terça-feira, 16 de outubro de 2018
Nada Pop

A Sala Espacial e uma história de morte e renascimento

Há discos que surgem de um encontro casual entre músicos e amigos, discos que surgem de anos de planejamento e gravação, discos que surgem em viagens, em retiros, de experiências de vidas, de ideias conceituais. E há discos que surgem de um incêndio. Esse disco é o Casa Moxei, da banda paulistana Sala Espacial.

Casa Moxei é justamente o nome da casa que era moradia, estúdio e espaço multicultural dos músicos da banda, e as perdas da tragédia foram significativas: além da edificação, perderam-se nas chamas também instrumentos, equipamentos, gravações e objetos pessoais. Mas engana-se quem pensa que o noneto se deixou abalar, o curto-circuito que começou o incêndio na Casa Moxei também foi a faísca necessária para o nascimento do disco que homenageia o local e tudo o que ele representa para os integrantes da banda e seus amigos.

A catarse foi tamanha que o Casa Moxei nasceu duplo: Bóris, o cãozinho mascote e “guerreiro da paz”, é o disco 1; e Pandora, a gata mãe, (como são creditados pela banda) o disco 2. É difícil categorizar o som da Sala Espacial, e isso é um elogio. Os músicos usam instrumentos diferentes e também criados por eles mesmos, fugindo do ortodoxo e convencional. O leque de estilos e referências é muito grande, vai do jazz aos pontos de candomblé, e a banda mistura tudo sem preconceitos e sem frescura, representando a riqueza cultural dos seus integrantes e – por que não dizer? – do próprio Brasil.

Essa abordagem musicalmente multifacetada já é uma marca registrada do cenário musical independente brasileiro, encontrada também (só para citar alguns nomes) nos trabalhos de gentes como Apanhador Só, ½ Dúzia de 3 ou 4, Umporëmdois, A Fase Rosa, Russo Passapusso, Coutto Orquestra, DJ Tudo e Sua Gente de Todo Lugar, Metá Metá e outras bandas e artistas prolíficos do país. De forma que, no trabalho da Sala Espacial, tem pra tudo que é gosto, desde faixas mais diretas e radiofônicas como “Incêndio”, até faixas psicodélicas e experimentais como “Kundaliní”. Casa Moxei é um disco que celebra a diversidade por trás da banda. Algumas recomendações em particular são: “Cigana”, “Imediato Contato”, “O Filho da Cris”, “Incêndio” e “Chão de Estrelas” e “Malbec”.

Apesar de serem nove os integrantes oficiais (dez, contando com a/o “Surpresa”, figura mascarada que aparece na foto oficial da banda e também no site, e tem uma misteriosa reticência como descrição), o disco só se tornou realidade com a contribuição de outros diversos músicos e cantores, e também amigos, parentes queridos e às memórias e experiências que a Casa Moxei proporcionou a todos que a frequentaram. Trata-se de uma obra permeada de misticismos, com referências às forças da natureza, à religião, à magia, ao amor, ao cosmos e ao ciclo inexorável de vida e morte ao qual estamos todos sujeitos. A própria banda compara sua criação ao processo de renascimento da criatura Fênix, que ressurge das cinzas de sua própria destruição.

A Sala Espacial criou, a partir da sua experiência de transmutação, um belo e significativo registro que é extremamente recomendado para aqueles que, individualmente, passam por processos de morte e renascimento: pois ensina que, às vezes, uma grande perda é o que falta para uma grande conquista.

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Sobre o autor

Paulistana, ex-radialista e DJ da Rádio UFSCar, apaixonada pelo cenário cultural indie (e por gatos), aprendeu quase tudo na base do DIY. Espera ansiosa o apocalipse nuclear. Enquanto isso, escreve sobre música e, nas horas livres, trabalha como técnica de som na Reptilia Produções, produtora que tem com os amigos.

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