quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Blear: histórias de amizade, cachaça, torresmo e beijo grego

Essa não foi muito bem uma entrevista, foi um bate papo puro e simples com a banda Blear dentro do estúdio Subway, que fica próximo do metrô Clínicas aqui em São Paulo.

O Subway, para quem não conhece, possui uma sala para ensaios e gravações. É um estúdio pequeno, mas é um daqueles lugares que você se sente em casa, não só pelo ambiente em si, mas também pela camaradagem que existe no estúdio. No “quintal” do Subway conversei com o Erick Alves (guitarra e vocal), Anderson Lima (contrabaixo) e Rodrigo Lima (guitarra) que juntos formam a Blear. A conversa ainda contou com o Rafael Garga, baterista do Desgraciado, que tinha um ensaio marcado no Subway, com outra banda, e que antes do ensaio acabou prestigiando o bate papo e contribuindo bastante quando começamos a falar da cena independente de São Paulo.

A Blear existe desde 2012 e lançou em outubro do ano passado o seu primeiro EP intitulado “Melting Sun”. São duas músicas, a primeira que dá nome ao EP e a segunda chamada “Tell The Truth Nancy”. Com riffs de guitarra sujos e vocais se revezando entre calmaria e o gritado, o som da banda é capaz de lembrar o grunge e se aproxima bastante ao shoegaze. Entre as bandas que influenciaram o som da Blear estão o Sonic Youth, Nirvana e Dinosaur Jr., entre diversas outras bandas e estilos, do mais MPB possível até o som mais pesado.

Para ouvir o EP basta CLICAR AQUI. Recomendamos ouvir o EP durante a leitura do texto.

Ilustração da Blear por Erick Alves. Da esquerda para a direita Anderson Lima, Rodrigo Lima e Erick Alves

Quem vai tocar bateria?

“O primeiro ensaio da banda foi com o Anderson na bateria… Ele não aguentou, ficou sem fôlego (risos)”, diz o Erick sobre o início da banda. Entre risadas e tirações de sarro conversamos durante quase uma hora e meia com a Blear. “Aí não rolou do Anderson tocar bateria e ele falou que iria tocar baixo, beleza, mas a gente ainda estava no dilema do baterista. Quem que vai tocar batera?”, pergunta Erick. O próprio Anderson tentou solucionar essa questão trazendo o nome do Sandro Dias para a banda, mas o batera ainda demorou a entrar no grupo. “Acho que ele ficou meio cabreiro porque ele não conhecia o nosso som”, diz Anderson. “Nisso a gente começou a montar o estúdio aqui [Subway] e por isso a gente começou a dormir aqui todo dia e fazendo música nós três”, completa.

“Fizemos um caralhada de música, de experimentar afinação e ver o que rolava legal e o que não rolava legal… A gente primou pelo lance de todo mundo fazer o que gosta mesmo, fazer uma parada que a gente esteja satisfeito de verdade, de não ter nenhum apego a agradar ninguém. Realmente de fazer o que a geste estava gostando”, afirma Erick. “A gente ficou muito tempo fritando, fritando e fazendo som. Daí a gente fez um apanhando disso e corremos atrás de baterista, aí surgiu o Sandrão”. O Sandrão que o Erick diz é o Sandro Dias, amigo da banda e que integra o Seek Terror [banda do Nenê Altro e Marcelo Verardi, Dance of Days, e do baixista Anselmo Carlucci, Inocentes].

Erick Alves – Foto por Rita Aprile

Mas antes da entrada do Sandro os caras tocaram com outro baterista, o Azedo, que toca no Comodoro e é do Anderson. “Foi um cara que chegou fácil por causa da amizade que existia, aí a gente no caso começou a ensaiar com o Azedo que rolou super fácil as músicas. Após o terceiro ensaio a gente gravou no estúdio Sonido para deixar registrado a batera de cada música”, conta Erick.

O Azedo já tinha avisado os caras sobre uma viagem que iria realizar e que já estava programada para o exterior ainda em 2012, ou seja, o problema do batera não estava resolvido. Por mais que tenha gostado do som da banda existia um prazo de validade da presença dele no grupo. “A gente conseguiu dar uma cara para as músicas, mas não conseguimos terminá-las a ponto de ser uma gravação legal. A gente até teria lançado [EP] nessa época”, resume Rodrigo.

