quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Crônica ~ Como não entrar numa banda – Ouça e leia #2

Houve uma época que ele procurou por uma banda. Havia chegado há pouco na cidade e mal conhecia as ruas.

Não… …vou escrever na primeira pessoa mesmo!

Como não conhecia muitas pessoas na cidade de São Paulo, então fui buscar uma banda na internet. O site era algo como “tô sem banda”, e geralmente encontrava-se bandas de hardcore lá do ABC ou uma galera afins de tocar Guns (gãns). Nenhum dos dois me apetecia. Mas não desisti do site antes de marcar dois testes. O primeiro com uma jovem moça que iria se lançar na carreira musical sob a supervisão financeira do pai. Mandaram um CD com as faixas para conhecer as músicas. Ela era uma Pitty loira, mais magra e com uma voz que eu não vou comentar, porque não lembro. Ela pagava o ensaio, quer dizer, o pai pagava para os músicos ensaiarem. Marquei, mas quando chegou o dia do ensaio o Conrado, amigo de longa data, me chamou para tomar cerveja e estava um puta calor… …não fui ensaiar e enfiei o pé na jaca com as beers! Sobre o ensaio acho que não perdi grandiscoisa!

A segunda experiência foi com uma banda que eu chamo de Habib’s. O nome é outro, e eles estão na ativa, mas o ocorrido foi que eu ensaiei umas cinco vezes com eles. Até que era legalzinho, que é um jeito estranho de dizer desinteressante. Era composta por um baixista que bebia um monte durante o ensaio e se achava o Lou Reed. O guitarrista era de boa e às vezes dava um pitaco ou outro, mas o baixista bebum sempre cortava a fala dele. Eles gravam o ensaio e lançam como se fosse um “disco”, então no site tem mais de 20 “discos”. Com capas esteticamente frágeis, posso afirmar que artes plásticas ou composição de espectros ilustrativos, compondo a relação música/imagem, não é o forte da rapaziada.

Depois do ensaio eles me chamavam para sentar num Habib’s que tinha na esquina do estúdio pra falar “do som”. Minha memória afetivo/gastronômica com a banda não é a de um paladar muito refinado. Certa feita marcaram ensaio no dia do meu aniversário e eu disse que não ia, porque tinha que tomar cerveja com o meu amigo Conrado, que é brother firmeza de longa data. No ensaio seguinte eles marcaram de conversar antes no Habib’s e entre esfihas de algum sabor desconhecido disseram em tom profético:

– Você não pode fazer parte da banda, porque não está compromissado!

Respondi:

– Meu aniversário é mais importante que o ensaio e a banda nem é tão legal assim!

Vazei ou fui vazado do grupo musical. Ficou tudo certo.

Maizomeno, mas tá valendo!

Eis que dias atrás estou na rede mundial de computadores (World Wide Web) e me deparo com qual banda?

Qual?

Vou perguntar mais uma vez:

QUAL?

A banda Habib’s, MÁ OEEE… …Fui lá com minha curiosidade mórbida ver o site dos caras. E não é que uma das fotos que ilustram a banda é dentro do Habib’s. A fotografia é composta pelo baixista-bebum rindo diante de um prato com uma esfiha de carne comida pela metade. Achei sensacional. O som deles tem a mesma qualidade das esfihas… …tem quem goste e é barato!

A garota-loira-Pitty-paitrocinada nunca mais vi… …vou procurar na internet. Vou não! Nem lembro o nome, faz miliano!

Hoje me sinto bem por ter deixado de lado essas duas baitas oportunidades imperdíveis, extremamente sensacionais, simplesmente o ápice de qualquer aspirante a rock star… …o velho, repetitivo e cansado sonho de viver de música. Deixei de lado dois artistas únicos, dois Cartolas, duas Elis Regina, dois Itamar Assumpção de criatividade pulsante diante da esfiha habibiana. Minha amizade com Conrado se mantém, mesmo ele estando lá longe em um país que fala estranho.

Depois disso tudo montei e entrei noutras bandas, toquei até com uma dupla de Glam rock que foi uma das maiores vergonhas da minha vida… …essa eu não conto não!

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Rafael Moralez

Rafael Moralez é músico, ilustrador e autor da série Peixe Peludo. Conheça seu blog de ilustrações