quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Entrevista com a banda Mollotov Attack

Se liga nessa frase aqui: “Minha cura, sua doença! Minha crença, sua sentença!”. É essa a frase que abre os shows do trio de São Bernardo do Campo e que resume bem a filosofia da banda. Ser um dedo na ferida aberta, um câncer no pulmão do sistema, um soco na cara do conformismo e da manipulação, através da consciência, atitude e da resistência. Eles são o Mollotov Attack, banda que comemora 10 anos de luta neste mês.

Formada no ano de 2005, em pleno ABC paulista, berço de bandas conhecidas por levar a sério o underground e o hardcore como “Ulster” e “Ação Direta”, carrega em suas letras mensagens de revolta, protesto e incentivo. Com influências de bandas como Agrotóxico, Lobotomia, Calibre 12, Dead Kennedys, Cólera, entre outras, o Mollotov Attack segue seu caminho, tocando, conhecendo novas cidades, pessoas e dividindo o palco com diversas bandas, muitas das quais foram e são influência para eles próprios.

Com uma demo lançada em 2008, chamada “Consequências da violência”, ainda com a primeira formação, a banda voltou ao estúdio para lançar em 2012 o seu primeiro álbum, “Resistência”, e que conta com as participações do Barata (DZK) e Cláudia (Negative Control). Esse novo registro, assim como seu antecessor, apresenta uma nova sonoridade, que já transparecia nas músicas novas e que ficou ainda mais evidente com a nova formação, com Bollaxa (baixo e voz), Didi (bateria) e Wagner Cyco (guitarra).

Com participação em diversas coletâneas, aproveitamos para citar as mais recentes como a “Heróis da Nação Falida”, “Many Minds – Tributo ao Nitrominds”, além da coletânea mexicana “Destruyendo La industria musical”, do selo Nacion Libre. Atualmente está em fase pré-produção de seu novo álbum, que terá 12 faixas e deverá ser lançado no primeiro semestre de 2016.

O Nada Pop fez uma entrevista especial com o Mollotov Attack que você poderá conferir abaixo. Enjoy!

NADA POP – São 10 anos de história, muitos shows e bandas neste caminho. Acredito que vocês viram muitas bandas começarem e várias delas terminarem. Sem julgamentos de valores, cada um sabe do seu, mas se vocês tivessem que falar sobre o motivo principal da persistência da banda, qual seria?

BOLLAXA: Creio que não exista um motivo para nos manter unidos e sim uma série deles. Somos uma família e não apenas músicos. Levamos a sério nossa banda, isso desde sempre. Não temos vontade nenhuma de parar! Hahaha isso nunca passou pela nossa cabeça e nunca vai passar. rs

DIDI: Acho que a amizade em primeiro lugar, um bom convívio com os integrantes da banda. Às vezes torna mais prazeroso o que a gente faz. A gente nunca brigou, sempre estamos juntos nos rolês, tocando ou não, eu acho que um bom convívio entre os integrantes ajuda a fortalecer a ideia de seguir em frente.

CYCO: Quando você faz o que gosta, com pessoas que tem uma paixão tão grande ou até maior que a sua, o tempo não é nada além de uma coleção de histórias pra se contar. E persistir passa a ser apenas consequência e não um objetivo.

NADA POP – Mesmo não vivendo da música, pelo menos ainda, vocês são músicos reconhecidamente técnicos e competentes. Quanto do dia ou da semana vocês dedicam aos seus respectivos instrumentos? Mesmo parecendo óbvia a resposta, para as bandas que não ensaiam com tanta frequência ou só quando vão tocar em algum show, digam para essa rapaziada o quanto uma regularidade de tocar pode contribuir com a técnica ou pelo menos com o entrosamento de uma banda na opinião de vocês.

