quarta-feira, 18 de julho de 2018
Nada Pop

Cena “underground” de Brasília. Por Querolx

O que falar dessa “cena” que eu mal conheço e já considero pacas?

Quando o Maurício falou pra escrever uma “resenha” sobre a “cena” de Brasília pensei: “ah de boa, vou falar da galera que conheço e tal. Fim”. Certamente não sou a pessoa certa a se pedir um resumão de Brasília, cheguei há pouco tempo, mas a vida é assim, não conheço a maioria das pessoas, mas provavelmente conheço alguém que conhece.

Em Brasília rola esse esquema fora do que a galera chama de “cena”. Todo mundo conhece alguém que conhece seu brother, Brasília é minúscula e dizer que existe algo parecido com uma cena dentro dela é praticamente um insulto. Se você não sabe, Brasília é um avião no meio de um quadradão enorme, o plano piloto (Brasília) é cheio de normas e leis, burocracias e ricos esnobes enquanto o enorme quadradão também é cheio dessas coisas só que com muito mais coisas acontecendo.

Falemos então dos acontecimentos “undergrounds” (acho que odeio todas essas palavras “cena”, “resenha”, “underground”, ninguém sabe o que é mesmo) do Distrito Federal, temos esse primeiro aspecto que todo mundo conhece todo mundo, mesmo não sabendo. Por isso todo mundo tem bandas com as mesmas pessoas, o cara que toca no Firstations, 1234, O Meu é Torto, Back to 94, Maltz, Dissonicos e Barba Ruiva é brother do cara que é brother do cara que toca na DF147, Gato Preto, Beer and Mess, Dino Bang, Exrebanho e Certos e Errados; e eles se odeiam, mas não faz diferença. Não existe essa história de tocar em uma banda só, ninguém tem nada pra fazer por aqui, não tem praia, Augusta e a cachoeira é um pouco longe. Na segunda você ensaia com a galera de uma banda; na terça encontra outra galera de uma outra banda no bar; na quarta você não faz nada porque o lugar não tem estacionamento (aqui tem dessas, não tem vaga em nenhum lugar, inclusive na porta do seu trabalho); na quinta você ensaia com a galera de outra banda; na sexta você vai pra um showzin de um brother e encontra outros brothers e monta uma banda nova e por aí vai.

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Mais show, dessa vez na casa da Ana.

Aqui também tudo é longe, não existe vida sem carro. Se o lugar for mais longe que 5 km você vai demorar pelo menos 1 hora pra chegar. Não existe carona porque ninguém confia em ninguém e não existe transporte, não rola de saber que vai rolar alguma coisa daqui a 1 hora e simplesmente pilhar de colar pra ver no que dá, tem que ter certeza de tudo que tá acontecendo. O metrô pode até ser massa, mas é longe de qualquer lugar que possa existir um show, se vai comparecer a algum concerto, organize-se.

“Mas no plano piloto tem altas casas de show que eu vi aqui no Google”. Tem, mas você não vai tocar lá, só toca cover, só toca banda rica, se o seu som for mais “pesado” pode esquecer. Tem casa que oferece só a terça-feira pras bandas autorais, cobrando no mínimo R$ 20 até as 22h; tem casa que separa um mês pras bandas autorais tocarem e tem casa que simplesmente só aceita cover, com release, vídeo e música gravada e manda todo o resto ir se fuder, porque música autoral não dá dinheiro e a cerveja ainda é R$ 7.

O lugar que sempre tem alguma coisa boa acontecendo é o Conic. Conic já foi a capital das putas aqui em Brasília, cinema pornô, lojas eróticas etc. Melhor lugar de Brasília. Lá sempre rolam eventos radicais e, na maioria, perigosos, por isso são bons; tem show na frente de loja de quadrinhos, tem show no subsolo e num lugar novo (mais ou menos) que tá bombando, o Barbarella, que é restaurante de dia e no fim de semana se rebela e transforma a cozinha em backstage e enche a loja, que é minúscula, de punks/rockeiros/qualquer outra coisa, todo mundo suado, os shows normalmente são abertos a todas as idades e de graça, sem contar que é do lado da rodoviária!

Esse lugar, o Conic, é o lugar mais underground que essa cidade já teve (não precisa ser a respeito de rock pra ser underground) é a galeria do rock com putas e uma igreja universal no meio, tem lugar pra pegar vale transporte, tem sebo, loja de blusa alternativa, loja de história em quadrinhos (incluindo mesas pra jogar Magic na frente), loja de vinil, de instrumento musical, de skate, loja de perucas e sapatos e milhões de estúdios de tatuagem. Se quer ser radical, visite o Conic.

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Show da banda Outubro no Barbarella Convida. Foto por Querolx.

