quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Derrubar a pirâmide – Entrevista com o Pé Sujus

Com 15 anos, enquanto andava de skate pelo bairro do Itaim Paulista, ouvi uma barulheira incomum, era um rock meio sujo. Ao me aproximar daquele bar (titulado “Bar do Presunto”), vi que a barulheira incomum, não era tão incomum aos meus ouvidos assim, pois se tratava de punk rock, o bom, velho e sujo punk rock. Assim conheci a banda Pé Sujus, por acaso, no rolê da rua. Mas aquele punk rock sem frescura, nascido na periferia de Sampa, ainda teria muito a nos mostrar.

Hoje, 10 anos depois me permiti entrevistá-los, bater um papo para conhecer um pouco mais da história dessa banda, os trabalhos lançados, as aventuras e esse punk rock que há tantos anos vem representando o punk da quebrada.

Confiram aí essa conversa.

NADA POP ENTREVISTA A BANDA PÉ SUJUS

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NADA POP – Começaremos contando um pouco da história de vocês, como e quando surgiu a ideia de formar a banda?  Como foi esse início?

FERNANDO FEIO – Primeiramente gostaria em nome de todos da banda Pé Sujus de agradecer a vocês pela oportunidade de compartilhar com a galera um pouco mais sobre nossa história, trabalho e ideais. A banda era um projeto meu desde 2002, de quando eu decidi que ia montar uma banda de Punk Rock, ainda quando eu estava dando meus primeiros passos na cena, adquirindo os primeiros CDs de punk e colando nos showzinhos do bairro do Itaim Paulista, que é onde a banda surgiu e via as bandas locais como Autarquia, Relutantes, Porão Revolucionário (hoje todas extintas) e outras que vinham pra quebrada como Esgoto, Deserdados, Sub Existência, Autogestão.

Tinha 14 Anos, nesta época surgiram as primeiras letras das musicas e só consegui por o projeto pra andar de fato em 2004, quando no exato dia 18 de abril finalmente consegui fazer um primeiro ensaio num quintal de chão de terra batida com uma caixa multiuso só pra todos instrumentos, sem microfone, na base do berro e uma bateria velha. Daí, cada ensaio era uma formação, até que surgiu a primeira oportunidade de tocar na Escola Estadual João Dória, onde estudava no 2º colegial. Daí juntamos uma formação que segurou 4 ensaios seguidos em cima da laje do Vacão, nosso primeiro baterista, e já em maio tocamos pela primeira vez, um show caótico que contava com covers do Inocentes, Garotos Podres, Replicantes e 2 sons próprios com a Formação: Feio (voz), John Lennon (back vocal), André e Michel (guitarras) e Vacão (bateria).

Após este show, que fez parte do festival da escola, só sobrou eu e o Vacão, os guitarristas queriam tocar “Emo” e apesar de tocarmos ali só pra tocar mesmo, os bonitões queriam ter vencido o festival, quem levou a taça foi um grupo de pagode e uma banda cover de CPM 22. Porém, ainda conseguimos a medalha de bronze (fácil né, só 3 bandas no festival hahaaha). O segundo show e primeiro “pra valer” foi no lendário Bar da Tia, no Itaim Paulista, em setembro, após a entrada do Cesar “Jhaspion” (falecido em 2013) na guitarra, onde surgiu um repertório maior de sons próprios e daí em diante a história começou a ser escrita de fato com inúmeros shows, demos, correrias e realização de eventos.

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NADA POP – Sempre fico curiosa com a composição dos nomes das bandas, ainda mais no punk que a galera é criativa, de onde veio o nome Pé Sujus?

FERNANDO FEIO – O nome veio a partir de uma camiseta velha que um dia minha tia usava limpando a Casa… Era uma camiseta de uma equipe de Gincana de Bairro, comum nos anos 90, cujo nome da equipe era… PÉ SUJUS.

