segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Nada Pop

A história do Ariel e do punk se misturam em documentário

“não é um documentário do Ariel, é de todo mundo”

Sábado, 10 de setembro, estava no centro pra pegar meu baixo com um luthier e cheguei bem cedo na Galeria Olido, encontrei o Limão  e o Popó (respectivamente baterista e guitarrista dos Invasores de Cérebros) passando o som. Popó acabou pedindo pra eu ligar o baixo pra ajudar a regular tudo, com a presença do Luiz (guitarrista da época em que eu toquei na banda) já começou a passar um filme em minha mente, era só o começo das emoções que estavam por vir.

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Cartaz do documentário “Ariel – Sempre pelas ruas”, de Marcelo Appezzato.

17h30, hora de começar o documentário “Ariel, sempre pelas ruas”. Ariel me confessa que não quis ver antes o resultado final e que seria a primeira vez dele também. Cinema lotado, várias gerações de Punks que outrora foram rivais estavam juntos, a amizade foi consolidada anos atrás, décadas, lógico, o movimento evoluiu, amadureceu e isso fica nítido quando membros das gangues que surgiram na década de 70, pioneiras do movimento no Brasil, dão seus depoimentos sobre nosso movimento, que continua a ser de natureza rebelde e agressiva, porém, estes sentimentos hoje são canalizados e externados de outras formas.

As trajetórias das bandas Restos de Nada, Desiquilíbrio, Invasores de Cérebros e Inocentes no começo dos anos 1980 ganham narrações de seus protagonistas. As lutas sociais mostram sua importância, essa prática traz melhores resultados do que a ingênua ou maldosa ilusão de melhorias através de lutas partidárias. A concepção sobre a instituição nomeada de família, mostrando como esta geralmente atua de forma opressora e de dominação, e também como esta pode se manifestar de maneira positiva, e se estendendo para fora dos limites sanguíneos. O documentário mostra a influência do Ariel para o movimento, todos beberam de sua fonte, de sua representação rebelde e ácrata.

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O filme conta com diversos depoimentos, entre eles o de Fábio Massari – Foto: reprodução

Corram para ver assistir, e pra quem assistiu, fica o gosto de quero ver novamente, mas por enquanto ainda estamos pensando, analisando, esperando a ficha cair, e que caia rápido, o quanto antes, pena que para alguns essa ficha nunca irá cair, mas seguimos firmes, porque o movimento Punk é nossa vida e a maior prova de que a autogestão é mais do que possível, ela é necessária.

Depois rolou o show da banda Invasores de Cérebros, pra você que conhece a banda, acho que é desnecessário dizer o quanto foi foda. Êra Invasores, vocês são zica demais.

Valeu Marcelo Apezzato, valeu Ariel, e continuamos a construir a nossa história, porque nós somos da cidade de São Paulo, onde o Punk é pra valer.

Ahhh, alguém sabe o nome da namorada do Magrão? Difícil né? Nem ele sabe…

Depoimentos colhidos depois do show

Tina (produtora dos Invasores de Cérebros e companheira do Ariel): “Foi muito forte, porque a importância que o documentário tem no movimento… eu acho assim, não é um documentário do Ariel, é de todo mundo, porque todo mundo é da rua, todo mundo fez parte deste movimento e foi foda, hoje foi foda, sabe, porque assim, o Marcelo, o diretor mandou muito bem, ficou muito foda, quem viu tem vontade de ver mais, porque eu acho que a história não parou ali, ela continua, é muita, muita coisa, não é simplesmente um depoimentinho aqui, outro ali, porque nós na época, não nos víamos só daqui um mês, daqui um ano, era todo dia, todo dia tem uma história, sabe, toda hora tinha uma história e eu acho assim, se vier mais documentários, não só parar nesse, é a instigação de que queremos mais, ficou na veia de todo mundo e na cabeça de todo mundo, eu quero mais, eu quero saber mais histórias e não só a nossa, como eu acho que a história de hoje, esta história de hoje, tem que ficar marcada pro amanhã, porque a nossa já foi, hoje é outra, sabe, será que daqui a trinta anos, nós vamos estar vivos? Não. Quem vai estar vivo são vocês e eu desejo de coração que surja alguém e faça um documentário, caralho, a cena de hoje, sabe, foi bonito? Foi legal? Foi. Mas é a nossa cena, é o nosso passado, e daqui a trinta anos, qual será o passado de vocês?”

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João Gordo também participa do documentário sobre o Ariel – Foto: reprodução

“O Ariel e a Tina foram pessoas que nunca saíram do rolê, teve um monte de gente que voltou, ficou só alguns anos, mas eles não né, tipo, viveram o lado legal, dentro do possível pra Punk e o lado pesado”

