quarta-feira, 18 de julho de 2018
Nada Pop

Conheça o “Caos” de Samara Noronha

Nossa, que título clichê esse, não? Mas não consegui pensar em outra coisa melhor, reconheço. Certas coisas são assim, acho! Outra coisa, gosto de gente que dá a cara pra bater, que se joga e acredita no que faz, independente se você, eu ou qualquer um goste ou não. Claro, se gostar será melhor, né?

Assim é o perfil da Samara Noronha, garota de 26 anos e que demonstra um talento nato para a música. E não sou eu quem diz, é o próprio Vinny. Lembra daquela música “Heloísa, Mexe a Cadeira”? É, eu sei, eu também não curtia esse som. Mas até que os últimos álbuns do Vinny demonstram um vibe mais roqueira, mas o cara é reconhecidamente gente boa e ajudou a Samara na produção do single “Caos”, lançado no final de 2014. Confira o que ele diz sobre essa música:

“Tentei ajudar em algumas questões relacionadas com o direcionamento do trabalho musical dela, apontando os caminhos que eu considero mais pertinentes nos dias de hoje. E a partir daí, tive contato com a musicalidade instigante dessa guria (…) Em ‘Caos’ eu tentei representar a acidez cáustica que vejo no som da Samara. Ela me mandou uma demo (que bem poderia ser a versão definitiva, de tão boa que estava) e eu rearranjei de um jeito menos eletrônico. Na verdade o trabalho já era muito bom, mesmo sem meus pitacos!”.

Bom, depois dessa enchida de bola que o cara deu no trabalho da Samara, só nos resta bater um papo com a própria e sacar algumas coisas por parte dela. Confira o papo logo abaixo e ouça a música “Caos”.

Entrevista Samara Noronha

samara_noronhaNADA POP – Samara, antes de tudo obrigado por participar desse papo. Me diz uma coisa, a música “Caos” surgiu quando e como?

SAMARA – Opa! O prazer é todo meu em falar a vocês!!! Bom, “Caos” é uma música que surgiu no início de 2014, tendo como inspiração, além do recorrente tema do estilo de vida frenético na metrópole, um grande ídolo meu que é o Morrissey.

Eu estava vendo no Youtube uma performance ao vivo mais recente de “How Soon Is Now” e aquilo me tocou profundamente. A expressão do Morrissey parecia pesada, era como se algo tivesse se apagado dentro dele. Pouco tempo depois eu li em uma entrevista ele dizer “Se eu morrer, eu morri. Se não morrer, então não morri. (…) Muitos compositores de música clássica morreram aos 34 anos e eu ainda estou aqui, e ninguém sabe o que fazer comigo”. O refrão da música, na verdade, é uma referência ao artista.

NADA POP – A produção dessa música (Caos) foi feita pelo Vinny e sabemos que outras faixas também irão receber a mesma participação dele. Assim, o quanto a participação do Vinny influenciou na sua música e o que você vem guardando de aprendizado trabalhando com ele?

SAMARA – Exatamente! “Caos” só tomou forma mesmo depois que o Vinny a arranjou e produziu no final de 2014. Ele é um cara muito generoso e tem me ensinado muito não só musicalmente, mas como pessoa também; puxa a minha orelha um bocado, por exemplo, se eu der qualquer mínimo sinal de tirar meus pezinhos do chão! (risos)

Nesse single de lançamento ele foi responsável por muitas descobertas da minha própria identidade artística, porque ele enxerga coisas sobre mim que eu mesma, muitas vezes, não consigo ver. É difícil a gente conseguir se observar de fora, imparcialmente. Antes dele eu me direcionava muito mais pra algo melancólico, introspectivo; e eu sou uma espécie de ser paradoxal, com um lado expansivo muito presente também, é apenas uma questão de perspectiva. Acho que o Vinny veio pra somar, de fato. Ele trouxe muita força, brilho e personalidade para as composições.

NADA POP – Você tem uma história bem interessante, você nasceu e morou boa parte da sua vida em Rondônia, depois veio para São Paulo e chegou a morar num albergue. O que rolou na sua cabeça para vir pra São Paulo e arriscar a sorte? Como você conseguiu superar as dificuldades dessa selva de pedra?

