sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Nada Pop

Anti-resenha: observações de um show punk, no Sesc?

A sexta chega e é dia de show do Olho Seco. Show punk é claro! Mas no SESC. Não rola? Ou dá pra ser? Difícil responder a pergunta. Pra desenrolar essa questão, antes teríamos que instalar o debate sobre o que hoje é o punk. É somente um subgênero musical ou vai mais além como uma manifestação cultural mais ampla, nos moldes do Hip-Hop, por exemplo. É visual? É movimento? É político ou não deve ser? Em cada lugar do mundo o punk deve ter suas características próprias, no nosso caso em São Paulo, atualmente o punk parece viver uma crise de identidade. E esse impasse vem reverberando nos eventos do mundo real e no das redes sociais. E com essas interrogações na cabeça, colamos nesse rolê do SESC Belenzinho para tentar avançar nessa encruzilhada.

O show estava marcado para às 21h30. E vou parar por aí com a descrição desse tipo de coisa mais burocrática, enfim, vou tentar “encher a linguiça” o mínimo possível. Confesso que quase não resisti à tentação da comodidade de pegar como modelo a introdução da grande maioria dos últimos escritos sobre shows que eu tenho visto por aí. Grande porcentagem deles tem sido praticamente igual exceto uma mudança óbvia ou outra. Enfim, resolvi declinar dessa norma formal de roquista especializado. Não que ache que essa deserção seja algo tão melhor assim. Mas é bom tentar mudar de vez em quando, para divergir um pouco de uma das faces das cenas underground que atualmente tem tido exatamente essa característica bem marcada, isto é, uma repetição uniforme de fórmulas consagradas. Lutar contra aquela incômoda sensação ultimamente bastante presente, a de que tudo será previsível (como num escrito sobre show de site especializado).

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Olho Seco no Sesc Belenzinho – Foto por Eclenir P. Ferraz

Saindo dessa enorme digressão e voltando ao show. Afinal a ideia não é falar sobre gramática. O evento foi marcado para acontecer na comedoria do SESC Belenzinho. Trocando em miúdos, é uma espécie de restaurante/refeitório da unidade com um nome gourmetizado. E seguindo a orientação do nome, a entrada para o lugar me lembrou dum balcão de vallet para estacionamento de formatura, com duas minas “bem” vestidas e um cara com uma roupa social do naipe de vendedor de loja de conveniência. O que chamou atenção positivamente nesse mesmo balcão foi que não há seguranças brutamontes na porta fazendo revista, e pensando numa cidade onde há um militar autoritário em cada pessoa, isso é um avanço e tanto. De maneira prática, a única coisa a se fazer nesse balcão de recepção era deixar um ingresso e pegar um material gráfico bastante bem feito em forma de capa de LP sobre a banda e sobre esse projeto musical do SESC. Trata-se de uma espécie de lembrancinha do evento, tipo aquelas que são distribuídas em casamentos, com uma escrita informativa bastante neutra e pragmática.

Ainda na entrada, outro fato que chamou a atenção foi a ausência do público punk comum em eventos desse estilo em São Paulo. Não que punk seja somente visual, no entanto existem algumas características bastante comuns de porta de show punk que nesse dia em especial definitivamente não estava presente. O público lembrava um show de rock comum, com a faixa etária bastante elevada se for levado em conta o usual de shows punk, embora os ingressos estivessem num valor que corresponde à média das casas de show com eventos semelhantes. A pergunta que ficou foi bem simples: Por que o público punk não colou num som do Olho Seco a um preço razoável numa região relativamente central?

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Olho Seco – Foto por Eclenir P. Ferraz

Já dentro da comedoria com um baldinho acrílico de gelo com algumas cervejas dentro em mãos (objeto esse que ilustra um pouco o ambiente), comecei a pensar na alma do show no geral. Nas minhas contas havia umas 150 pessoas em um lugar que provavelmente comporta uma lotação de 600 pessoas. Como é difícil estimar números, o fato é que não foi necessário afastar as mesas do restaurante para que o show acontecesse. Nos diálogos paralelos e nos burburinhos era comum escutar pessoas falando sobre relembrar a época dourada do início do punk em uma mistura de nostalgia histórica onde vida pessoal e momento cultural se entrelaçavam de forma praticamente inseparável.