Minha Tia era da turminha do rock’n’roll do Itaim Paulista e, segundo ela, a equipe era a mais “pobre” de todas, se reunia em um sofá velho num terreno baldio no Itaim e era composta por toda a “maloqueiragem” do bairro, punks, rockeiros e tudo que não prestava (hehehe). O Nome foi adotado para a Banda para simplesmente afirmar a identidade suburbana da mesma, alem de ser uma homenagem a quem fez muito barulho aqui na quebrada nas antigas, embora algumas pessoas já afirmarem que consideram o nome bobo ou infantil ou “nada a ver com punk” e nem ouvem os sons só por conta do nome, mas estamos aí há 11 anos pra dar essa oportunidade a quem ainda não escutou nosso som ou viu a gente tocar (hahahaha).

NADA POP – Pé Sujus é uma banda bastante ativa dentro do movimento punk, pois além de suas contribuições musicais como banda vocês ainda organizam shows, e tão aí dando a cara pra bater, sempre. Conte um pouco qual é a maior dificuldade de se fazer shows e eventos como o Okupalco? (Saiba mais do que se trata clicando AQUI)

FERNANDO FEIO – Estamos sempre envolvidos nos eventos na cena punk e underground, pois existe uma espécie de “pirâmide” dentro da cena: bandas “maiores” que não se misturam com a “gentalha” no suposto topo; bandas meio-termo que estão na base, mas pagam um pau pros do topo que não estão nem aí com elas, mas vez ou outra conseguem um showzinho bacana pra ser bucha de canhão e fazer passagem de som pra banda principal; e as bandas que estão na base, a mais pura resistência.

E a base poderia derrubar a pirâmide e horizontalizar tudo, mas prefere se isolar em seus círculos restritos de amizades, seja por questão de não sair da zona de conforto ou por haver divergências de pensamento com demais envolvidos na cena – ou por acharem que aquele círculo de indivíduos e grupos são os únicos “verdadeiros e coerentes”. Isso gera uma estagnação onde as bandas tocam sempre nos mesmos lugares para as mesmas pessoas, até que a existência da banda se torna algo tedioso e maçante até que chega ao fim, mais uma banda que acaba metendo a cara nos muros do paradigma da cena que é ESPERAR QUE OS OUTXS FAÇAM POR VOCÊ.

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Por conta disso estamos sempre organizando eventos: cerca de 60% de nossos shows são organizados por nós mesmos, pois como citei agora há pouco, tem rivalidade e boicote implícito entre as bandas SIM e se depender dos outros é um show ou outro ao longo do ano, além do que é uma forma de dialogar com o underground todo, criar rede de contatos, dar oportunidade a bandas de diversos locais, que mais tarde retribuem você com outro convite e assim se quebra um pouco o gelo do cenário e as coisas funcionam para nós e para quem mete as caras pra participar das gigs.

A maior dificuldade, no inicio, era estrutural: tinha os botecos pra fazer os sons, tinham as bandas pra tocar, mas nem instrumentos pra tocar tínhamos, imagina equipamentos pra fazer os sons? O negócio era fazer na cara de pau: pede um ampli pra um, uma bateria pro outro, pede pra banda trazer outra paradinha e… Voilà! Tá feito o evento. Mais pra frente se tornou difícil a grana: não havia mais quem emprestasse o que você precisa, daí comecei a comprar equipamentos…

Quando tinha uma estrutura “ok” para um showzinho precário, tudo fluindo bem, veio a maior dificuldade: O COMPORTAMENTO do público e de umas bandas… Fulano arrumando briga e levando revolver pro som, gente pixando banheiro do bar, pegando bebida e não pagando, banda se recusando a tocar com a bateria Thunder e multiuso Ciclotron que era o que tínhamos no alcance… Daí foi a hora de melhorar a estrutura e cuidar da segurança: parar de fazer som de graça e botar 5 conto na porta pra pagar um segurança pra não deixar entrar armas, alugar um equipamento mais bacana e descolar nem que seja 20 conto pra passagem pras bandas (ou cervejas que era o favorito)…

Nisso você vê que pode fazer algo mais bacana e que flui melhor desta forma, mas que a grana que entra é necessária pra continuar e, ainda sobre comportamento, vem o balde de água fria: as pessoas não querem pagar entrada. Banda tocando no bar pra 20 pessoas e 80 do lado de fora te chamando de capitalista mercenário por cobrar 5 reais na porta, cheirando um pino de 10 ou tomando uma garrafa de Vodka de 20…

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Flyer feito a mão – DIY!

