sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Nada Pop

Com dois anos de vida Raro Zine apresenta o cenário musical independente

Não, isso aqui não é uma entrevista. É uma conversa, franca e direta com um dos sites mais bacanudos da intenê tupiniquim sobre música independente. O Raro Zine (webzine, site, agitador cultural e a porra toda!) idealizado por German Martinez, um uruguaio de 32 anos e morador na cidade de Atibaia, interior de São Paulo.

Há cerca de dois anos vem realizando entrevistas, resenhas, produzindo eventos e realizando matérias sobre o cenário independente. É possível encontrar muita coisa boa no Raro Zine e que com certeza irá valer cada minuto utilizado para obter informações de bandas desse nosso brasilzão varonil cheio de artistas que utilizam guitarras, baixos e baterias para expressar sentimentos, ideias, opiniões ou apenas diversão. Terra do samba é o caralho! Confira o papo abaixo.

NADA POP – Que raio de ideia foi essa de criar um espaço virtual para falar de bandas alternativas e sobre o cenário independente? Você tem banda e essa foi uma das razões ou foi mais por ser um admirador mesmo dessa bagaça chamada underground?

GERMAN MARTINEZ – Infelizmente não tenho banda, nem nunca tive.. rsrsrsrs. Dizem que fazer algo ligado ao jornalismo musical, você é um músico fracassado, sim faz sentido, rsrsrs… A ideia partiu de uma necessidade pessoal de anos, desde moleque me interessei por algo que não era somente o palco, e sim o que havia fora dele, entrevistas, resenhas. O fato era que na época talvez não tivesse adquirido tanta experiência de vida, como agora após os 30; meu intuito era fazer uma revista de porte pequeno nos moldes da Rock Press (talvez a minha preferida) revista musical, o tempo passou e resolvi fazer um fanzine, mas a questão de depender de muita coisa como arte, diagramação e não manjar nada destes quesitos; botei o pé no freio e decidi fazer algo que articulasse sozinho, sem amarras. Como admirador de fanzines, quis dar uma cara parecida, mas fornecendo alguma informações apenas por uma página (que é a própria utilizada hoje em dia).

NADA POP – Raro Zine é um belo nome, surgiu de uma banda uruguaia. Isso? Conte um pouco mais sobre essa origem do nome e, por favor, fale o que ele significa pra você?

GERMAN MARTINEZ – Correto, surgiu de um álbum de uma das bandas que mais gosto do meu país que é El Cuarteto de Nos, eles lançaram um álbum em 2006 intitulado de “Raro”, que seria uma tradução de estranho, diferente. Eles criaram o conceito que a capa do disco era uma parte da face de cada um dos integrantes e isso me achou a atenção. Na mesma ocasião fiz uma viagem pra lá (Uruguai) e este álbum não saiu do MP3 player durante muito tempo, e aquele nome me soava que num futuro poderia usá-lo para algo. Hoje ele significa uma identidade musical, eu queria criar uma espécie de marca, então ficou como Raro Zine, aliado a abreviação de fanzine.

NADA POP – Ganhar dinheiro por meio do site é uma realidade hoje pra você? Existe esse objetivo? Ou a diversão por si só talvez seja uma bela recompensa pelo trabalho que você exerce?

GERMAN MARTINEZ – Acredito que é muito difícil ganhar dinheiro num circuito cheio de limitações. E desde então achei que se houvesse grana no meio, realmente não haveria mais tesão pra seguir em frente. Pra mim, o mais gratificante é o reconhecimento, ser citado como uma mídia relevante e que as pessoas se interessem, isto não há R$ que pague. Se um dia houver um apoio para eventos ou prensagem de discos, de acordo com a proposta pode ser que seja interessante para o Raro Zine.

NADA POP – Mas cobrar de bandas para aparecer no site jamais, certo? Qual o seu pensamento sobre as bandas que usam desse tipo de artifício, como pagar para aparecer por aí (seja abrindo shows de bandas grandes, venda de ingressos para produtores picaretas ou até mesmo pesquisando se determinado site aceitaria um “regalo” para dar aquela notinha positiva da banda no site – sim, existe isso!)?