Em seguida e com a saída do Azedo que já estava providenciando sua ida para o exterior, entra o Sandro Dias, que ficou na Blear durante o processo de gravação até o lançamento do EP “Melting Sun”. Logo depois ele também saiu por causa de outros projetos pessoais. A Blear desde então vem tocando com o Vitor Kajiro [o Kaje], baterista da banda Hollowood, de forma temporária. Ele vem contribuindo para a banda na realização de ensaios e alguns shows.

Amizade, cachaça e torresmo

Rodrigo e o Erick se conhecem e são amigos há quase 10 anos, a amizade com o Anderson é mais recente. Foi em um festival no bar Manifesto, localizado na zona oeste de São Paulo, no ano de 2010 que se conheceram e trocaram ideia. Segundo o Anderson o bate papo começou ali mesmo na porta do Manifesto, onde iria tocar com outra banda na época e também no mesmo dia que a banda do Rodrigo [The Cleaners]. Foram até um boteco beber e depois, já no festival, conheceu também o Erick. “Eu sei que o Rodrigo falou que trampava aqui na Teodoro [Rua Teodoro Sampaio – em Pinheiros/ SP] e eu vinha procurar casa aqui para montar o estúdio e aí todo dia eu passava lá para a gente tomar uma cachaça e comer um torresmo. Todo dia a gente comia um torresminho com cachaça”, conta o Anderson entre os risos de todos.

Sobre o estilo e influências da banda, apesar de já ter citado acima, o grupo reitera que todos curtem um pouco de tudo. Como citou o Rodrigo, a banda tinha uma cara mais shoegaze no início, mas com a realização das músicas foi aparecendo um som mais barulhento, parecido até com Sonic Youth, mas acontecendo de forma natural para a banda.

Anderson Lima – Foto por Rita Aprile

O som da Blear é muito caracterizado por afinações diferentes, algo que o próprio Erick diz ser uma piração de sua parte, algo que sempre curtiu muito. “Desde moleque eu sempre pirei nesse lance de afinação, inclusive tem algumas músicas do Silverchair que foi de onde eu comecei a mexer e depois com o Sonic [Sonic Youth] comecei tipo a prestar atenção nesse lance de afinações. Então, eu já curtia muito usar algumas coisas diferentes, mas sempre em outras bandas não conseguia usar porque a galera meio que não curtia. E aí, tocando com o Anderson, que começou a rolar legal e aí comecei a investir mais nesse lance que eu tinha largado mão, mas foi tudo naturalmente assim das músicas saírem”, completa.

Carocinho de Uva, Uva Passa e Beijo Grego

Em relação ao nome da banda os caras também avisam: “achamos sem querer”. Antes a banda passou por nomes provisórios como My Imaginary Friend e outros mais toscos [segundo eles mesmos] como Carocinho de Uva, Uva Passa e até Beijo Grego [risos]. O nome Blear foi encontrado no dicionário e a própria banda acredita [nós também] que combina com o som do grupo. Blear, em inglês, em uma tradução simples, tem o significado de nublado e até confuso.

Quando perguntado sobre os objetivos da banda todos responderam em uníssono que querem apenas tocar. “A gente quer tocar, em qualquer lugar que queiram a gente, que gostem do nosso som, porque é verdadeiro, não é feito com demagogia. É simplesmente feito pelo carinho que a gente tem mesmo pela música, pelo que a gente gosta. A gente leva esse lance bem a sério”, conta o Erick que ainda faz uma metáfora interessante sendo a Blear como um barco numa correnteza e que apenas buscam seguir um fluxo natural como banda.

Rodrigo Lima – Foto por Rita Aprile

Sobre compor e cantar em inglês eles também acreditam que para o som da banda soa melhor, mas é uma questão ligada principalmente pelas influências que são em grande parte de bandas americanas e inglesas. A banda também diz que não se prende sobre temas específicos em suas composições e acredita na importância de ser livre para falar sobre qualquer assunto que a banda tenha vontade.