O tempo passou, casas especializadas surgiram em boa quantidade de uns 6 anos pra cá e hoje temos bandas, equipamento bacana, casas legais, mas o que continua matando é o COMPORTAMENTO. Se o Público não comparece ou só fica na porta reclamando, não entra grana pra bancar os custos do rolê, nem sobra uma ajuda pras bandas, a casa não vende bebida e nem arrecada o aluguel costumeiramente cobrado para sua manutenção e acaba fechando, o realizador do evento tira grana do bolso e toma prejuízo, agora pra ver banda “grande” ou COVER todo mundo vai lá e lota os pico de boy. A maior dificuldade não seria nem cativar o público a participar e sim conscientizá-lo sobre a importância de sair de casa e colaborar prestigiando a cena, como a pessoa é importante pras coisas continuarem e o mais difícil ainda: o público punk e underground não pode ser “Consumidor” e sim um agente de mudança, assim como as bandas e demais envolvidos, fazendo sua parte apoiando as iniciativas, afinal, amanhã quem é publico pode ser banda, produtor, casa. Quem é pedra pode ser vidraça, aí a coisa muda de figura, mas pode ser tarde demais.

Sobre o Okupalco, foi inspirado no Palco Test, que ocupa as ruas na Virada Cultural, apesar de hoje contar com apoio e estrutura, e queríamos fazer algo parecido, porém, abrindo para as bandas de punk rock e englobar diversas atividades culturais na iniciativa. Durante a execução do projeto do primeiro Okupalco conhecemos o Laboratório Compartilhado TM13, um “Coletivaço” (junção de vários coletivos) que ocupava a antiga escola de Bailado do Teatro Municipal e incorporamos o Okupalco a programação da “Virada Ilegal Compartilhada”, dando também um sentido social e político a iniciativa ao invés de apenas musical.

Neste ano o Okupalco foi maior e contou com 24 horas de som com vários coletivos organizando e disponibilizando equipamentos, mais uma vez, nossa maior dificuldade, porém, com quase 30 bandas e quase 20 pessoas organizando tiramos de letra, apesar de ainda a estrutura estar aquém do esperado. O Okupalco vai alem da Virada, batiza o coletivo que tenho com o Julio Pelloso (Geração Suburbana) que realiza as ações do Okupalco nas ruas, no Cesar Bar, no Itaim Paulista, e agora também na ocupação Casa Amarela na Rua da Consolação.

NADA POP – Vocês já estão na estrada há um tempo, de fato em 11 anos muita coisa mudou, algumas para melhor, outras para pior. Na opinião de vocês, o que era muito bom naquela época, que com o tempo se perdeu? E o que era muito ruim, e com o tempo melhorou?

FERNANDO FEIO – Quando surgimos era tudo mais precário, mais rudimentar, mas ao mesmo tempo mais divertido e verdadeiro, as pessoas iam aos shows e não havia popularização das redes sociais ainda, quem quisesse saber onde ia ter som que colasse num role e pegasse o flyer dos próximos (tenho uma coleção imensa de flyers entre 2002 e 2009) – ou ia nas lojas especializadas em punk rock do centro/galeria do rock e olhava o mural de cartazes e recolhia os flyers.

Era algo muito mais difícil do que saber de tudo o que vai ter no fim de semana só de abrir o Facebook, mas os shows enchiam e as pessoas atravessavam a cidade, pegavam 3 ônibus e ficavam 4 horas só na ida pra ir num show do extremo da perifeira, era comum você encontrar seu vizinho do Itaim paulista num show em Parelheiros por exemplo, e rolava muito mais fanzines impressos também, que era legal pra caralho…

Hoje em dia as pessoas não vão a uma gig se não for próximo a alguma estação de metrô, tem acesso pra caralho a todo tipo de informação, tem enésimos eventos rolando toda semana e as pessoas não vão a nenhum, 300 pessoas confirmam presença na divulgação virtual e no dia só vão 30 (incluindo os integrantes das bandas!), não sabe o que é pegar um CD, folhear o encarte, ouvir o disquinho com gosto valorizando cada centavo investido, chegar feliz em casa com a demo de 3 reais que foi adquirida na banquinha da banda que tocou num buraco qualquer na noite anterior…

