sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Nada Pop

Debbie Hell fala sobre a última Festa Gimme Danger, assédio na balada e artistas memoráveis

Debbie Hell - Foto: arquivo pessoal

Debbie Hell – Foto: arquivo pessoal

Débora Cassolatto, mais conhecida como Debbie Hell, é a idealizadora/ organizadora da Festa Gimme Danger no qual sempre rola bandas ao vivo, discotecagem e até tatuagem durante o evento, ali mesmo, no meio da pista. Tudo feito com gente inserida no mundo underground.

A ÚLTIMA festa, isso mesmo, a última Festa Gimme Danger acontece agora, no dia 1º dezembro, lá no Bar Squat, que fica na Alameda Itu, nº 1.548. No dia teremos a banda The Velociraptors, vindo diretamente de Mossoró (RN), abrindo a tour do grupo por São Paulo.

Debbie falou um monte com a gente, principalmente sobre como é ser um mulher produtora de eventos e como muitas vezes já precisou pedir um “colisença” para homens idiotas. Confira o papo!

NADA POP – Debbie, além de ser diva do underground (sim, você sabe que é), você já fez uma porrada de coisa. Vou deixar o link (http://migre.me/vB8II) para quem quiser saber tudo sobre você, mas num resumo “simples”, diz pra gente quem você é e o que faz.

DEBBIE HELL – HAHAHAHAHA, obrigada pelo diva. Se essa história que toda diva tem ~uma passado difícil~, tô no caminho certo.

Putz, nem eu sei direito o tanto de coisa que já fiz. Enquanto as pessoas estão vendo novela, tomando cerveja com os amigos, eu tô enfiada em três livros vendo qual foi a primeira mulher a publicar uma partitura. Deve ser doença. Meu pai é músico de orquestra, obcecado também, e cresci vendo ele sentado 17 horas seguidas com uma partitura na frente intrigado com alguma coisa.

Mas voltando. A primeira coisa que fiz mesmo foi discotecar. E lá se vão 11 anos. Depois foi o blog Ouvindo Antes de Morrer (que eu estou numa treta loca com o tumblr por causa da senha) e era pra ser uma coisa só minha mesmo, sem pretensão ALGUMA, mas bombou e ganhou uma boa base de fãs. Nessa época recebi alguns convites para o blog ser incorporado a sites grandes e ganhar umas credenciais, virar colunista, essas coisas. Foi aí que bateu o baque de que NÃO. Se for pra fazer essa caralha, eu quero ter o meu nome, fazer o jeito que eu quero, que eu sou e com minha liberdade, sem ninguém enchendo o meu saco.

Aí vieram convites de colunas de amigos queridíssimos (Tenho Mais Discos Que Amigos, Rocknoize, etc). Aí fui cobrir o Rock in Rio por uma agência e resolvi meter a loca e cobrir pelo blog. Deu super certo e resolvi fazer em tudo quanto era show com ou sem credencial. Foda-se credencial. Minha especialidade é perder credencial.

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Amor | Pequenas Estórias, livro do qual a Debbie participou.

Nisso, eu trampava com a editora de um site fantástico e muito fino chamado Confeitaria Mag. Com escritores e poetas de verdade. Aí sei lá o que deu nela que me chamou pra escrever lá. E NÃO CONTENTE, me convidou pra participar do livro “Amor | Pequenas Estórias”, coisa que não acredito até hoje.

Aí rolou uma fita da Capricho indicar Arctic Monkeys pras minas ouvirem e os BALUARTES DA MÚSICA ALTERNATIVA invadirem os comentários dando um escândalo falando “voltem a ouvir Justin Bieber”, “ISSO NÃO EH MUSICA DE MENINA”.

Isso me transtornou NUM NÍVEL que criei na mesma hora o blog música de menina (que agora é parte do www.debbiehell.com.br) (o antigo endereço tá fora do ar porque deu treta no servidor e eu sou um desastre).

Sempre fiquei puta com esse lance cultural que menina tem blog de maquiagem e cara tem blog de música. Essa foi a gota d’água. Não era um blog CONTRA os caras. Era um blog que “música de menina é O QUE ELA QUISESSE OUVIR”. E sempre dei espaço para minas super legais. E ah, sim, menina também poderia falar de música, né, mores.

Depois desse blog surgiram mais coisas super legais, como o Olga me levando para São Carlos para entrevistar rappers internacionais e a Karol Conka, fui indicada como uma das 150 mulheres inspiradoras de 2014 pelo meu trabalho com a música voltada para mulheres, e virei fonte de entrevistas para música, então sempre estou dando entrevistas para trabalhos de TCC (tem um aqui http://bit.ly/2g6cuWy).