GERMAN MARTINEZ – Esta é uma bela questão, sim existe e como… Jamais cobraria por quaisquer tipo de divulgação, recebo muito material, muitos artistas pedem uma ajuda na divulgação, na grande maioria dos casos são ótimas bandas e realmente me interesso em postar, entrevistar ou resenhar sobre elas. No quesito de shows é engraçado por que em algumas ocasiões de qual soube, que a banda cobrava num evento independente, mas para um evento ligado ao governo ou prefeitura, não cobrava cachês para o simples prazer de tocar… heheheeh – são coisas realmente loucas que acontecem.

NADA POP – Já teve banda perguntando quanto custa para aparecer no site? Tivemos uma banda que perguntou isso pra nós – foi estranho e triste ter que explicar que não fazemos isso por aqui.

GERMAN MARTINEZ – Nunca, ainda bem!

NADA POP – Mesmo com super sites por aí, com plataformas e mais plataformas que acabam deixando o site lindo visualmente, nada se compara ao conteúdo, não é mesmo? O melhor exemplo disso talvez seja o Maximum Rock n Roll (http://maximumrocknroll.com/). Simples e direto, sem firulas e com cara de blog. Assim, como você realiza o trabalho de escolha das pautas, realização de textos e até na organização de eventos? Tudo é você sozinho que faz?

GERMAN MARTINEZ – A base de conteúdo eu fiz por experiência própria, por acessos que eu mesmo efetuo, se vejo sites ou blogs que me interessam vou atrás; mas se é difícil navegação, com muita poluição visual desisto. Então esta foi a identidade que busquei pro Raro Zine. O caso da Maximum Rock n Roll é pura realidade, matérias e entrevistas em um consenso bem interessante.

Sim, faço tudo sozinho. A realização do website foi realizado por meu grande amigo Diego Fernandes de Oliveira, que também escreve e possui um site sobre arte, literatura e música bem interessante (clique AQUI para ver).

A concretização do site foi uma espécie migração da página do Facebook, com o conteúdo das entrevistas, resenhas etc. para o webiste. Desta maneira ficou mais apresentável ao público em geral, mais profissional diria.

As pautas tento organizar algo semanal, entrevistas diárias na medida do possível. Isto foi uma resposta do próprio público, senti que as pessoas queriam ver entrevistas de bandas que admiravam e saber se havia algo novo ou simplesmente conhecer uma banda nova através de uma entrevista.

Na organização de eventos eu sentia uma necessidade de ter uma cara mais real, não somente virtual e sim mostrar que existe alguém por trás do Raro Zine. E de preferência ter bandas que já tenham algum tipo de ligação com o zine. Sempre conto com pessoas muito bacanas que cedem seus espaços ou um acordo para fazer o eventos em seus locais. Na questão gráfica dos eventos chamo amigos como Matias Picón (Facka) e Daniel Lima (Bacantes) que tem um talento esplêndido para este tipo de arte ou integrantes de bandas que vão tocar no evento pra mostrar o lado artístico deles também e criamos uma linha bem bacana.

NADA POP – Uma pergunta para complementar a resposta anterior, como manter um site relevante e com assuntos interessantes diante de um público cada vez mais disperso? Existe algum “modos operandi” criado por você em relação ao Raro Zine? Qual o horário do dia que você costuma atualizar o site? É quando dá ou mantém um dia ou horário específico?

GERMAN MARTINEZ – O principal fator do Raro Zine, e obrigar as pessoas terem o hábito da leitura que está cada vez mais escasso, mas por outro lado vejo pessoas que realmente estão antenadas sedentas de informação. Tento sempre variar as matérias e entrevistas, por isso este é um diferencial do site, sem nenhum tipo de vínculo com esse ou outro estilo. Do grindcore ao instrumental, do hardcore ao metal, do punk ao experimental.

Eu acho que isso ajuda pra que as pessoas interajam com o site, várias vertentes e no fim grande partes destas bandas estão ligadas sejam elas por amizade, mesmos selos, shows, etc.

Atualmente, não sigo nada estipulado, coloco quando tenho tempo livre. Mas tentando postar algo todo dia.