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Fernando Feio cantando e participando do DVD do Asteroides Trio

Perdeu de fato a paixão pela coisa. Amar a cena é fácil, difícil é ‘transar” a cena, sentir na pele, meter a cara onde nunca foi, conhecer pessoas tête-à-tête… Hoje é todo mundo punk pela internet, bota um puta visu e tira foto no rolê da pracinha do condomínio ou no fundo do quintal de casa com uma garrafa de 51 cheia de água, é inteligentíssimo na reprodução rebuscada “CTRL+C – CTRL+V”, daquele livro anarquista que nunca leu e muito menos entende nada o que ta escrito… Parafraseando a banda Lokaut: “falando o que desconhece você parece intelectual”.

Já o que melhorou muito foram as casas e as estruturas de equipamentos para as bandas tocarem, tocar em cima de um palco de 1 metro de Altura era algo raro, equipamento bom com retorno, ampli de qualidade então… Hoje em dia tá bem mais fácil a ter acesso a um bom equipo. A galera também está mais politizada, tá rolando um processo bacana de desconstrução de senso comum e vícios sociais, embora hajam alguns antigos que insistem em não deixar de lado aquilo que vem sendo desconstruído como racismo implícito, machismo, homofobia e afins…

A geração mais nova tem amplo acesso a informações e a contato com diversos movimentos sociais e políticos cujos ideais “batem” com o do punk e de 2013 pra cá a sociedade vive um surto reacionário imenso, que esta politização é imprescindível para que possamos de fato fazer que o punk continue sendo uma ameaça ao sistema e a elite. Em alguns anos não vai ter mais espaço pra “apolítico” ou “papagaio de Google”, pois estamos já numa guerra de extremos no campo ideológico: ou se junta com o fascismo ou se abstém (consentindo com quem “endireitou”); Ou luta junto com os movimentos sociais, anarquistas e antifascistas para conter e combater o avanço do retrocesso e do neofascismo, que cresce em escala mundial.

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NADA POP – A cada dia novas bandas vão surgindo. Mas ao mesmo tempo, as bandas também se desfazem, seja por falta de tempo, dinheiro ou outros fatores. Na opinião de vocês qual é a maior dificuldade de se ter uma banda hoje?

FERNANDO FEIO – Maior é muito vago… As maiores dificuldades são, como você já englobou: tempo, principalmente para quem é casado, tem filho, trabalha por escala, chega uma hora que você tem que escolher entre o trampo e a família ou a banda aí lascou tudo (rsrs).

Dinheiro, que na nossa cena as bandas são formadas por trabalhadores assalariados em sua grande maioria, e pagar R$ 30 numa hora de ensaio, R$ 1.500 numa gravação ou R$ 2.500 numa prensagem de CD ficam meio fora da realidade, alem dos gastos para ir tocar como combustível ou passagem de ônibus/trem, alimentação, manutenção e compra de instrumentos.

Comprometimento de Integrantes, quer queira quer não, cada banda é um projeto iniciado por um individuo e em muitos casos os demais integrantes se sentem como “coadjuvantes” ou como se estivessem “fazendo um favor”, não absorvem o espírito de coletivo que uma banda precisa pra se manter com uma formação sólida e entrosada, aí acabam saindo, faltando a shows e ensaios…

Tanto que após o fim da banda em 2012, que ficou um ano parada, ficamos cerca de 1 ano com um quebra galho aqui, outro ali até o Gaúcho, que mora em Jacareí, assumir a guitarra e dar o melhor de si nos proporcionando apresentações intensas, assim como a banda precisou de 4 anos pra encontrar o Chu, o baterista ideal e também compositor e o Punkelo, dedicado baixista há 6 anos conosco.

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Pé Sujus

Hoje todos vestem a camisa da banda e mesmo sem ensaiar ha bastante tempo por conta de grana e tempo, viemos fazendo excelentes apresentações e recuperando o espaço que a banda perdeu em 1 ano parada. Temos um clima de irmandade entre todos nós… Demorou quase 10 anos para chegarmos neste ponto, daí que destaco outro fator: paciência.

