entrevista realizada por Eduardo Santana (da banda Penhasco).

NADA POP – Semanas atrás, no palco da 15ª edição do festival João Rock, em Ribeirão Preto, você, B-Negão e D2 mandaram bronca em “Contexto”, faixa do clássico “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça” ao vivo. Como foi mandar um som com os caras após 15 anos?

BLACK ALIEN – Foi sensacional! Me diverti muito e fiquei muito feliz porque o Marcelo e o Bernardo aceitaram meu convite sem nem pensar! Cantar com eles para aquele mar de gente foi um revival e tanto… Túnel do tempo legal!

NADA POP – Qual a diferença do Black Alien em “Babylon By Gus – Volume I: O Ano do Macaco” para o Black Alien em “Babylon By Gus – Vol. 2 – No Princípio Era O Verbo”?

BLACK ALIEN – O Black Alien é o mesmo nos dois discos. Em 2004, eu tinha 32 anos de idade (completados no estúdio) e cheguei com 3 cadernos de anotações. Em 2014, aos 42, comecei a escrever o vol ll no papel em branco, me baseando exclusivamente nas abençoadas e muito bem-vindas inspirações e brainstorms dessa fase, sem consultas a qualquer banco de dados, inclusive o do material que sobrou do vol 1.

NADA POP – ” Vinte anos e avante, não atrapalha / E eu me mantenho relevante / Entre uma pá de rima palha”. Essa rima de “Rock ‘N Roll” é uma das mais impactantes do último disco. Em especial, por fazer todo o sentido. O que você considera hoje em dia uma rima palha e uma rima foda?

BLACK ALIEN – Então, como a música é também um recado direcionado, provoquei com “rima palha”, porque se manter relevante entre rimas boas é o difícil. E é o que acontece. As rimas palha de sucesso comercial são fugazes como seu sucesso. Os poetas contemporâneos estão voando com suas canetas e, humildemente, eu também alço meus voos e isso há mais de vinte anos. Rima palha pra mim é aquela que não vêm do coração. Não vejo “boa” ou “palha” em termos meramente técnicos ou de alguma habilidade específica. Conheço Mc’s de suposto “nível técnico” alto, habilidosos, instruídos ou não, que escrevem coisas tão carregadas de pretensão e copiando fórmulas e estilos que “deram certo”, que me dão preguiça. Ao mesmo tempo escuto coisas tão genuínas que me emociono e me dão vontade de correr pra minha escrivaninha pra escrever. Sua autenticidade poética atropela qualquer quesito de julgamento.

NADA POP – Eu fui no show de lançamento do seu último disco ali no Sesc Pompeia. Em determinado momento, você começou a falar sobre política no intervalo entre uma música e outra, mas deixou nas entrelinhas ao dizer algo do tipo “minha postura tá bem nítida aqui no que eu canto”. Qual sua ótica do nosso atual cenário político e o que pensa sobre esse debate mais polarizado?

BLACK ALIEN – Até 2009, eu assinava 2 jornais impressos, acordava e ia dormir sintonizado num canal de notícias 24hs. Buscava saber de política com os próprios políticos, inclusive. Depois deixei pra lá pois acabei sabendo demais, não estava me fazendo bem, e nos últimos 2 anos me mantive longe desse assunto por questões de saúde. Não era recomendado assuntos que alterassem além do meu humor e política é o primeiro deles. Agora, em uma fase mais avançada da minha recuperação, estou voltando aos poucos ao assunto. Por enquanto, com anotações e pequenos ensaios. As notícias têm vida curtíssima e o panorama muda toda hora, por isso não estou falando nada. Não tenho base pra isto ainda. Preciso de base sólida pra fazer ou falar o que quer que seja. Mas posso dizer uma coisa agora: Nunca vi nem ouvi falar de tanta intolerância nesse nosso mundo. E como nêgo fica valente e doutor em tudo, quando fala por trás de uma tela e um teclado, hein!!!?

NADA POP – O Rap vive um novo momento de repensar os ismos, em especial, o machismo. Vide, por exemplo, o Criolo ao regravar o também clássico “Ainda Há Tempo” ter alterado letras machistas. Como você vê essa questão?

BLACK ALIEN – Acho saudável. E sobre o Criolo, ele foi de uma coragem incrível. Se rever sob holofotes não é pra qualquer um! A responsabilidade do artista é imensurável. Eu repenso meus valores também. Ninguém é perfeito, e sei que sempre posso melhorar como ser-humano. Sobre o rap e os “ismos”, tem um verso de “Mulheres e crianças primeiro”, música de 1998, em que expresso o que penso, lá e agora: “…insisto e recuso “istas”/cismo e rechaço “ismos”/por isso não insista”. Devo olhar pra mim, mudar a mim, antes de querer mudar o outro ou o mundo. Nada muda se eu não mudar. “Arrumar o quarto pra arrumar o mundão, demora mais eu faço” – “Quem é você?”- 2015. Me dou bem com o HUMANISMO, e só.

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Capa do álbum “Babylon By Gus – Vol. 2 – No Princípio Era O Verbo”.

NADA POP – É sabido que o single “Terra” foi escrito numa clínica de reabilitação. E nessa canção você repete “Eu vou ficar / eu vou ficar / eu vou ficar bem”. Você está bem?

BLACK ALIEN – Estou bem sim, obrigado! Cada dia é uma benção e uma nova chance. Agora a vida “Como ela é” apresenta os problemas como eles são. Claro, ninguém disse que ia ser facinho…Esse é o mantra que usei em momentos difíceis e que me ajuda até hoje, pois afinal a vida segue, com outros momentos bons e ruins.

NADA POP – Por falar em ficar bem, o Rap Nacional vai muito bem, não é? Desses novos nomes, o que você destaca?

BLACK ALIEN – O rap nacional vai muito bem sim, obrigado! (Risos) O rap brasileiro hoje movimenta a economia do país. Ele gera vários empregos, sustenta famílias, está em todas as mídias. Em milhões de lares e lugares, direto dos speakers. E vai crescer mais ainda. Sobre os novos nomes, não sei se são “novos”, mas destaco o que tenho ouvido, que é Elo da Corrente, Atentado Napalm, além de Rincón Sapiência e Matéria Prima, dois dos meus Mc’s prediletos que estão prestes a lançar disco.

NADA POP – Os planos de Jah para você são maiores que seus planos para você?

BLACK ALIEN – Sim. São maiores e melhores.

NADA POP – Para finalizar, quando tem show em São Paulo e quais são os planos do Black Alien daqui para frente?

BLACK ALIEN – Em São Paulo teve show agora dia 03/09 no festival Weedstock, e até o fim do ano tem outras datas na capital e em algumas cidades do Estado. Meu plano é continuar vivo, bem vivo, criando. Meu interesse na arte é bem amplo.

Confira a galeria do Nada Pop com fotos do Festival Weedstock – basta clicar AQUI.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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