quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Entrevista – Cesar Zanin | Espaço Cultural Walden

É uma pena, mas o Espaço Cultural Walden, localizado no centro de São Paulo e voltado também para a realização de shows de bandas independentes, irá encerrar as suas atividades ainda neste mês.

Para conversar a respeito, e falar sobre os 21 meses de abertura do Walden, nós batemos um papo por e-mail com o Cesar Zanin, que junto com a Mariana Cetra (sua esposa) é proprietário do espaço e que gentilmente atendeu nosso pedido de entrevista.

O Cesar é nascido em São Paulo e durante muitos anos morou na Itália e na Inglaterra, exercendo diversas atividades e trabalhando principalmente como organizador de shows e turnês. Em 2011 voltou para o Brasil e desde abril de 2012 mantém o Espaço Cultural Walden, também conhecido como o “O Porão”, voltado para a realização de shows, exposições, oficinas, entre outras atividades.

Confiram a entrevista abaixo.

NADAPOP – Antes do fechamento do Walden foram 21 meses de atividade do espaço, entre shows de bandas, teatro, exposições, oficinas, lançamentos de livros, entre outros. Qual o maior aprendizado para você em relação a isso? O que significou o Walden para você?
CESAR ZANIN – Com o Walden percebi que existe muita gente criando com qualidade, mas com poucas opções para se apresentar, principalmente por falta de público disposto a prestar atenção. Aprendi a lidar com os aspectos burocráticos de uma empresa e aprendi também que realmente odeio marketing, haha.
Montamos o Walden com amor, tenho orgulho do Walden.

NADAPOP – Como surgiu a ideia de montar o espaço, quais foram as principais dificuldades no início?
CESAR ZANIN – A ideia de abrir um bar com local para shows pequenos surgiu a partir da vivência que tive enquanto morei na Inglaterra (2008-2011). Depois, já de volta ao Brasil, a Mariana veio com a ideia de abranger outras linguagens artísticas, disso surgiu o EC Walden.
A principal dificuldade no início foi me associar com alguém que nos atrapalhou de forma dolosa, isso foi muito prejudicial ao Walden e nos chateou muito.

O Walden foi aberto em abril de 2012. Eu voltei ao Brasil em 2011 e logo que cheguei tentei visitar alguns dos lugares da noite paulistana, onde as bandas estavam tocando etc. Eu queria estudar as condições da cena e ali eu já percebi que algo estava errado… O modo como as casas atuavam tinha mudado, e o modo como o público se portava também.

Cesar Zanin, proprietário do Espaço Walden

NADAPOP – Em outra entrevista sua você falou um pouco sobre a sua vida pessoal, da sua experiência morando fora do Brasil e do seu envolvimento com a música no exterior. Para você, quais são as principais diferenças da cena independente de São Paulo em comparação aos lugares que você esteve lá fora?
CESAR ZANIN – Eu trabalhei com bandas independentes na Europa e America do Norte, organizei eventos e toquei com bandas em lugares que me inspiraram.
A principal diferença que eu vi é que lá fora, apesar de todas as limitações, a cena independente é viável, aqui a cena independente me parece praticamente inexistente.

NADA POP – Como músico e produtor, como você percebe a atual cena da música independente do país (ou de São Paulo especificamente). Em sua opinião, no que ela pode (ou precisa) melhorar?
CESAR ZANIN – A tal cena independente daqui é desarticulada e nada atrativa. Ate mesmo a definição do termo independente aqui eu vejo de forma confusa…
Para melhorar, acho que o primeiro passo seria os integrantes dessas bandas que se dizem independentes passarem a frequentar shows de outras bandas dessa mesma cena, pagando ingresso para ver o show, pela música. Sabe, valorizar o que está ao nosso redor.

