quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Nada Pop

A violência e a pornografia musical da banda Porno Massacre

Porno Massacre é uma banda nascida em São Paulo e formada por quatro integrantes que se auto-intitulam General Sade (voz), Ayatollah (guitarra), DirtyFinger (baixo) e BlackNail (bateria). Com shows que misturam performances teatrais com muito rock’n’roll influenciado por diferentes estilos, como Alice Cooper, New York Dolls, The Cramps, The Dead Boys, Motrhead, Secos & Molhados e David Bowie, o Porno Massacre é uma banda difícil de determinar o estilo, algo que para eles é muito bom.

Antes de começarem seu trabalho autoral, os caras eram uma banda tributo ao Sex Pistols, muito boa diga-se de passagem. Mas como a vontade de fazer som autoral ficou mais forte, os quatro iniciaram em 2010 a produção do primeiro álbum da banda, que gerou o EP “Os Arautos do Apocalipse”.

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General Sade (vocalista do Porno Massacre) – Foto por Fernanda Gamarano

Depois de vários shows por São Paulo, neste ano a banda lança o álbum intitulado “Porno Massacre Vol. 1”. Este trabalho engloba as músicas do EP, agora com uma nova sonoridade, que vão desde o surf rock acelerado do The Lemarchand’s Box, até o hardcore anti regras de Igreja Pornomassácrica, passeando pela batida lenta e sedutora de There is no Rule at All.

Para saber um pouco mais da história da banda, conversamos com o General Sade. As explicações do origem do nome do grupo e os codinomes dos integrantes, entre outras curiosidades, você confere abaixo. Não deixe de curtir a página da banda clicando AQUI e de conferir as novidades e lançamentos do grupo no site oficial dos caras – AQUI. Você também pode ouvir o álbum logo abaixo, no fim da entrevista.

NADA POP – Acredito que muitas pessoas devem questionar vocês pelo nome da banda. Afinal, o que é ou o que significa Porno Massacre? Já tiveram algum problema envolvendo o nome da banda?

GENERAL SADE – Geralmente o interesse que o nome causa é positivo, pelo menos até então. Esse nome surgiu quando nos deparamos com um filme exploitation italiano chamado “Porn Holocaust”. O exploitation, de uma maneira geral, é uma paixão de todos os integrantes da banda. É o tipo de cinema que não tenta disfarçar (como os fazem os outros filmes), que estão fortemente sustentados por dois pilares fundamentais: violência e pornografia. Pensamos: “Tá aí!”… e esse virou o nome da banda… pelo menos por algum tempo, pois chegamos a fazer apenas um show com este nome. Sob protestos de amigos nossos, Judeus, que estavam na plateia, resolvemos remover a referência ao holocausto e trocar por Massacre. E desde então nos soou muito adequado, algo como uma overdose de pornografia.

Portanto, e agora vem o slogan: Porno Massacre seria um exploitation musical para saciar seus instintos mais obscuros vindos de seu inconsciente, e ainda não filtrados por nossas máscaras sociais e convenções morais. Um deleite de êxtase e prazer sem culpas.

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Ayatollah (guitarra) – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – O show de vocês é bem performático, com troca de figurinos, mas não deixa de ser visceral. Principalmente por “culpa” do vocalista, que parecer assumir uma personalidade inspirada no “capeta”. O que inspirou a banda para ter esse tipo de performance nos palcos e se sentem falta disso hoje em dia?

GENERAL SADE – Eu, particularmente, sempre insisti muito nesse ponto da performance. Até por causa de minha atividade paralela à banda, como ator, ou mesmo o grupo de estudos de performance de que faço parte. Mas o fato é que o resto da banda nem sempre comprava essa ideia desde o início. Com o tempo fomos nos entrosando mais nesse aspecto. Sentimos muita falta de performances com “P” maiúsculo hoje em dia. Alice Cooper, New York Dolls, The Cramps, Iggy Pop, etc apesar de muitos deles estarem ainda em atividade com inquestionável qualidade, são artistas de outros tempos. Nada de novo surgiu desde então, salvo raríssimas exceções. Não podemos nos esquecer que quando subimos num palco aquilo é antes de tudo um show. Há um ditado no teatro que diz: “Se está no palco, então é para ser visto”. Que significa basicamente que, a partir do momento em que há uma apresentação, já necessariamente há uma performance, pois ela está evidenciada pela relação palco x plateia. A questão sempre foi extrapolar o conceito limitador de “banda de rock” e criar nos shows uma experiência sensorial, de estímulos estéticos os mais variados. Instaurar uma atmosfera outra, destacada da realidade. Talvez por isso nossa performance seja exagerada, beirando o histriônico, mas é proposital.

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Capa do álbum “Porno Massacre Vol. 01”

NADA POP – Esses codinomes que vocês criaram para cada integrante, é possível dar uma pequena explicação sobre cada um.