Questionados sobre o lançamento de novos sons a banda informa que possuí interesse em lançar um vinil em 2014 com quatro músicas e que antes de gravar qualquer coisa pretendem ensaiar bastante até o momento da gravação.

E a cena independente, como está?

Em seguida o bate papo toma um rumo diferente até então, começamos a conversar sobre as ferramentas digitais que contribuem para as bandas se lançarem sozinhas, divulgarem seu trabalho e conquistarem novos públicos. Além disso, pedimos a opinião do grupo sobre a cena independente, nesse momento a conversa também contou com o Rafael Garga, baterista da banda Desgraciado. “Cara, a real é que existem focos de bandas boas, que fazem o som, porque ninguém se junta. O foco A não se junta com o foco B. E às vezes é por falta de prestar um pouco mais de atenção”, logo de início diz Erick.

Um problema apontado pelo Garga em festivais é que, independente do estilo, se a banda é a segunda a se apresentar dificilmente ela vai ficar para assistir a sexta banda tocar. Muitas bandas acabam pegando suas coisas após o show e indo embora. “Mano, isso é um absurdo. O cara chega no rolê na hora de tocar, não consome uma breja no estabelecimento do cara, não fica para ver as outras bandas e chega no Facebook e fica falando que a cena underground é uma bosta. Fora quando o cara ainda picha o banheiro do bar e entope a privada com papel higiênico. O que mais vejo é isso”, afirma o Garga que ainda diz que isso desestimula a própria cena, pois se nem a galera que está aqui tocando fica para assistir as outras bandas fica difícil conseguir público.

Blear toca no Espaço Cultural Walden – Foto por Maurício Martins

O Anderson ainda complementa com uma opinião a respeito bastante pertinente. “Eu acho que as bandas não se ajudam, isso em primeiro lugar, você lançou um bagulho hoje e até seus brothers ignoram, não querem saber. A galera não tem interesse nenhum por esse tipo de música, música mais underground assim passa batido. A galera vai ver até um show de banda maior e nem sabe o que está fazendo lá, vai por ver. E tem uma par de banda que tá chato pra caralho também. Falar a real, tem umas bandas que não dão vontade de ir e juntando tudo isso dá a cena underground de São Paulo”, conclui.

Um ponto de vista importante citado pelo Erick é a falta de espaços para bandas independentes tocarem. No entanto, a grande dúvida que ele também levanta é se essa é uma culpa dos lugares ou das bandas que não chegam com uma postura coerente, tanto em som como atitude mesmo.

Outro ponto que vale a pena citar é em relação as bandas preferirem ficar em suas zonas de conforto, não colocando a cara pra bater muitas vezes em lugares que nunca estiveram antes, seja tocando ou apenas a passeio, por assim dizer. É o que diz o Anderson já perto do final da conversa. “Tem um lado também que se você pegar e sair desse circuito que tá todo mundo acostumado daqui de São Paulo, tem umas coisas bem legais acontecendo. Uma banda que se chama Vapor chamou a gente pra tocar e os caras estão sempre fazendo coisas e sempre vai uma galerinha. Eles agitam os shows em lugares que ninguém espera, que não é na Augusta, não é na Vila Madalena, não é nada disso. É totalmente fora. Juntam mais três e quatro bandas e tocam e vai um pessoal ver”, finaliza.

Blear no Espaço Cultural Walden – Foto por Maurício Martins

Não é o fim!

A conversa ainda rolou por mais um tempo, entramos em histórias de roubadas que a banda já passou, sobre o melhor período do rock no Brasil, lugares bacanas para tocar, enfim. Agradecemos a banda Blear pelo bate papo e desejamos muitos anos de música ao grupo.

Os shows da Blear estão acontecendo de forma natural e por meio de convites de bandas amigas. Para saber quando a banda irá tocar, entrar em contato com os caras, convidar para shows e, principalmente, ouvi-los basta acessar a página deles no Facebook ou entrar no site do Bandcamp. Todos os links estão disponíveis também abaixo. Acima colocamos um vídeo de uma apresentação da Blear no finado Espaço Cultural Walden, vale a pena conferir e sentir um pouco como é a banda no palco.

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BLEAR | LINKS

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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