BOLLAXA: Nós ensaiamos toda semana, com show ou sem show. Na verdade o dia de ensaio para nós é sagrado! (hahaha) Dia de ver os irmãos (afinal somo uma família), tomar uma gelada e fazer o que mais gostamos, que é música! Sempre procuro tocar um pouco em casa, afinal as músicas são feitas assim, em casa, e depois ensaiamos. Então para inovar e não tocar sempre o mesmo riff tem que estudar!! E meu, na boa, banda boa acerta e erra junto. Improviso é a alma do negocio. Só ensaiando para se conhecer bem. Saber errar junto é sempre bom. Hahahaha

DIDI: Cara, é muito importante estar ensaiando regularmente. A gente ensaia uma vez por semana e isso ajuda muito no entrosamento, pode ter certeza. Eu, de uns anos pra cá venho me dedicando menos ao meu instrumento, sempre tive problemas com espaço em casa. Bateria ocupa muito espaço e não tenho como deixá-la montada todos os dias. Isso me prejudica muito, por que acabo tocando quando ensaio. O bom disso é que de uns 3 anos pra cá a gente ensaia toda semana, então minha dedicação ao instrumento seria de 2 horas por semana, muito pouco, mas fico sempre em casa, com minha bateria imaginária, treinando alguns rudimentos no meu pad e também escuto muito as músicas já gravadas. Sei que não é certo mais hoje em dia na correria do dia a dia é o que me sobra a fazer.

CYCO: Cada banda acaba encontrando o jeito que as coisas funcionam melhor pra ela. Os músicos também. Eu, particularmente sempre gostei de praticar. Hoje quase não me sobra tempo. E ensaiar com o Didi e com o Boll é uma espécie de lavagem de alma semanal.

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Mollotov Attack – Arquivo da banda

NADA POP – Dentre as tantas experiências que vocês já vivenciaram no mundo underground, quais são as mais marcantes (pelo lado positivo) e quais trazem mais revolta ou pelo menos certo incômodo?

BOLLAXA: Melhor coisa do underground são as amizades, afinal está todo mundo no mesmo barco. Não tem essa de estrelismo nem porra nenhuma! Maioria dos rolês você tromba os mitos que sempre admirou tomando uma no boteco da esquina antes do show, saca? Todo mundo igual, sem frescura. E talvez por se tratar disso, de simplicidade e humildade, muitos produtores de eventos tratam as bandas como lixo, como se estivessem fazendo um favor ao chamar pra tocar. Isso sim é foda!

DIDI: Mano, com certeza as viagens e as amizades conquistadas por todos esses anos. As viagens sempre deixam boas lembranças, sair da comodidade e mostrar o seu som em outros estados é muito prazeroso, chegar, tocar, ser elogiado e ganhar novos fãs é foda demais, e a amizade vem pro lado positivo também. Sempre que dividimos o palco com alguém, sempre ajudamos na mudança de palco ou em uma ajuda com um instrumento que falta, etc… Fora as bebedeiras no bar pós show, isso ajuda muito a seguir em frente na cena, humildade total. O que me traz mais incômodo é às vezes cair em presepadas, fechar um show em uma casa e não ganhar nem uma água, ver o cara do bar ficando rico com o tanto de público que colocamos na casa e pra gente não sobra nada. Mas disso já estamos vacinados, tanto é que mudamos nosso pensamento de anos pra cá, dando mais valor ao nosso trampo, e o que me deixa mais fudido é tocar com bandas que chegam na casa, tocam e saem fora.

CYCO: A coisa mais legal na minha opinião é ver as pessoas cantando junto com a gente, acreditando nas mesmas coisas em que acreditamos e dizemos nas músicas. As coisas ruins não são nada além de motivação pra ser cada vez melhor, cada dia mais fortes e determinados.

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Mollotov Attack no 74Club – Arquivo da banda

NADA POP – Baseado nisso, uma cena independente forte, pelo menos em São Paulo, para ser mais forte e com todas as partes ganhando (casas de shows, bandas e público), o que falta? Ou vocês acreditam que já temos essa cena forte de alguma forma?

BOLLAXA: Estamos em um tempo onde há muitos shows acontecendo, muitas bandas surgindo e talvez por isso a impressão que os shows estão mais vazios, saca? Para melhorar isso falta união entre organizadores de eventos, casas e bandas. Para que não role 10 shows ao mesmo tempo em lugares próximos, pois assim a galera se divide e vai cada um pra um canto. Talvez festivais maiores com várias bandas de regiões diferentes, para que não seja preciso vários shows pequenos ao mesmo tempo. Coletivos são a solução, na minha opinião.

