sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

Dissidentes: botando a roda pra girar

Dissidente: segundo o dicionário o que diverge das opiniões de outrem ou da opinião geral, ou se separa de uma corporação por essa divergência. Ato de discordar de uma política oficial, de um poder instituído (ou constituído) ou de uma decisão coletiva.

A capa, simples e direta, já dá pistas do que será testemunhado nos 20 minutos de audição de “Só o rock salva!”, novo disco da banda paulistana Dissidentes. Gravado entre os meses de outubro e dezembro de 2014, o lançamento do quarteto formado por Mário (bateria), Japa (baixo), Sub (guitarra) e Toni (voz) impressiona pelo discurso afiado e crítico do começo ao fim. Parece uma autêntica lavagem de roupa suja, e sobra pra todo mundo. Do governo à população.

so o rock salva - capa grande2

Só o Rock Salva – Nada Pop Records (2015)

A gravação, de ótima qualidade, diga-se de passagem, ficou a cargo dos técnicos Bruno Mulinário e Leandro Nô (ex-Dead Fish) e foi realizada no Great Music Studio, no Tatuapé (zona leste de São Paulo). A influência de Circle Jerks continua pulsando forte nas veias da banda, perceptível inclusive na mixagem, que dá um destaque especial à linha de baixo, sempre acompanhada da precisão da bateria de Mário, que não alivia um segundo sequer.

Trabalho que reflete o amadurecimento da banda, todo o peso que escolher não viver o sonho utópico e consumista que move a sociedade passa a ter em certas fases da vida, e até que ponto um simples olhar por uma diferente perspectiva pode nos revelar sobre o mundo e as pessoas. É fácil perceber o quanto esse eterno conflito de buscar o bem estar para todos enquanto os próprios interessados se recusam a assumir seu papel tem incomodado a banda. E o que também fica perceptível é que a banda faz jus ao nome.

Morfeus

Japa (baixo), Toni (voz), Mário (bateria) e Sub (guitarra)

Confira o faixa a faixa:

Acabou a palhaçada: aquele desabafo acorrentado na garganta parece explodir e libertar, num hardcore de pura energia.

De cara no poste: essa faixa parece ter sido feita sob encomenda para alguns playboys que enchem a cara e saem pelas ruas com seus carros(armas?) colocando vidas inocentes em risco, além de colocar em cheque o papel da justiça nesses casos.

Só o rock salva: a faixa-título é um punk rock delicioso, para chamar pra dançar, enquanto a letra faz lembrar qual a importância do rock (ou da música em si) no dia-a-dia complicado da grande maioria das pessoas.

Mal interpretado: Trinta e cinco segundos de pura verdade.

Levante: Uma mensagem de incentivo para não te deixar desistir, acompanhada de um riff de guitarra certeiro.

Blues do absurdo: parceria da banda com o escritor Gugu Keller. Letra fantástica que ressalta e faz pensar sobre o quanto estamos cercados pelo absurdo.

Vote nulo: depois da ótima introdução onde a guitarra e o baixo se revezam, Toni destila toda a indignação com a forma com que somos governados e total descrença no sistema eleitoral.

Falas desconexas: nessa faixa é impossível não sentir certa nostalgia e lembrar as primeiras gravações dos Beastie Boys. Uma ode à dificuldade de comunicação entre as pessoas.

Desesperado: regida pelo baixo de Japa, a faixa reflete a realidade de milhões de trabalhadores, não apenas brasileiros, que sentem sua vida sendo drenada mês a mês. Uma das melhores do disco.

Qualé o seu problema: hardcore e punk rock na medida certa para agitar qualquer roda naqueles shows em que até as paredes do bar já estão suando em bicas.

Pare e pense: faixa onde a guitarra de Sub assume o volante enquanto a banda te convida a refletir sobre a responsabilidade de cada um de nós na construção da sociedade que almejamos.

Maricon

Mário e Sub

Não tem como saber se vai ser dessa vez que as pessoas vão entender a mensagem. Não tem como saber se as manifestações que explodem por todos os cantos atualmente tem alguma influência das tantas marteladas nas mesmas teclas que bandas como o Dissidentes já deram. Vivemos um período de transformação, que só o futuro será capaz de avaliar.

Os Dissidentes não reinventaram a roda nesse novo trabalho, e nem precisariam. Mas colocaram ela para girar na velocidade perfeita pra deixar o mosh pit do jeito que o diabo gosta.

Ouça e baixe o álbum clicando aqui | Facebook: Dissidentes Brasil

E-mail: dissidentespunkhc@gmail.com

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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