GENERAL SADE – O General Sade é em parte uma persona artística, um alter ego como o Ziggy Stardust, por exemplo, e em parte sou eu mesmo. Ele já vem de muito tempo, até antes do próprio Porno Massacre, e vem da minha admiração pelo Marquês de Sade, seu pensamento e tudo o que ele representa.

Ayatollah do Rock´n´Roll veio de um filme do Mad Max, e é para ser o braço “místico” desse exército que é o Porno Massacre.

Dirty Fingers é porque o nosso baixista tem uma musicalidade toda trabalhada, fugidia e “malandra”. É para ser uma espécie de Artful Dodger (o personagem esquivo de Oliver Twist) do rock.

Blacknail veio dos fungos na unha do pé do nosso baterista. Mas também o identifica como uma espécie de força gutural e primitiva que impulsiona a banda. A nossa porção troglodita.

NADA POP  – Vocês começaram como uma banda tributo do Sex Pistols. Podemos dizer que a “brincadeira ficou séria”? Ou seja, como surgiu a vontade de fazer som autoral?

GENERAL SADE – A ideia sempre foi fazer o som autoral desde o início. O cover surgiu para conhecermos os lugares, as bandas e ganharmos principalmente entrosamento de uma forma rápida. O problema foi que o cover fez sucesso. Eu dava até autógrafos! Com dois anos de banda tínhamos 11 músicas autorais, mas não enxergávamos oportunidades para tocar essas músicas, pois só chamavam a gente pra fazer o cover. A partir de 2014 conhecemos por acaso um monte de gente legal que abriu essa oportunidade de tocar nossa música: Rodrigo Romani, da banda Johnny Apgar Zero e do coletivo Tendal Independente, André Astro da banda O Grande Ogro, Fernanda, Ian, e toda galera do Der Baum, Guilherme Maia da Troublemaker e Mind R’ape, May Dantas da Finguerprints, Adriano Paccianoto do projeto Penha Rock e o André Girardi da banda Os Gardenal. Essa galera abriu muitas portas!

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General Sade – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – Como foi a produção desse primeiro álbum de vocês (onde foi gravado, quem produziu, quanto tempo levou o período de gravação até o lançamento)?

GENERAL SADE – Esse disco foi gravado no estúdio Caffeine há dois anos atrás, com a produção de Luis Tissot (Thee Dirty Rats). Por problemas nossos de falta de tempo, conflitos de agenda, o álbum acabou ficando com uma pré-produção e nós lançamos as músicas assim mesmo, como uma demo. Recentemente nós nos demos um ultimato e sentamos para finalmente dar aquela polida no material, com a ajuda do produtor Vinnie Azevedo do estúdio Kinema Music. Mas o bom é que tudo deu certo, mesmo com o enorme hiato entre a gravação e o lançamento, pois o Vinnie foi um parceiro e tanto e ficamos muito felizes com o resultado final da empreitada.

NADA POP –  Costumo perguntar de roubadas para as bandas, mas ao invés disso, vocês podem falar de um show inesquecível?

GENERAL SADE – O grau de satisfação é sempre muito elevado, pois estamos fazendo exatamente aquilo que nos propusemos a fazer. Portanto todos os shows, para nós ao menos, são sempre muito bons. O que acarreta que existem também muitos shows inesquecíveis por aí. Normalmente quando plateia e banda entram em sintonia é que algo acontece, quase uma relação simbiótica em que o show flui naturalmente com uma energia incrível. Podemos lembrar de alguns em que ocorreu isso: no Sarajevo, no 74 Club em Santo André, a primeira vez que tocamos no Mineiro Rock Bar em Osasco, nossa passagem pela Sensorial Discos, entre muitos outros.

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Porno Massacre – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – O som de vocês é punk, rock and roll, setentista, teatral e difícil de classificar dentro de apenas um estilo. Acham que isso pode atrair público, nem que seja pela curiosidade, ou acham que acaba restringindo de alguma forma? Importam-se com isso de alguma forma ou não estão nem aí?

GENERAL SADE – Há sim uma preocupação em não nos rotularmos, para não nos limitarmos. Isso cria alguma dificuldade para o público, que muitas vezes procura novas bandas por similaridade ou por estilos pré-definidos. Se somos dificilmente categorizáveis, creio que espantamos, sim, alguma parcela do público. Mas isso é compensado na sensação de que estamos realmente buscando algo novo, algo totalmente nosso, inédito, o que pode gerar a curiosidade que você citou. Pensamos que, se são dois lados da mesma moeda, o lado bom compensa o ruim e muito. É fato histórico que esse certo “sabor” de novidade tende com o tempo a suplantar qualquer possível aversão inicial que possa surgir.