NADAPOP – Aproveitando o gancho da pergunta anterior, você concorda que o público dessa cena independente está disperso ou até mesmo ausente? Como você percebe isso e se consegue encontrar alguma explicação para tal?
CESAR ZANIN – Em geral, mas neste caso falando do rock no Brasil, por muito tempo o consumidor brasileiro foi tido como bobo, talvez por provincianismo – endeusando o que vem do eixo USA-UK etc, mas a meu ver principalmente por preguiça mesmo; pois então, desde que voltei a morar no Brasil vejo uma coisa estranha, onde o publico de rock aqui exige glamour! E como as bandas independentes não são capazes de fornecer esse glamour, então só vai ver show de banda independente os amigos de escola e trabalho dos integrantes…
E mais, as bandas não são capazes de fornecer esse glamour, mas gostariam!  Isso é o pior.
Não estou generalizando, mas pude ver isso desde que voltei ao Brasil, e mais de perto nos 21 meses de Walden.

NADA POP –  É possível destacar os pontos positivos e negativos no período de existência do Walden? Quais foram?
CESAR ZANIN – Positivos:
– Mais de 2.000 artistas se apresentaram (entre mais de 600 bandas de varias partes de São Paulo, de outras cidades e estados do Brasil e algumas bandas de outros países, também companhias de teatro, fotógrafos, artistas plásticos, escritores etc);
– O som no Walden sempre foi uma prioridade, tinha que ser forte, não é porque é pequeno que tem que ser fraco ou ruim, tem que poder escutar tudo;
– Sem panela na hora da curadoria, o espaço aberto;
– Os preços honestos, tanto dos shows como no bar;
– A localização central;
– Os horários dos eventos, proporcionando o uso do metrô;
– A certeza de encontrar sempre algo legal acontecendo no Walden.

Negativos:
– Falta de grana para oferecer mais aos artistas, falta de grana para trazer outros tantos, e claro falta de grana para manter o espaço com folga, sem dor de cabeça;
– Não tinha lugar para instalar o motor do ar-condicionado no porão, tivemos que instalar no fosso, confinado, por isso quando fazia calor e/ou quando o porão ficava cheio o motor ficava superaquecido e o ar que o aparelho jogava dentro não era frio, o porão virava uma sauna, haha;
– Acabamos abrindo espaço para pessoas que causaram problemas ao Walden, vandalizaram… Pessoas que demonstram não saber o que significa respeito e civilidade… Recentemente fui alvo de ameaças patéticas no Facebook, inclusive um boicote ao Walden foi iniciado por esses dias… Hoje mesmo telefonaram para nossa casa para nos ofender, como fazem os adolescentes mimados e mal-amados, passando trote…;
– Gostaríamos que o porão fosse um pouco maior;
– E claro, nossa falta de tato comercial e principalmente falta de marketing, mas na boa, ainda continuamos a achar que isso nem é negativo, pelo contrario, hehe.

Mariana Cetra e Cesar Zanin no Espaço Walden (imagem retirada do site Floga-se)

NADAPOP – O fechamento do Walden está ligado ao seu interesse de permanecer mais próximo da família, ainda mais com o nascimento da sua filha Laura, isso mesmo? Você pode falar um pouco mais sobre isso e desde quando a ideia do fechamento surgiu? Houve algum outro motivo para o fechamento? Não há chances de reabrir o espaço, nem que seja em outro lugar?
CESAR ZANIN – Já tínhamos pensado em fechar varias vezes, sempre que alguma situação ruim tirava nosso sono, mas sempre encontrávamos motivo para continuar. Mas quando soubemos que a Mariana estava grávida, percebemos que tinha chegado a hora de dizer tchau para o Walden.
Basicamente chegamos à conclusão que para tornarmos o Walden lucrativo teríamos que aumentar os preços de tudo e mudarmos nossos princípios, o Walden foi o que foi porque era daquele jeito que tínhamos idealizado, se fosse para o Walden se tornar para mim um emprego qualquer onde o objetivo é ganhar dinheiro sem escrúpulos, melhor fechar.
Agora com a Laura, quero mesmo é aproveitar esse inicio da vida dela.

NADAPOP – O nome do espaço (Espaço Cultural Walden ou Abrigo no Bosque Pé na Estrada) é baseado no livro Walden; ou, A Vida nos Bosques, de Henry D. Thoreau, e no livro On The Road, de Jack Kerouac.  Qual era o seu intuito ao dar esse nome ao espaço? Chegou a pensar em outros nomes, quais?
CESAR ZANIN – O nome foi uma homenagem ao Thoreau mesmo. E ao Kerouac também. A ideia era essa, de abrirmos um abrigo mesmo. Nem chegamos a cogitar outros nomes, esse foi o primeiro que nos veio em mente, hehe.