Seguindo nessa onda de bares e lugares pra tocar temos que procurar cidades satélites pra encontrar bons picos. Em Samambaia tem o Bar da Toinha, um lugar determinadamente rockeiro, com direito a “oração do rockeiro” pichada na parede e tudo mais, descendo a escada você encontra o chão, que vira palco e mesas de sinuca. Eles começaram fortes no aspecto de banda autoral, hoje em dia só em dia de domingo.

Em Taguatinga tem o América Rock Club, lugar bonito demais pra chamar de underground, caro demais pra dizer que é acessível, mas tá lá se você organizar o show uns 5 meses antes rola de dividir a agenda com o CJ Ramone. Tinha o Red Rock que ficava em Ceilândia, pequeno e cheio de suor, com guitarras sem corda na parede e cerveja a R$ 2. Fechou e virou o “underground pub” (risos) que não tem shows, mas só toca música boa, incluindo a quinta do vinil.

No Jardim Ingá, um dos lugares mais perigoso do planeta tem o Subpub, só os true frequentam esse pico, não importa onde você esteja, vai ser longe. Aqui rola um esquema que a cada duas semanas um bar que se dizia “do rock” fecha as portas e muda o nome e volta com eventos sertanejos e funk, exemplo: “Tequila Coutry Rock Club”, depois “Tequila Funk Club”, simples como fazer gelatina de vodka. Também existem bares que se dizem super underground, mas na real tão pouco se fudendo, já rolou de ver o site do bar com a logo “Bar do Gatos” (mudei o nome, você nunca vai saber qual é) “apoiando a união da cena underground”, daí pensei “porra, massa, vou organizar um evento lá pra ver qual é a dos caras”.

Ligo pro número do site e me deparo com um discurso de “as bandas que você está convidando para esse evento não vão nos dar público, precisamos pagar as contas”. Tinha o lendário Rolla Pedra, que começou toda uma cultura noturna com altas bandas de uns 40 anos atrás e que hoje resta o nome e alguns festivais; tinha o Sesc garagem onde tinham milhões de jovens pra juventude rebelde e hoje quase não se sabe o que rola por lá, fora os rolês furados e os não furados; temos a galera da parte underground do underground, pessoal que curte a onda de fazer show com gerador, o pessoal do Rolê Maldito, F.O.D.A Pública, Brazlândia Under e por aí vai.

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Show da banda Mais Que Palavras no Matinê Hardcore. Foto por Querolx.

Em Brasília tem um evento anual chamado “Porão do Rock” (um link que valerá a leitura, CLIQUE AQUI), tem banda gringa, banda grande e famosa, banda ruim e algumas bandas boas. Todo ano aparecem milhões de rockeiros que você nunca viu na vida, os adolescentes com seus pais, os adolescentes rebeldes que só vão lá pra fumar, beber e fuder (ótima banda) e alguns moicanos que vão lá pra arranjar encrenca e espero que arranje mesmo, tem gente que merece. Esse festival é super aclamado e parece ser o sonho de todo mundo, qualquer DIY, rockeiro, punk, undeground paga pau pro festival e isso me deixa extremamente puta, pensar que o cara que tem um discurso de banda independente se mata pra participar de seletiva só pra tocar num palco maior, pro mesmo público. Brasília só tem rockeiro três vezes ao ano: show do Dead Fish, show do Matanza e Porão do Rock, parece que ficam de ressaca o resto do ano e não aparecem em mais nada.

Todo mês tem a Matinê Hardcore organizada pelo Maneko, Pirata e outros que trazem bandas de outras cidades e até banda gringa pra uma matinê aberta pra todas as idades, com direito a pulseirinha straight edge, rango vegano de graça e cartazes de igualdade de gênero na parede. É um role muito massa que sempre cola a galera que junta os trocados pra entrar e a galera que pede troco pra 100, incluindo todas as princesinhas do hardcore que vão de short curto, alargador e tatuagem de flor e ficam de braços cruzados tomando cerveja assistindo as bandas se matarem. É bom que elas vão, o que seria do rolê sem elas?

Também tem balada alternativa com pseudo rock e pseudo rockeiros que pagam 15 conto pra entrar, lugar underground que cobra 500 conto pra alugar o espaço.

Brasília tem o discurso do “Brasília, capital do rock”, massa. Mas não é, não foi e não será. Essa história não existe, nenhuma cidade é capital do rock, o que é rock? Tem gente que diz que é atitude, tem quem diga que é estilo musical, tem quem diga que é satanismo. Essa música gemida dos anos 80 que saiu daqui, com os pseudo punks filhos de embaixadores deram essa ideia que todo mundo pode ser famoso. Acredite, conheço banda que diz que vai no show porque vai ter olheiro que vai levar a galera pra Europa. Esse pessoal dos anos 80 parece que excluiu todo o resto da produção da cidade, é aquele merda que diz “porque, cara, a gente, cara, tá aqui, pô, tem muito tempo, somos uma das únicas bandas punks, cara, que saiu dessa cidade, meu, ainda tá na ativa, cara. E essa música se chama Natasha”.