Bandas duram por aí 2, 3 anos e o idealizador já desiste, não tem saco pra ficar procurando quem abrace a ideia do projeto dar certo, quem saiba tirar os sons, quem chegue junto nos custos, alem do que mudança frequente de formação prejudica a qualidade da banda e o público não a assiste ou não mede as criticas, tem que ter culhão pra aguentar tudo isso…

NADA POP – Sem dúvida essas características são essenciais, mas você destacaria outros motivos para garantir que uma banda se mantenha na ativa por tantos anos?

FERNANDO FEIO – Como Já Citei, além da paciência, o principal de tudo é gostar do que faz e acreditar na sua banda, ignorar as críticas negativas, os boicotes, se reinventar sem perder a essência, enfrentar as dificuldades e superá-las de peito aberto, manter a humildade e ter o pé no chão.

Muitas bandas acabam, pois se deixam levar pelas criticas, cedem com as dificuldades sem procurar a forma de superá-las, cantam coisas que não acreditam mais, visam lucro sem ver que nesta cena que uma ajuda de custo de R$ 100 reais é LUXO e aí ficam frustrados por ganharem “apenas” uma cerveja (já tocamos em locais que nem água na torneira tinha e estamos vivos até hoje).

Quando você forma uma banda, não pense no quanto você quer ganhar, mas quanto tempo você quer que a banda exista, onde você deseja chegar, o porquê de existir e pra quê você quer tocar punk rock, pense que daqui a 10 anos você estará tocando ainda no underground, mas vai ter gente cantando suas musicas, te dizendo que você influenciou a banda dele que tá surgindo, que você esse tempo todo não ganhou 1 real, mas superou todo tipo de adversidade pra ainda estar ali tocando.

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Se não visar lucro e não tiver vaidade, você vai longe, as coisas vão acontecendo devagarzinho e quando menos esperar terá reconhecimento e estará em um nível que jamais imaginou chegar, embora isso não deva ser o principal. Para um dia ser “maior”, nunca queira ser o “melhor”, pois quem quer ser “melhor” vai ter muito concorrente “cobra com asa”, nesse mesmo espírito e ai você não aguenta muito tempo.

NADA POP – Quais as principais influências musicais e literárias (se houver) do Pé Sujus?

FERNANDO FEIO – Hoje nosso som tá numa pegada mais “Ramoneira” ou “77”, porém a nossa principal influência é o punk nacional dos anos 80 como Cólera, Condutores de Cadáver, Restos de Nada, Dose Brutal, Detrito Federal/BSB-H, Replicantes, Esgoto, Hino Mortal, Excomungados e bandas clássicas da Gringa, como Cockney rejects, Sham 69, Stiff Little Fingers, Lurkers, 999, Eskorbuto, Ratsia, 013, Interterror, Vice squad, The expelled, Action Pact, e obviamente Ramones.

Referências literárias não temos praticamente, o que nos inspira a escrever os sons são as situações do cotidiano, a vivência nas ruas, os assuntos relacionados a política e os aprendizados e desconstruções que vivemos no dia a dia. Eu, particularmente, escrevo mais do que leio. Minhas referências literárias são as histórias e relatos de pessoas que lutaram contra o sistema de alguma forma ou foram vítimas deles, posso citar aqui o “Manual do Guerrilheiro Urbano”, do Carlos Marighella, e “Diário de Um Detento”, de Jocenir, um grande combatente e uma pessoa vítima da ideologia fascista da polícia, algo mais inspirador para mim por estar mais próximo da minha realidade.

Seria um mentiroso se ficasse falando de Marx, Malatesta, Bakunin, Durruti, etc… 95% dos que citam esses autores nunca leram nada deles e se leram não entenderam merda nenhuma (hahahaha).

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NADA POP – Soube por meio das mídias sociais que o Pé Sujus está para lançar um novo trabalho, é isso mesmo? Fale sobre esse lançamento.