Show no porão do espaço Walden (divulgação)

NADAPOP – Muitas casas acabam abrindo o seu espaço para uma banda tocar baseado na venda de uma determinada quantia de ingressos pela própria banda. Esse é um esquema até muito comum. O Walden tinha uma política diferente disso, não é mesmo? Por isso, você concorda que esse esquema é prejudicial tanto para bandas quanto para os proprietários desses espaços? Por quê?
CESAR ZANIN – Sim, é aquela velha história da banda pagar para tocar… Era contra esse tipo de coisa que lutávamos tocando o Walden. Isso entre outras coisas. Por exemplo, no Walden não tinha espaço para bandas cover. No Walden todos os artistas tinham o mesmo tratamento e as mesmas condições.

NADA POP – Por outro lado, você já escreveu que muitos querem ser artistas, com muitas regalias e terem os seus shows lotados, mas uma grande maioria desses “artistas” não frequenta ou vai aos shows de outras bandas e quando vão ao show querem entrar de graça. Por favor, você pode falar um pouco mais sobre isso?
CESAR ZANIN – Foi o que eu disse numa das respostas anteriores, tem gente achando que ser artista é viver de regalias, viver de favores, envoltos em glamour… Rapaz, como tem gente folgada nesse meio, hahaha.

NADA POP – Você ainda acredita que não existe mídia especializada na cena independente do Brasil? Por quê?
CESAR ZANIN – Visitei o blog do coletivo Nada Pop e posso dizer que é um exemplo de mídia independente, que fala da cena independente, bacana!

Mas em geral a mídia não fala da cena independente, dos independentes. Nas poucas vezes que o faz, é num tom diferente. Nem mesmo aqueles que se dizem independentes valorizam a cena independente. É o cachorro mordendo o rabo: o público não quer saber, a mídia não quer falar, as bandas não querem ser.

NADAPOP – Quais são os seus atuais ou futuros projetos? A Espiral de Bukowski, por exemplo, do que se trata? Aliás, o nome do projeto é bem interessante, qual a sua origem?
CESAR ZANIN – Além do Walden, continuo com o micro selo DIY que criei nos idos dos anos 90, chamado O Bosque / Woodland recordings, tenho o projeto musical A Espiral de Bukowski com a Mariana, de vez em quando tocamos com a banda Magic Crayon e eu gostaria muito de conseguir voltar a escrever.

A ideia é trabalhar para ganhar dinheiro e cobrir o prejuízo financeiro que tivemos com o Walden, para então fazer um retiro, depois da copa. Viver por um tempo em algum lugar que eu ainda não conheço e me dedicar a escrever, ler, compor, gravar, viajar, e claro, aproveitar minha família, namorar a Mariana e curtir a pequena Laura.

Sobre o nome: a Mariana teve a ideia de chamar nosso projeto de Espiral, mas já tem gente que usa esse nome… Como eu tenho me interessado por cosmologia, filosofia e alguns conceitos de física, e como ambos somos fãs de Bukowski, meio que idealizei uma equação, um conceito matemático de brinquedo, AEdB.

O Nada Pop agradece novamente ao Cesar Zanin pela sua atenção com o coletivo. Abaixo disponibilizamos alguns links de interesse, como outras entrevistas realizadas pelo Cesar, e também dos seus projetos para quem quiser conhecer um pouco mais.

LINKS

Blog – Espaço Cultural Walden; ou, Abrigo no Bosque Pé Na Estrada
Facebook – Espaço Cultural Walden
A Espiral de Bukowski
Canto do Mundo – Entrevista Cesar Zanin
Ventilador Cultural – Entrevista Cesar Zanin
“Quem quer pagar para ver show independente em São Paulo” – Texto bastante interessante do Cesar Zanin, publicado no Facebook, sobre a atual cena paulista.

Aproveitando, no dia 19 de janeiro acontece o primeiro evento de 2014 organizado pelo Coletivo Nada Pop. Não por coincidência, o evento acontecerá no Walden. Para mais informações basta clicar AQUI.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.