Já fui publicada em duas edições da revista alternativa “Café Espacial”, dou cursos e palestras sobre “Mulheres na História da Música” (quando pesquisei só tinha a partir dos anos 40, fiquei putíssima e minha aula começa na Grécia Antiga)

Aí veio o programa Debbie Records que ficou um ano na Radio Brasil 2000 que aprendi HORRORES, até a rádio fechar, e dois meses depois fui procurada pela Mutante Radio uma rádio que não pára de crescer e tenho uma liberdade criativa absurda.

Teve No FUN, uma festa que durou 3 fucking anos, a Gimme Danger que é uma das minhas maiores realizações por ter produzido e ter tocado o barco sozinha, e agora estou como Creator no Spotify e num bate bola com eles.

Acho que é isso. Acho.

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Festa Gimme Danger – Clique na imagem para ser direcionado para a página do evento no Facebook.

NADA POP – Sabemos que o underground não dá dinheiro, muitas vezes é só perrengue de todo tipo. Por que, afinal, você se arriscou por esse caminho e não no caminho da sua formação como administradora?

DEBBIE HELL – Porque eu não tive escolha. Quando se nasce com essa inquietação, dentro da sua alma, a maior violência que se pode cometer contra você mesmo é abafá-la ou ignorá-la. Trabalhei em banco, financeira, fui controller, liberava empréstimos de milhões para empresas, tomava decisões absurdas e isso só serviu pra me deixar doente.

NADA POP – Muitas bandas te procuram? Como é esse contato e se você conta o número de vezes que “alguns caras” ultrapassaram certos limites de respeito com você.

DEBBIE HELL – Desde que o Ouvindo (blog Ouvindo Antes de Morrer) explodiu, eu recebo trocentos e-mails de tudo quanto é tipo de banda. Eu ouço, mas (me desculpem aqui) nos primeiros 3 segundos dá pra saber se uma coisa é boa ou não. E pela quantidade de coisas que eu faço, entre jantar, tomar banho, dormir um pouquinho, ou responder pra “glr, dsclp glr”. Por outro lado eu procuro muitas bandas, vou em muitos shows e fico muito esperta no que tá rolando de bom. Bandas com menos de mil plays no Spotify estão sempre no meu radar.

Sobre os caras ultrapassarem limites eu geralmente já corto na mesma hora. Quando eu sou OBRIGADA a interagir com um cara mais assediador eu já dou meu cartão de jornalista pra deixar as coisas bem claras porque pseudomúsico AMA achar que jornalista é groupie. Já aconteceu no underground tentarem me agarrar a força e eu ficar muito muito abalada (cheguei a contar desse dia no Snapchat). Já aconteceu do Otto numa entrevista jogar charme como se eu fosse jornalista gostosinha burrinha e eu rebater e começar a me aprofundar nas questões até criar climão. Muitas mulheres na música acreditam que “com jeitinho”, “jogo de cintura” e “sutileza” você coloca os caras no lugar deles. Eu nunca vi uma revolução acontecer na base do “colisença”.

(Mas quem me conhece sabe que sou um amor <3)

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Debbie junto com outros amigos – Foto: Amanda Costa

NADA POP – Falando nisso, conta a história da Festa Gimme Danger. Quando ela começou e quando será a próxima edição do evento.

DEBBIE HELL – Cara, a Gimme Danger começou como tudo na minha vida: comigo tropeçando, não entendendo nada e quando vi tava lá comandando as coisas. O Squat inventou de fazer umas quintas de rock com banda. Só que gente, eu sou DJ, ESCRITORA E RADIALISTA. Não sou promoter, não sou booker, não sou produtora de festa, não entendia UM CARAIO DISSO e nem LIDAR “cas” banda eu sabia. Aí perguntei: Tenho total liberdade? Tipo, posso meter um caraio de um tatuador no meio da festa se eu quiser? Aí disseram que eu podia. Aí eu topei porque sou loca né. Aí comecei a viajar na ideia de qual tipo de festa queria ir. Sou obcecada por proto punk, glam 70 e queria uma atmosfera assim com as bandas alternativas mais legais de SP e PRINCIPALMENTE com um público relevante da ~cena~. Que as pessoas se conhecessem na festa e conversassem, fizessem negócios, armassem shows, uma coisa meio Max’s Kansas City. E isso deu certo com muita ajuda de amigos que me ajudaram no corre todo mês comparecendo, divulgando e se tornando lovers da festa. Aconteceram coisas como a galera do Far From Alaska discotecar praticamente na brodagem (E SE TATUAREM), o Figueroas colar por lá, Yourtubers famosos, a primeira discotecagem da vida do Chiveta, gente da cena do hardcore (esses que tem restaurante, a Clara Averbuck tocar, vários donos de selos e estúdio baterem cartão, e o Giuliano de Martino (Deb and The Mentals) todo mês além de fazer cartazes lindos, tocar O QUE QUISER no som, e todos eles prestigiando bandas do underground do underground do underground.