DIDI: Eu acredito que temos sim, temos nossa união entre integrantes de bandas atuando todo mês em eventos, isso mostra o quanto a cena está forte, todo final de semana temos um evento em SP, isso é a razão de estarmos aqui, nos unir e sair mostrando nossa raiva. Eu acho assim: faltam casas de shows para o público independente, casas de covers eu cito várias, mais em SP, que me lembre agora, casas que abrem portas para música independente autoral são umas 4 ou 5. A cena sempre foi forte, é só sair de casa pra perceber isso.

CYCO: Acho que falta para todas as partes a consciência de que a arte pode e deve ser um fator de transformação social, e que deve ser estimulada e valorizada, na busca por uma sociedade mais justa e inclusiva. As iniciativas do coletivo D-Beach Chaos, do litoral paulista e do grupo Circuito Punk de São Paulo, idealizado pelo Fernando Feio, da banda Pés Sujus, são bons exemplos de uma articulação que começa a tomar forma no sentido de minimizar esse problema dos eventos que dissipam ao invés de agregar citado pelo Boll.

NADA POP – Vocês seguem para uma turnê fora do Estado de São Paulo. Por onde, quando e quais cidades vocês irão passar e como surgiu essa possibilidade? Como foi a programação dos shows e como foi o lance do investimento, é todo de vocês? É a primeira turnê fora do Estado?

DIDI: Na verdade é a segunda vez. Já tocamos no Rio anos atrás e esse ano voltamos pra lá. Dessa vez vamos mais longe, nordeste. Tem uma cena pesada, bandas boas, pela falta de tempo vamos fazer apenas três shows. Um na Paraíba, em João Pessoa, e dois no Rio Grande do Norte, nas cidades de Caicó e Natal. Fechamos essa viagem com os manos do Rotten Flies. Eles passaram por SP em abril e colamos em alguns shows. A amizade se fortaleceu e veio bons frutos, graças ao corre do Wagner Cyco. Ele que fechou tudo na tour. Passagem de avião está sendo paga pela banda em várias parcelas sem juros (kkkk), mais vale muito a pena, pode ter certeza que voltaremos mais fortalecidos e com novos aprendizados.

CYCO: Essa tour é resultado da nossa parceria com o pessoal da banda Rotten Flies. O guitarrista Adriano é quem fez toda a correria pra marcar os shows, convidar as bandas e é o cara por trás dessa empreitada. Somos muito gratos a ele e aos outros organizadores.

NADA POP – Com quais bandas vocês irão tocar por lá? Em uma conversa com o Wagner Cyco, ele disse que a cena do nordeste parece mais forte do que a de São Paulo. O que vocês esperam encontrar por lá e quais dicas para fazer um “intercâmbio” mais forte entre as bandas de diferentes estados do país?

CYCO: O segredo desse intercâmbio é a amizade. A vontade. Justamente por não circular grana no nosso meio, o independente, você acaba conhecendo pessoas com a mesma ideologia que você, que fazem as coisas por amor mesmo. E com vontade de ambas as partes dá pra fazer coisas incríveis. Quanto às expectativas, prefiro ser surpreendido. Iremos tocar com as bandas Campo Minado(PE), Rotten Flies(PB), Bior, Alcoholic Corrosion, Subliman(PB), Riveros e Joseph Little Drop.

DIDI: Falando a real vou conhecer a maioria das bandas lá. Sempre busco ouvir antes as bandas com a ajuda da net, gostei de algumas… Campo Minado, Rotten Flies já conheço… Riveros, Subliman, Alcoholic Corrosion… São bandas pesadas! Quero estar agitando no show deles. Lá espero encontrar varias minas (kkkkk), muita cachaça e sonzeira na oreia!! Vai ser demais essa viagem.

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Da esquerda para a direita: Didi, Cyco e Bollaxa. Banda Mollotov Attack no Hangar 110 – Arquivo da banda

NADA POP – E uma turnê fora do Brasil, há chances? Vocês pensam nisso? Caso sim, pra quando?

CYCO: Sim, há chances. Mas acho que seria um próximo passo. Antes gostaríamos de excursionar um pouco mais pelo Brasil. Conhecer melhor as outras cenas, outras regiões.

DIDI: Exatamente. Temos que mostrar nosso trampo no Brasil em primeiro lugar, e daqui uns bons anos, se já tivermos rodado o Brasil todo, aí sim pensar em uma tour fora do país. Já começamos a caminhada, já fizemos RJ e agora nordeste. Temos Minas Gerais, Brasília e Sul na próxima rota, e quem sabe depois de tudo isso pensar em algo fora. Temos contato com uma galera do México e Chile. Seria um bom começo.

