terça-feira, 24 de outubro de 2017
Nada Pop

A propaganda é letal, mas a nova banda do Gepeto consegue ser muito mais

“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo.”

A frase acima foi dita por Malcolm X e serve para ilustrar o significado do álbum “Máquina de Propaganda”, da banda Letall, que ainda apresenta uma verdadeira aula de como fazer um crossover entre punk, hardcore e metal em 10 faixas perfeitas para ilustrar o cenário de desolação e declínio apresentado pela nossa sociedade em diversos momentos. Se você tiver a oportunidade de pegar o encarte do álbum nas mãos, perceba entre as ilustrações a imagem do pequeno Aylan Kurdi, o menino sírio-curdo de três anos que morreu afogado durante a viagem da Turquia para a Grécia, ao fugir da guerra com a família. Essa imagem, por si só, já explica muita coisa do álbum.

Mas apesar da aula didática e direta que o Gepeto, junto com o Wagner, Filipe e Gigante apresentam, a Letall também deixa subentender alguns questões políticas e sociais. Em “Longe Demais”, por exemplo, será possível fazer um paralelo com as atuais polarizações existentes na internet, transformando o que seria um lugar para aproximar pessoas em mais uma ferramenta de desunião, com centenas de donos da razão defendendo suas opiniões como se fossem gladiadores na Roma Antiga. Vale lembrar que esses mesmos gladiadores eram escravos treinados.

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Banda Letall – Crédito divulgação

Vale destacar que o Gepeto, há mais de 25 anos à frente do Ação Direta, está entre os melhores letristas em atualidade e que vem sempre acompanhado de músicos eficientes na elaboração de linhas tão raivosas quanto as suas composições. No caso da Letall, isso fica em evidência nas canções “No Campo da Ciência”, “3000 voltz”, “Seres Obsoletos” e “Máquina de Propaganda”.

No entanto, todo o álbum parece muito bem alinhado na tradução da sociedade atual, seja nas palavras da faixa “Democracia Sepultada” ou “Crise de Consciência” e, principalmente, na música que dá nome ao álbum e que traz a frase “os fatos perderam a importância”.

Definitivamente, a Letall se torna exatamente o que diz a faixa “Desumanizados”: eles são os doidos que denunciam as loucuras dos normais. O álbum é forte e faz jus ao nome da banda, já que irá exigir de você no mínimo alguma reflexão.

Vale correr atrás desse material que se transformou em item básico na discografia do hardcore e um dos melhores lançamentos de 2016. Aproveite e leia a nossa entrevista com o Gepeto – basta clicar AQUI.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.