NADA POP – É a última festa mesmo no próximo dia 1º de dezembro? O que pegou, como assim?

DEBBIE HELL – SIMMMMMM!

Porque já foram 16 edições MARAVILHOSAS (porra, quase um ano e meio). Na verdade eu sempre priorizo o pagamento de quem eu contrato (banda sempre toca com cachê fixo independente de bilheteria por questão de respeito, DJ, fotógrafa, etc) e o que sobra em geral é preju, ou então nem dá pra pagar a condução de volta pra casa. Então essa festa foi quase “OLHA GENTE, EU EU FIZ MINHA PARTE”. Ainda mais com a realização de ser uma festa idealizada e produzida por uma porra de uma mulher que tomava as decisões (quem toca, quem não toca, quem discoteca, quem não discoteca), numa sociedade em que a gente morre pelo simples fato de ser mulher. Mais do que uma realização, isso é um ato político.

MAS, sim, depois de umas merecidas férias ela voltará em outro formato, me aguardem.

NADA POP – Quais são os seus planos a partir de agora? Quais projetos futuros você já pode contar?

DEBBIE HELL – Bicho, meu plano é botar a vida em ordem. Arrumar aquele site que tá uma quizumba, arrumar os programas da rádio que não tão lá. Voltar a escrever nos blogs, arrumar tudo que eu prometi e tá atrasado e – se der tempo – respirar.

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Debbie Hell em algumas fotos – Fotos: arquivo pessoal

NADA POP – Gostaria que você contasse os principais problemas que uma mulher como você enfrenta por organizar festas/baladas. Rola contar alguma história?

DEBBIE HELL – Hoje por eu estar há muitos anos na cena e um dos critérios para chamar pra tocar é não ser cuzão, tenho pouquíssimos problemas com a Gimme. Acho que só uma banda foi filhadaputa e garrei um ódio que até taquei o CD fora. Meu maior problema é que sou sorridente, descontraída, ando sozinha, sou independente, preciso do contato pra fechar acordos e se a pessoa não conhece meu “jeitinho”, já entende tudo errado.

Mas, de novo, me cerquei de pessoas tão bacanas que me sinto até protegida disso. Quanto a esse lance de ter ~fama~ de piranha puta, com quantos ficam, blábláblá, primeiro que sou casada. Por mais que meu marido também trabalhe a noite e nunca esteja comigo, nem corro o risco de misturar as coisas.

Sobre fofocas, eu realmente não ligo para o que falam. Se você for fazer alguma coisa, ou se não for fazer alguma coisa, vão falar do mesmo jeito, então, foda-se, vai lá e faz.

Sobre críticas, existe uma máxima que é “se você não quer ouvir uma crítica, pelo amor de deus, não me invente de fazer algo diferente”.

Mas o maior problema problema problema que tenho é que se um cara cantar na rua, eu mandar ele tomar no cu e atirar uma garrafa nele, ele pode me espancar. E a ~culpa~ ainda vai ser minha. Sem contar que homem sai de casa com medo de ser assaltado, mulher sai de casa com medo de ser estuprada.

NADA POP – E os vídeos? Acabaram? 

DEBBIE HELL – NÃOOOOOOO JAMAIS!!!!!

Como disse, veio um tsunami de merda aqui pra resolver e eu não tive a menor condição de parar, olhar pra uma câmera, falar e editar. Está nos planos de botar a ordem na casa 🙂

NADA POP – Neste ano tivemos perdas na música que nos obrigam a pensar que nada é para sempre, mas a obra do artista ficará eternamente. Quais bandas atualmente você acredita que caminham para essa mesma “eternidade”, no sentido de estarem realizando álbuns memoráveis?

DEBBIE HELL – Sei que pode não ser muito a cara do Nada Pop, mas é inegável o impacto e revolução que a Karol Conká está fazendo. Ela seria uma perda inestimável. Chet Baker apesar de ser meio babaca lançou um disco incrível e Yeah Yeah Yeahs seria muito doloroso também 🙁

NADA POP – Agradeço o papo Debbie e nos vemos nesta quinta-feira, 1º de dezembro. Suas considerações finais e deixe seu recado. Valeu!

DEBBIE HELL – Eu que agradeço, desculpe falar que só o caralho, eu não queria ser assim. Leitores, relevem meu jeitinho, confirmem a presença no evento e ajudem a fazer história

Festa Gimme Danger no dia 1º de dezembro: http://migre.me/vBap2

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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