SAMARA – Rapaz, desde que me conheço por gente eu tenho essa alma artística que a gente sabe que é um problema danado pra uma vida pacata regada a bons costumes, não é mesmo? (risos)

Na minha adolescência, quando descobri minha veia roqueira, a coisa ficou ainda mais insustentável na cidadezinha onde eu morava. É muito complicado pra pessoas nessa condição de isolamento entenderem a diversidade, o diferente. Eu era vista como uma espécie de aberração pelo meu jeito de vestir, de falar, de me portar. Sempre fui contestadora. Eu também entendi muito cedo que em Pimenta Bueno – cidade onde nasci e vivi até os 20 anos de idade – eu não teria oportunidade alguma na música, e eu não queria fazer outra coisa da vida.

Por isso precisei tomar coragem pra colocar uma mochila nas costas e rumar pra cá com a cara e a coragem, porque eu entendia que se em São Paulo eu não conseguisse nada, é porque não tinha que ser em lugar nenhum. Praticamente sem dinheiro, acabei descobrindo que existia um tal negócio chamado albergue onde eu poderia ficar em troca de lavar uns banheiros, ajudar nos serviços domésticos do lugar.

Topei na hora, claro! Ali passei por situações que não desejo pro meu pior inimigo. É como ser um presidiário, só que você pode sair de vez em quando. Porém, foi isso que me deu tempo e condições de me manter na cidade. Um tempo depois minha mãe e mina irmã vieram e hoje moramos as três aqui. Aos pouquinhos, tudo acabou se arranjando!

sonic_youth

Além de compor e cantar, Samara Noronha também desenha. O Sonic Youth até compartilhou essa arte da Samara na página oficial da banda. Veja AQUI também.

NADA POP – No clipe da música “Caos” é possível reparar que existe uma manifestação passando por trás de você. Quando o vídeo foi gravado e qual manifestação era? Era esse mesmo o objetivo do vídeo ou vocês simplesmente foi uma coincidência?

SAMARA – Pois é! Cheguei na Paulista no dia 29 de novembro e fui surpreendida por uma manifestação contra a presidente Dilma. Eu não esperava, não tinha nada a ver com aquilo, mas acabei usando a movimentação toda pra dar emoção ao videoclipe! hahaha

Lobão tava lá em cima dum carro de som aos berros dum lado e eu do outro, com guitarra e uma flor vermelha em punho e um lenço no rosto gritando loucamente “cada um luta com as armas que tem!”. Foi lindo de se ver! hahaha

NADA POP – Na música “Caos” existe uma frase assim: “vida é o que se passa enquanto você está no celular”. Para você, a tecnologia veio mesmo para nos distanciar um dos outros?

SAMARA – Essa é uma frase que eu vi, ironicamente, em uma rede social! Eu sou uma pessoa que dependo muito dos serviços virtuais, não vejo esse advento como algo negativo. Mas devo confessar que me incomoda um bocado o exagero das pessoas que, muitas vezes ao invés de prestarem atenção numa conversa real ficam grudadas no celular. Mas aí a culpa não é da tecnologia, mas sim do mau uso feito dela, né? As coisas mudam, as tecnologias mudam, o modo de vida muda, a interação. A gente é de uma espécie de geração de transição, então dói um pouquinho, mas logo a gente se acostuma!

NADA POP – O notebook que você usou para editar o clipe, segundo você chegou a contar, já foi até enterrado. Como assim? Me explica isso direito.

SAMARA – Nossa, quer mesmo que eu conte a história toda?? hahaha
Cara, lá em Pimenta Bueno minha mãe teve uma cafeteria onde eu também trabalhava. Um senhor se fingiu de cliente e acabou se aproveitando de um descuido nosso pra tirar uma cópia da chave do estabelecimento e entrou à noite pra roubar. Eu estava dormindo no local pra cuidar porque, anteriormente, quando tínhamos uma banca de revistas, um dos motivos de termos desistido do negócio foi por causa de inúmeros furtos, e não queríamos passar pela mesma novamente.