NADA POP – E sobre novos sons da banda? Há previsão de um novo disco? Aproveitem e falem de como as coletâneas podem ser importantes para as bandas, já que vocês participaram de várias!

CYCO: O novo disco já tem nome e as músicas já estão prontas. Serão 12 faixas e entramos em estúdio em novembro para dar inicio ao processo de gravação. Coletâneas são uma forma interessante de atingir um público diferente, já que envolve várias bandas, ainda mais quando conta com grupos de diversos estados e regiões. Pode gerar resultados, parcerias e amizades muito interessantes.

DIDI: Opa, essa é a parte boa! Novo CD, há anos já estamos trampando em novas músicas, algumas já tocadas em shows. Mas agora vamos cair de cabeça no nosso trampo. Vem algo bom por aí. Em novembro começam as gravações de bateria e ai é só alegria. Vamos fazer algo com calma, sem pressa, pra não ter dor de cabeça. CD só em 2016! Coletâneas ajudam muito, pra caralho mesmo. Saímos em várias e temos sons no Brasil todo e em alguns países da America Latina. Muitas pessoas chegam na gente falando que conheceram nosso som por meio de coletâneas.

NADA POP – Se tivessem que recomeçar do zero com a banda, o que vocês teriam feito igual, diferente ou pior?

DIDI: Gostei dessa kkkk. Porra, se fosse começar do zero eu seria vocalista, man kkkk Não é fácil a vida de baterista hein… Chega nos picos não tem o que precisa. Tem que desenrolar na hora do show, montar, desmontar, guardar no carro, depois tirar do carro… Porra, até cansei só de pensar kkk Fora o peso e ser tudo muito caro hahahaha Igual esta até hoje e pior seria se eu fosse o vocalista kkkkkkkk

BOLLAXA: Exatamente igual! Vivemos o punk hardcore sempre, desde antes da banda, então seguimos o mesmo caminho desde sempre! Impossível escrever essa história de outra maneira a não ser assim. Suor e sangue!

CYCO: Eu não estava no começo. Entrei em 2012. Mas da minha parte não mudaria absolutamente nada. Tudo o que acontece no percurso ajuda a formar a personalidade da banda e contribui para sua construção e desenvolvimento.

17.10.15

Show de aniversário da banda Mollotov Attack no dia 17 de outubro no Lolla Palloza Ciase

NADA POP – Quero agradecer esse papo e sei que muita coisa podia ter sido falada e contada por vocês, por isso, deixo esse espaço para vocês concluírem essa entrevista da forma que vocês quiserem. Abraço e vida longa ao Mollotov Attack!

BOLLAXA: Valew a força Nada Pop! Continuem assim, mantendo espaço para a cultura de rua! Afinal, somos o que somos hahahaha. Logo teremos mais novidades. Estamos formando um coletivo para organizar shows no ABC. Aqui a cultura não morre! Resistência, ódio e indignação!!

CYCO: Muito obrigado pelo espaço neste que tem se tornado um dos veículos mais relevantes da cena underground. Gostaria de agradecer a todos os amigos que tem estado lado a lado conosco nesses 10 anos e convidar a todos para que venham se divertir em nossa celebração no Lollapalloza no próximo dia 17. Sem esquecer do meu irmão, Fernando. Muito obrigado parceiro!!

DIDI: Porra, com certeza seriam os agradecimentos. Temos muitos a agradecer até hoje. Aos que ajudaram e aos que não ajudaram, a todas as bandas que dividimos palcos, que tomamos uma cerveja juntos, que formamos uma amizade… Nosso muito obrigado às casas de shows que abrem as portas pra gente, a galera que cola no show, que há anos tem acompanhando a banda… Porra mano, são tantas pessoas que ficaria horas aqui… Ao Nada Pop por nos ajudar sempre, e principalmente às nossas famílias que sempre nos apoiou. Muito obrigado!!

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Nos próximos dias vamos lançar uma promoção comemorativa de 10 anos do Mollotov Attack. Fique ligado no Nada Pop e não deixe de compartilhar essa entrevista.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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