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BlackNail (bateria) – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – Do que as letras da banda costumam falar? De algum modo, acreditem, lembrei-me de The Dresden Dolls ao ouvir vocês, com algo de cabaret punk. Assim, para que tipo de pessoa é o som do Pornomassacre?

GENERAL SADE – A lembrança ao The Dresden Dolls é bem pertinente! As influências musicais da banda são as mais diversas possíveis. Praticamente nós 4 viemos de vivências musicais muito diferentes. No caso do Cabaret Punk, sim, também é uma realidade, algo como um vaudeville moderno. Vou pegar um exemplo: quando estavamos escrevendo There is No Rule at All, havia tanto de The Dresden Dolls ali (principalmente Mandy Goes to Med School), de Serge Gainsbourg (Le Claqueur de Doigts), quanto de The Fratellis (Baby Fratelli), etc. Justamente essa mistura tão ampla é o que faz o som ser tão à parte dentro do cenário atual. Quanto às letras, falam tanto desses terrenos mais obscuros como pornografia (Baise Moi, Pecado Predileto e Necrophilia) e violência (Le Marchand´s Box, Jack e 5 O´Clock), quanto liberdade e ateísmo (Igreja Pornomassácrica e There is No Rule at All), o direito à eutanásia (Dr. Kevorkian) entre outros, variando da citação mundana e direta à filosófica como as referências a Nietzsche, Camus, Sartre, etc. Por isso o som do Porno Massacre é para os párias, os inconformados, e é também para as pessoas mais “cabeça-aberta”, ou mais dispostas a serem confrontadas. Nem todos os temas são facilmente digeríveis, mas sempre são tratados de forma honesta e respeitando a inteligência o ouvinte.

NADA POP – E o cenário independente, as mil maravilhas, né?

GENERAL SADE – Olha, todos nós viemos de outras bandas até chegar ao Porno Massacre. E realmente o cenário era bem pior em coisa de uns 10 anos atrás. Podemos estar perdendo locais de apresentação, ou o espaço do rock na grande mídia para outros estilos musicais, mas em compensação a movimentação e o emprenho das bandas independentes, dos apoiadores da cena, dos canais de divulgação intrinsecamente ligados ao meio, como o próprio Nada Pop, é muito maior. Há uma união e uma camaradagem impensável não muitos anos atrás. A cena é forte e solidária. E todos só tem a ganhar com isso.

NADA POP – Na opinião de vocês, o que há de errado e o que há de bom em relação a shows, divulgação, espaços e o que mais quiserem citar.

GENERAL SADE – Temos na internet um canal poderosíssimo de divulgação se bem utilizado, e no entanto muito apinhado de informações, e que rapidamente encobre sua divulgação com uma avalanche de estímulos imediatos se mal utilizado. A questão é justamente essa quanto à divulgação: saber como se utilizar deste canal. Não é algo fácil, e exige esforço e aprendizado constante, mas está aí, nas nossas mãos. Já quanto aos espaços é diferente, acredito, sim, que tem havido uma diminuição das ofertas de locais para tocar, certamente em virtude da perda de espaço do rock para outros estilos musicais nesta década. No entanto, há sempre essa movimentação das pessoas e isso traz, sim, um lado bom: a solução é a procura de locais alternativos para tocar. É comum hoje ver bandas na rua, em praças, até em um trio elétrico durante o carnaval. Pra nós isso é muito mais importante. É o encontro das bandas com as pessoas. É como o teatro de rua, desde a antiga Grécia: a praça gerando e consumindo arte!

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Porno Massacre – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – Agradeço o papo e deixo esse último momento para que vocês se expressem como quiserem. Obrigado!

GENERAL SADE – Nós que agradecemos o espaço, a iniciativa e a oportunidade que o Nada Pop nos deu. Já deu pra perceber que somos, antes de tudo, otimistas fervorosos. Pois vamos lá:

Há algum tempo vem-se propagando um certo pessimismo, disseminado em parte por um discurso de mídia que trabalha pelo viés do “quanto pior, melhor”. Isso reverbera de uma forma muito negativa e perigosa em todas as esferas da sociedade. É claro que é triste você se deparar com jovens, que deveriam por obrigação serem os responsáveis por mudanças significativas na sociedade, defendendo ideias ultrapassadas e medievais. Mas não se fala, com todo esse alarde, sobre as pessoas que não se deixam derrubar, e que estão aí, criando, se ajudando, vivendo.

Ou seja, debaixo de toda moral acachapante e bunda-mole que erroneamente parece reinar nos nossos tempos, há uma vida pulsante, há sangue quente nas veias. Nós do Porno Massacre, estamos aí, errantes, no cenário, senão somente musical, mas sobretudo artístico, celebrando a vida e a liberdade irrestritas. Alguém, afinal, tem que empurrar as barreiras e dar um foda-se à moral, ao bom-senso, aos limites e regras… a vida é muito mais que isso.

Obrigado!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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