Marcelo Apezzato (diretor do documentário Ariel – Sempre pelas ruas): “Meu, não tenho muito o que falar, o Ariel e a Tina, eu não sei, a ideia surgiu quando eu estava fazendo o documentário do Ratos de Porão, eu entrevistei eles pro documentário do “Crucificados pelo Sistema” do Ratos e meu, entrevistando eles, eu pensei comigo, no meio da entrevista e falei “meu, como é que ninguém fez ainda alguma coisa com eles?”. Porque eu lembro que desde a época do “Guidable” o João Gordo já comentava das histórias deles, porque o Ariel e a Tina foram pessoas que nunca saíram do rolê, teve um monte de gente que voltou, ficou só alguns anos, mas eles não né, tipo, viveram o lado legal, dentro do possível pra Punk e o lado pesado, as tretas, altas tretas emblemáticas que eu escuto desde criança. Tipo, Toy Dolls, Ramones, treta com careca e etc. E como é que ninguém pensou nisso antes? E eu tentei chamar os camaradas que eram diretores, mas eu sou roteirista, foda-se é faça você mesmo, então eu vou fazer, ninguém quis fazer e vamos aí, eles toparam para o meu prazer. Não tenho nem palavras, não tem mérito nenhum meu, eu só topei fazer o que eu gosto, conhecendo pessoas que eu admirei desde que eu escutei o “Road to Ruin” dos Ramones, é o tipo de gente que eu sempre admirei, eu agradeço a eles e a todo mundo que participou e acho que é uma puta generosidade do Ariel, porque ele que fez questão de colocar o pessoal do ABC, os Anjos, porque o primeiro pensamento era um filme sobre ele e a família, só que ele fez questão de mostrar um monte de gente que tem um valor fudido, como você Fábião”.

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Clemente (Inocentes) e o diretor Marcelo Appezzato – Foto: divulgação

“Muita gente pensa que o movimento Punk é só um estilo musical, mas o movimento Punk é muito mais do que isso”

Lery (filho): “É uma necessidade pra história do Punk Rock brasileiro, todos conhecem o Ariel, mas, talvez não conheçam a verdadeira história dele, através do movimento Punk, através do que que ele influencia pra todas as futuras gerações. O primordial deste documentário é mostrar a verdade, que muitas vezes era deixado de lado, as drogas, as gangues, e o que que foi o movimento Punk, porque muita gente pensa que o movimento Punk é só um estilo musical, mas o movimento Punk é muito mais do que isso, acima do estilo musical, ele tem uma ideologia que é a ideologia anarquista. O documentário quis unir as gangues que entre si, na época, eram de conflitos, a ideologia era uma só, que era o anarquismo, e o lado contrário, que eram os carecas e o nazistas, querendo ou não, ele foi necessário pra contar a história. O Punk surgiu do capitalismo, de quem sofreu com o capitalismo, então, eu acho que o documentário do meu pai é essencial pra história do Punk Rock brasileiro.”

Miro de Melo (Lixomania, 365 e Brega Punks): “Foi lindo, eu fiquei emocionado, se tem alguém verdadeiro e que eu admiro demais dentro do movimento Punk, este alguém é o Ariel”.

“Gaste o mesmo tempo contra o sistema, contra o governo podre que nós temos”

Manuel Manus (Punk da primeira geração e amigo do Ariel): “Eu espero que a molecada que esta aí hoje, dando continuidade no Movimento Punk, não faça, não cometa o mesmo erro que nós cometemos, de gastar todo nosso tempo em treta de distrito, de bairro e o caralho a quatro, gaste o mesmo tempo contra o sistema, contra o governo podre que nós temos.”

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Fabião (Olho Seco) e o diretor Marcelo Appazzato – Foto: divulgação

Lucinha Patricio (Punk da primeira geração e amiga do Ariel): “Então, é assim, eu acho que pra cada um este documentário teve uma importância, pra uns mais, pra outros menos né, eu quero falar assim, aquela sessão de nostalgia que pra quem não viveu aquela época, gente, vocês não tem noção como era legal, coisa assim de sentimento, tem gente que está chorando, e eu entendi, claro que entendi. Então, pra cada um teve um significado, pra mim e pra muita gente daquela geração, tem um significado muito forte.”

“Neste documentário, o direto Marcelo nos apresenta com habilidade inconteste, fragmentos e estilhaços de amor e ódio, dos pensamentos e experiências deste que é unanimemente reconhecido como um dos pioneiros e, até nossos dias, uma das principais colunas do movimento Punk”

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Phuneral Punk – Foto: divulgação

Fábio Braga (baixista do Olho Seco e Guetto Hardcore): “Isto que aconteceu hoje é importante pra caramba, porque ele documenta uma coisa muito importante que é mostrar o nascimento do Punk, muita coisa que quem conhece Punk Rock de verdade, veja, ficou bom pra caramba, eu recomendo pra caramba, pode pá.”

Arão (Phuneral Punk): “Se você curte Punk provavelmente já ouviu falar de Ariel, o Invasor, mas se você é Punk mesmo, você já se encontraram por aí, nessa nossa cinza megalópole, onde o Punk é pra valer. Neste documentário, o diretor Marcelo nos apresenta com habilidade inconteste, fragmentos e estilhaços de amor e ódio, dos pensamentos e experiências deste que é unanimemente reconhecido como um dos pioneiros e, até nossos dias, uma das principais colunas do movimento Punk. Um verdadeiro ícone musical e ideológico, para diversas gerações, e que sempre foi o que é, um Punk pra valer. Documentário excelente, de visão intra-uterina, produzido e dirigido por quem respira o mesmo ar. Um evento deste porte, ao lado da Galeria do Rock, centro de São Paulo, com desfecho de Invasores ao vivo, perfeito. Muitos curtem Punk, porque alguns se entregam de corpo e alma, se arriscam, gastam até o que não tem para continuar produzindo cultura Punk e demostrar que Punk é bem mais que três notas, bebidas e tretas. Devemos muito a estes dois caras cascudos, sobreviventes e de mentes brilhantes.”

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Sobre o autor

Fábio Rodarte

Fábio Rodarte é colaborador do Nada Pop e integrante da banda Kaos 64.

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