FERNANDO FEIO – Sim! É o nosso EP intitulado “Vamos quebrar tudo e construir de novo!”, com seis faixas e primeiro lançamento individual da banda. Três dos sons saíram na coletânea “Expresso do Subúrbio Vol.1”, de 2014. Os sons foram todos gravados no final de 2013 e mixados e masterizados este ano, no caso dos três sons que saíram na coletânea, estes foram mixados novamente e tem uma ligeira melhoria na qualidade em comparação aos que já foram lançados. São três músicas antigas que já foram gravadas em demos, algumas reformuladas e com alterações nas letras para dar um sentido melhor e mais amplo.

São elas “Opressão Militar” e “Mordaça de Papel-Moeda”, da segunda demo de 2005, “Obrigados a Guerrear”, primeira música da banda e de 2004, além dos três sons “novos”: “Punk de Plástico”, composta em 2009, “O Dono do Bar”, anteriormente gravada na demo da outra banda do Baterista Chu (Los Fuertes) e agora integrante do nosso repertório, e “Nada a Perder”, composição inédita do Chu que só conheci no dia que gravamos a voz (hahahaha).

Este trabalho foi produzido pelo Demente (Rebel Music/Juventude Maldita) e ficou com um resultado incrível, foi gravado quando a banda ainda estava se reestruturando após ficar um ano parada, foi uma gravação pra marcar o retorno e as guitarras e baterias foram gravadas pelo Chu, o baixo pelo Punkelo e eu nas vozes. Na época estávamos sem guitarrista, meses depois entrou o Gaúcho. O trampo ficou parado justamente por falta de grana pra terminar de pagar as gravinas e tempo para passar noites em claro no estúdio mixando a bolachinha, mas chegou a hora dele vir ao mundo.

Lançamos uma campanha de crowfunding para que quem quiser poder ajudar no lançamento do trampo, no link: http://migre.me/qWMaD. De acordo com cada valor doado, a gente dá uma recompensa entre o CD mesmo, camiseta entre outros, confiram os detalhes no link.

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NADA POP – E quais são os projetos e planos futuros da banda?

FERNANDO FEIO – Para este ano teremos a participação numa Coletânea Virtual “Tributo ao SUB”, tocando um som do Fogo Cruzado, no qual gravaremos em breve. Também, se tudo der certo, sai mais um som novo no segundo volume da coletânea “Expresso do Subúrbio”, onde estamos convidando as bandas, e estamos em um projeto para 2018 junto com os irmãos do Amnésia Coletiva para uma Tour Europeia, temos 3 anos pra levantar essa grana, neste exato momento tenho 2 reais no bolso mas vamos que vamos (hahahaha).

NADA POP – Agradeço o papo, o espaço estará sempre aberto a vocês e as bandas do nosso cenário musical independente. Para finalizar, façam suas considerações finais, comentários, passem a agenda de shows, contatos, enfim, esse espaço é de vocês!

FERNANDO FEIO – Bem, é isso… Foi muito bom ter a oportunidade de conversar um pouco com o Nada Pop, veículo de respeito que vem prestando um imenso serviço à cena underground, agradeço em nome de todos da banda mais uma vez pelo espaço e atenção e desejo cada vez mais sucesso.

Obrigado a você que aguentou a minha prolixidade e teve paciência pra chegar até o final desta entrevista. O cenário precisa de mais iniciativas como a do Nada Pop de dar voz a quem tá ralando nos botecos carregando caixa nas costas, diferente de muitas ditas “imprensas alternativas” que só querem ouvir quem “tem nome” apenas. Somos o Subúrbio, somos a Resistência.

Somos meio preguiçosos (sem tempo) e não tem link atualizado, mas logo estaremos fazendo um Bandcamp. Fiquem com nosso jurássico myspace pra curtir uns trampos velhos: http://myspace.com/pesujus, além da nossa página no Facebook, onde você pode acompanhar todas as novidades e os shows da banda: facebook.com/pesujus.

Nos vemos por aí, pelas gigs das quebradas e pelos rolês furados da cidade cinza.

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Sobre o autor

Lary Durante

Formada em Comunicação e Marketing pela Universidade Cidade de São Paulo, além de baterista da banda de punk Ratas Rabiosas. Também é colaboradora da revista eletrônica Hi Hat Girls Magazine.

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