O cara percebeu que tinha alguém dormindo lá e, sem fazer barulho, pegou apenas o notebook e caiu fora. No dia seguinte percebi o que tinha ocorrido e, não me pergunte como, minha mãe desconfiou de que aquele era o cara que poderia ter feito isso! Então fiz um retrato falado e fomos à caça do sujeito! Um certo dia, por acaso, o vi passando em frente ao café, de bicicleta. Saí louca atrás do sujeito e, não conseguindo alcançá-lo, parei um carro qualquer na rua no melhor estilo filme de ação e ordenei: “siga aquela bicicleta!” hahahaha

Não sabendo muito o que fazer quando alcancei o cara (que ficou puto dizendo que eu era louca), observei que ele tinha um monte de jornais em mãos, ou seja, só podia ser entregador! Falei com a polícia (fiz o trabalho sujo todinho, convenhamos! rs) e eles encontraram esse cara que tinha enterrado meu notebook tentando escondê-lo. É, aliás, o mesmo aparelho do qual vos falo nesse momento!

samara_noronha_rock

NADA POP – Sobre os novos sons, tem previsão de lançamento? Você divulgará pela internet mesmo, haverá um álbum físico. Afinal, o que podemos esperar de Samara Noronha?

SAMARA – Atualmente estou em uma fase de lapidação de repertório. Eu tomei essa decisão de desenvolver todo o meu material junto com o Vinny pra, então, dar o próximo passo de reunir os músicos e marcar apresentações. O Vinny é um cara bastante atarefado, tem família, carreira, mestrado, um monte de coisa pra administrar, mas tem feito o máximo pra que as coisas aconteçam da melhor maneira possível!

Tenho fé que em breve teremos novidades pra mostrar, inicialmente pensando em um lançamento virtual. Quanto mais repercussão e incentivo como esse do Nada Pop, mais apoiadores certamente aparecerão para tornarem as expectativas e realizações ainda maiores! Creio que 2015 é o nosso ano!

NADA POP – Uma outra coisa, ao ouvir você pela primeira vez, me lembrei um pouco de PJ Harvey. Ela é uma influência pra você, que sons fazem pirar sua cabeça?

SAMARA – Admiro muito o trabalho desta grande artista, bem como bandas como R.E.M., Sonic Youth, Dinosaur Jr., Radiohead, Neutral Milk Hotel, Patti Smith, Joy Division e sei que vai soar clichê, mas a banda que definitivamente mudou minha vida foi o Nirvana! Depois que ouvi os berros e a delicadeza de Kurt Cobain emoldurados naquele som visceral e profundo, implorei por uma guitarra porque queria fazer exatamente aquilo! Essa banda praticamente moldou o que sou hoje!

NADA POP – Samara, se uma gravadora bacana chegasse hoje pra você e falasse: “queremos lançar um álbum seu, fazer um tour e até aparições na TV, mas gostaríamos de mexer um pouco no seu estilo”. Você toparia?

SAMARA – Complicado, hein! Eu já fui muito mais radical nesse aspecto, de inclusive ter recusado ofertas boas por não aceitar um milímetro sequer de mudança no que eu queria artisticamente. Sou uma pessoa muito transparente, até demais, e odeio hipocrisia; por isso, acho que se eu dissesse que, hoje, não faria algumas concessões, eu estaria mentindo. O negócio é estabelecer o limite dessas concessões.

É muito complexo, porque minhas músicas são como filhos pra mim, e eu não conseguiria ser uma mentira, por mais que eu tentasse. Então acho que a chave da questão seria esse limite que não ferisse a minha verdade, que é o mais importante.

vida_celular

NADA POP – Para encerrar, se você pudesse escolher APENAS um momento ideal para as pessoas ouvirem seu som, qual desses momentos seria e por qual motivo? É só uma brincadeira, certo? Escolha:

( ) Durante uma transa;
( ) Num momento de lazer com a família;
( ) Numa fila qualquer esperando ser atendido;
( ) Em momentos de raiva;
( ) Andando na rua, apenas caminhando mesmo;
(x) Em uma festa com muito álcool;
( ) Na praia.

SAMARA – Rapaz, fiquei na dúvida entre o caminhando e a festa porra louca, mas como o local da caminhada não foi muito explicitado, fiquei com a festa! Certeza que combina! Hahaha

Veja bem, se a pessoa tiver puta numa fila ou com raiva por qualquer outro motivo, acho que ouvir minha música vai acabar deixando ela mais agitada, então não é boa ideia! (risos).

Acho que também não faço um som pra momentos de lazer ou de contemplação, sou mais de cutucar, de chamar pra discussão. Mesmo quando falo de amor há uma certa densidade, uma certa melancolia que pra uma parte das pessoas gera um certo desconforto. Mas juro que já me falaram que ouviriam minhas músicas na hora H! Tem quem ache sexy! rs

Pra mim, o ambiente mais propício pra música e pra artista é essa festa regada a álcool mesmo! E aí, quem me convida?? Hehehe

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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