NADA POP – Você considera alguma parte desse trabalho mais chato? Seja na cobrança das bandas por publicação, falta de tempo, grana, etc?

GERMAN MARTINEZ – Não de forma alguma, faço com todo prazer!

Um tempo atrás uma ou outra banda me cobrava a veiculação das matérias, mas tudo tem seu cronograma, e elas tinham que esperar. Na página eram entrevistas sequenciais, então havia uma fila de espera na divulgação, mas agora tá tranquilo.

Parte ruim é mesmo a grana pra poder prensar as edições das coletâneas e fazer mais shows com mais frequência!

NADA POP – E na parte de organização de eventos, quais as situações mais bizarras que você presenciou e com certeza qual a mais gratificante?

GERMAN MARTINEZ – Sempre procurei chamar bandas que dividissem de um mesmo ideal. Por isso nunca fui surpreendido com algum fato desconcertante. Mas já convidei bandas locais que me diziam qual seria o cachê? simplesmente limei a banda e dentro de um evento que eu faça, não tocam mais!

A mais gratificante são as pessoas perguntando quando haverá o próximo, quais as bandas que virão e logicamente quando as bandas de outras regiões te procuram pra tocar, isto é um sinal de que estão se saindo bem os eventos.

NADA POP – Quem você gostaria de entrevistar e que ainda não conseguiu contato? De todos os papos que você já fez com bandas, quais foram as principais na sua opinião, seja pela dificuldade ou pelo seu próprio prazer em conversar com a banda?

GERMAN MARTINEZ – Vários, hahahahha… Gostaria muito de conversar com Ariel (Restos de nada), Val e Pierre (Cólera), Rakta, Armagedom, Social Chaos, Muzzarelas, Test e algumas gringas como Graveyard, Danko Jones, Imperial State Electric.

Putz, são como filhotes as entrevistas… hahhahaha – Mas citaria a entrevista com o Clemente, dos Inocentes, que foi bem massa, divertida e gratificante por ser um dos caras que mais influenciou com suas canções. Fabião, do Olho Seco, foi muito interessante falamos dos primórdios do Olho seco e Cólera, turnê européia etc.

Uma entrevista com o Pedro Carvalho do Futuro, foi excelente, falou de toda a trajetória da banda. Outra foi quando entrevistei meu camarada carioca Felipe Toscano (Abraxas) falando da sua produtora que é uma das mais ativas no cenário atual no Brasil. A entrevista com o Gangrena Gasosa foi sensacional, vários fatos engraçados e tenebrosos da banda… hahahaha

E também algumas das bandas do Uruguai, como Motosierra, Radical, Des Man Telers, Hablan por La Espalda, Santa Cruz , Revólver, Culpables foram bem bacanas por eu gostar muito do trabalho de todos eles.

NADA POP – Fanzines estão morrendo um pouco a cada dia e os blogs são responsáveis em muito por isso. Vale a pena fazer fanzine hoje? Enxerga alguma perspectiva desse tipo de publicação no futuro?

GERMAN MARTINEZ – Não,jamais! Mesmo com toda tecnologia, todos sentem a necessidade de ler, coisas que vão além de uma tela de computador. Os fanzines sempre estarão aí, se renovando, mas sempre ativos. O fanzine sempre vai ser um tipo de manifestação de contracultura e sempre vai ser parte da minha leitura. Eu vejo uma reformulação dos fanzines,mas com sua essência vindo à tona. A essência do Raro Zine sempre teve essa máxima de ser uma revista eletrônica musical ou mesmo um fanzine ao alcance de todos.

NADA POP – Há competição nesse meio “jornalístico” entre sites de informação sobre cultura independente? Quanto esse tipo de pensamento é nocivo em sua opinião? Quais são os sites que você considera relevante para divulgação da música independente e quando você começou, quais eram os sites ou outros exemplos que te inspirava?