Enquanto galera baba ovo desses ricos FDP esquecem de bandas como Detrito Federal, de 83 que é muito mais foda que essas bandas horrendas juntas. Anos 90 teve muita gente legal também, Little Quail, Raimundos, DFC, Bois de Gerião etc. Teve até documentário sobre esse tal de rock dos anos 90, depois que todo mundo tinha cansado dessa história de Legião Urbana, chama “Geração Baré Cola”.

Temos milhões de eventos financiados pelo FAC sempre as mesmas bandas, aquelas que assinaram algum contrato ou pagaram algum produtor pra aparecer, são eventos que acontecem na frente do museu, abertos, gratuitos, mas que só tem rico. Então diga-me, isso é cena? Por que todo mundo diz que é underground?

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DFC no Matinê Hardcore. Foto por Querolx.

Vários produtores, bandas e pessoas que faziam acontecer simplesmente sumiram de tudo que rola por aqui, tinha a Prótons que fazia um monte de coisas, que sumiu. Daí um dia surgiu a Mundano, que fez um festival massa, com Bad Religion e tudo mais, daí sumiu também, que hoje não existe, mas tem uma galera que parece que sempre esteve por aqui e talvez sempre estará, Piratox que fez milhões de shows; Gilson, que faz show na frente da pastelaria; o Lamin que não se contenta com o undeground e vai ainda mais embaixo com show na frente do Porão do Rock; o Fuschino que organiza a Share This Breath e mais uma galera que só muda de nome, mas tá sempre fazendo alguma coisa, mesmo que seja aquele cara que organiza show e diz “vamo fazer um flyer foda que vai bombar” e depois cancela com você. Vez ou outra aparece uma galera que nunca foi em nenhum show e nunca fez nada e tá extremamente pilhada pra organizar os shows, tipo os meninos da Outubro HC que fazem uma viagem pra colar nos shows; os meninos da Darma, filhos de papai que gostam de Led Zeppelin que saem de suas mansões e organizam show na pista de skate do subúrbio e eu, que fui num show horrível e decidi que queria ser horrível e fazer coisas horríveis.

Aqui tem um monte de banda que nunca toca; tem uma galera que viaja e paga 30 conto (entenda-se mil) pra ser produzido e fazer site que explica os hobbies de cada integrante; tem banda que chama a galera de fã sem nunca nem ter gravado nada; tem banda que existe há dois anos e escreve “oficial” depois do nome da banda; tem banda que só toca em show grande com estrutura e tudo mais  e se chamar eles dizem que tem preguiça e não gostam de tocar em show; banda que todos os integrantes são ricos e só por isso fazem sucesso; tem banda que faz clipe no estádio vazio com os instrumentos desligados; tem banda que o integrante é filho do cara que trabalha na MTV (péra, isso ainda existe? Será que é Multishow?); tem banda que come alunas do Ensino Fundamental; músico que diz que é um liquidificador sonoro e muleque que tocava em banda punk há três anos e agora segue carreira sertaneja.

No DF também tem bandas que podem até ser ruins, mas tão aí sempre e dá maior orgulho de saber que são do mesmo canto que você: Squintz, DF147, DFC, Mais que Palavras, Macakongs, Galinha Preta,  Beer and Mess, Smooh, My Last Bike, Outubro, Enema Noise, Paralelo Sonico, Penúria Zero, Suicídio Coletivo, Ingrena, sem contar com as pessoas que vão além das bandas e dão maior suporte pro lado cultural da cidade: Emidio, Maneko, Bianca, Maique, Gilson (de novo), Lamin (de novo), Pirata (de novo), Fuschino (de novo), Toti, Bethania, Formigas, Marcelo, Caio, Roberto, Leofx, Bruno, Sanderson, Julimar, Tulio, Phu, Frango, Moa, Sopão, Vinicius, Cled, Marley, Podrera, Tótors, Marcio, etc etc.

Mas péra, isso não tem em todo lugar? Brasília pode ser podre, mas todas as outras também são, Brasília também pode ser foda, do mesmo jeito que as outras são, no final dá tudo no mesmo, mais ou menos.

Conheça o trabalho da Ana “Querolx” Nicolau. , além de ver mais fotos, nos links abaixo:

Subverter
http://www.subverter.com.br/

Porão do Rock
Uma resenha sincera do Porão do Rock 2014

Mais fotos do Matinê Hardcore
http://www.flickr.com/photos/querolx/collections/72157646195645618/

Mais fotos do Barbarella Convida
http://www.flickr.com/photos/querolx/collections/72157646197963580/

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Sobre o autor

Querolx

Nascida em Brasília, cresceu brincando no quintal e viajando durante as férias com os pais. Na adolescência começou a frequentar shows horríveis de bandas desconhecidas, largou as aulas de piano e aprendeu a tocar guitarra.

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