Com o show comendo solto, um ou outro esboço de pogo surgia quando tocava as músicas mais conhecidas. Em geral, o espírito do ambiente lembrava uma contemplação de algo que tinha sido e não era mais. Uma das coisas clássicas do punk rock e do Hardcore é a forma como o público e banda interagem o tempo todo. Não era o caso, a relação que se via era de banda X espectador consumidor. Sem muita interação, enquanto o Fábio (vocalista) rodava um microfone especialmente designado para essa função e cantava com outro, mantendo essa característica clássica de sua presença de palco, o público balançava a cabeça e batia os pés seguindo o beat da batera, e um ou outro mais empolgado cantava algum refrão quando o microfone descia para a área técnica designada para o público.

O show propriamente dito foi bastante bem executado. A banda atual que acompanha o Fabião está bastante afiada, e aliada ao backline potente oferecido pelo SESC deu uma pitada de técnica a mais ao caos do Hardcore do Olho Seco. No ponto alto do set “botas, fuzis e capacetes” deu uma chacoalhada nos espectadores que de maneira geral pareciam um tanto desatentos (ou talvez extremamente atentos). O show seguiu milimétricamente executado como em um DVD. Pessoalmente me empolgou ouvir “bandeiras vermelhas” ao vivo, pois não é tão comum ela aparecer no set quanto as outras. Claro que executada depois de ser devidamente lembrado que o som não tem nada a ver com partido. Atualmente não tem pegado bem tomar algum partido, é o que dizem por aí.

Esse show fez parte de um projeto do SESC, que segundo o site deles: “A série Discos Punks apresenta obras que tiveram importância para o movimento punk brasileiro da época e que continuaram influenciando o cenário musical do país até os dias atuais”. Sem dúvida o Olho Seco teve grande importância e continuam influenciando, assim como é proposto pela descrição. E musicalmente não tem como dizer que não foi excelente a apresentação. Apesar de nesse caso a proposta ter sido relembrar um disco antigo, em todos os outros shows sinto falta de trabalhos novos do Olho Seco; a impressão que dá é que todos os shows fazem parte de um projeto pra lembrar o que foi, e exaltar a importância para o que tá sendo.

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Olho Seco – Foto por Eclenir P. Ferraz

No final do rolê fui fumar um cigarro, naturalmente iniciei uma conversa com um mano que dizia passar dos 50. Ele me disse que foi relembrar a época que ele ia a shows punks, que tudo era mais difícil, que a visão das coisas era muito mais “romântica” e que hoje em dia não tinha mais isso. Mencionei o nome de pelo menos três bandas ativas, alguns eventos que estão acontecendo e disse que seu intuito fosse apenas relembrar uma época estava num bom lugar, porém se quisesse sentir o punk vivendo a presente época teria que ir a outros lugares, não seria definitivamente ali. Lá não tinha pogo, não tinha zines, as rebeldias estavam escondidas, era um projeto idealizado e organizado por uma instituição comandada por empresários do comércio de bens, serviços e turismo. Aquilo que subverte e contesta, naturalmente não esteve ali. Por opção de ambos os lados, talvez. Mudamos de assunto, cada um foi para o seu lado em um desinteresse mútuo em escutar o que o outro tinha a dizer. Para alguns as memórias do passado são mais saborosas que a vida presente com a construção do que pode ser. O que não tem nada de errado. Aliás, analisar uma situação não se trata de uma questão de certo e errado, bem e mal.

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Olho Seco – Foto por Eclenir P. Ferraz

Num contexto mais amplo, a impressão que fica é que existe um conflito entre quem pretende atualizar e alimentar o caráter autogestionário, contestatório e anti-sistêmico do punk, e aqueles que almejam o punk como algo a ser incluído dentro da lógica hegemônica do mercado, com casas de show com estrutura, bandas que vivem somente de seu trabalho (reproduzindo a divisão do trabalho capitalista), material de consumo abundantes e com qualidade de loja (grande parte das vezes supérfluas), inclusão nas mídias de massa e aparição no mainstream etc. A questão que fica no final é se essas escolhas e visões podem conviver juntas ou se elas naturalmente acabam caindo em contradição entre si acabando afastadas e em conflito constante? Cada um tem sua opinião e a minha é que dificilmente consumo e ruptura social conseguem conviver em harmonia. Mas, sendo honesto, de verdade mesmo, só o tempo pra responder todas essas questões.

E com certeza não será um texto que vai resolver essa aparente crise de identidade.

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Sobre o autor

Suna

Suna é colaborador do Nada Pop.

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