GERMAN MARTINEZ – Que tenha chegado ao meu conhecimento não soube, que existe entre os já “grandes” é notável, aqui no interior de São Paulo, por exemplo, temos o grande “Canibal Vegetariano” da cidade de Itatiba, fanzine/blogspot existe há mais de 7 anos, o Ivan comandante desta nave, sempre me apoiou, me dando uma força absurda em lançamentos de coletânea, resenhas para jornais locais. Só diria que é cumplicidade de ambas as partes, o Canibal foi e é uma inspiração total no meu trabalho, e jamais travamos uma batalha por isso.

Acredito também que se eu não fizer o que gosto, com dedicação, respeito e principalmente amizade, se tornará difícil ter êxito. Gosto muito do Nada Pop (sim, não tem jabá por causa desta conversa), é uma das minhas principais referências.

Gosto muito do O Inimigo,é uma revista eletrônica lá de Natal-RN excelente, é um dos meus sites musicais preferidos, que possuem realmente um conteúdo relevante. Atualmente acho sensacional o trabalho da Noisey, tenho acompanhado o trabalho do Crush em Hi Fi, que é bem interessante.

Quando comecei o Raro Zine, eu queria que fosse algo diferente mesmo, não postar as mesmas coisas de inúmeros sites que haviam por aí, divulgando eventos ou fazendo fofocas sobre a banda “tal”. Queria que fosse de fácil acesso e bem organizado para que o leitor se sentisse à vontade e tivesse o interesse de voltar e conhecer outras coisas. E principalmente não desfocar que é o assunto ali é música e nada mais.

No início gostava do Tenho Mais discos que amigos, do Monkeybuzz, Scream and Yell. Hoje acho que fugi dos parâmetros, e foi bom. Mas inspiração mesmo surgiu dos fanzines e revistas como da Bizz na minha adolescência, chegando a revista Zero, e a referência maior que foi a Rock Press, que desde o início me tornei colecionador.

E citaria também fanzines como Maximum Rock N Roll, o Espaço Edith Zine (fanzine local aqui de Bragança Paulista), Canibal Vegetariano, e muito do Antimídia, fanzine de Nenê Altro, são influências que são absurdamente importantes, senão não existiria o Raro Zine!

NADA POP – Qual o conselho para quem tem interesse em escrever sobre bandas, shows, organizar eventos de música e ainda manter tudo isso organizado em um espaço na internet? Ou o fazer já seria o melhor conselho?

GERMAN MARTINEZ – Parafraseando meus amigos do Chcl: Pense, se organize; faça você mesmo!

Assim que tem que ser, faça acontecer, descubra bandas, vá a shows, converse e adquira conhecimento, não pense que sabe tudo, aprenda a ouvir tudo que chega aos teus ouvidos, uma hora pode ser usado a seu favor.

E principalmente leia muito,se informe!

NADA POP – Obrigado pelo papo, a gente é meio doido, mas somos gente boa (ou não). Por favor, encerre esse papo indicando cinco bandas brasileiras que merecem a procura de quem for ler essa entrevista. Valeu novamente e parabéns pelo trabalho! Tudo isso foi só para roubar seus segredos!

GERMAN MARTINEZ – Obrigado ao Nada Pop pra poder falar um pouco do Raro Zine!

Vá lá!

01 – Renegades of Punk

Um powertrio pra lá de f…… lá de Aracaju, no Sergipe, com influências riot e punk (óbvio) que é integrado pela querida Daniela, Ivo Delmondes (batera) e João Mário no baixo! Uma banda do coração certamente!!! Saiba mais sobre a banda clicando AQUI.

02 – Urutu

Quarteto paulistano que vai do punk ao nwobhm, com gente que sabe do assunto. Saiba mais AQUI.

03 – The Velociraptors

As vezes trio, as vezes quarteto lá de Mossoró no Rio Grande do Norte, com alguns EPs lançados e recentemente um vinil 7” pra lá de rockeiro! Conheça AQUI.

04 – Motor City Madness

Quarteto gaúcho, que manda um rock n roll na pegada escandinava sem firulas, guitarras na cara e pronto! Veja AQUI.

05 – Ruído de maquina

Banda instrumental lá de Natal-RN, simplesmente uma viagem louca interplanetária. Saiba mais AQUI.

Para acompanhar o trabalho do German Martinez acesse as redes sociais do Raro Zine: Site | Instagram | Facebook

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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