terça-feira, 16 de Janeiro de 2018
Nada Pop

A Ferramenta em Campo Grande, o relato

A Ferramenta em Campo Grande, o Registro
Por Raphael Sanz, baixista da Ferramenta

Nos trombamos por volta das 18h do dia primeiro de novembro aqui em casa. A viagem seria longa, exatamente mil quilômetros dentro de um carro, e só eu tinha a CNH em dia. Mas as incertezas em relação ao caminho eram exatamente o oposto da expectativa da chegada.

Meus amigos de década Lipe e Binha, aqui da zona norte, se mudaram pra lá faz uns cinco anos. Eles já tinham passado por várias bandas aqui em São Paulo. Que eu me lembre Deturpados, Parasitas, Fecaloma, Colégio Interno e Ácratas são algumas delas. Dois monstros sagrados do punk rock e gente que quero sempre ter por perto. Mudando pra lá, óbvio, eles não conseguiram parar com o barulho.

Em cinco anos fizeram amizade com toda a cena campograndense, montaram a Intervenção junto com a Wanessa, a Binha entrou para o Toca Fitas, banda local de ska punk que recomendamos muito (tem no bandcamp) e abriram um bar, o Resista! Na frente do Resista fica o Holandês Voador e, ao invés de competir, eles cooperam, e todo dia tem um show de banda autoral naquela esquina, até o sol raiar.

Mas era longe pra caralho! E mesmo que A Ferramenta seja uma banda com alguns bons anos de existência (desde 2011), com dois discos lançados e por aí vai – nunca tínhamos feito um rolê fora de São Paulo. Essas coisas que acontecem com bandas independentes, do tipo ter um show marcado e precisar desmarcar porque alguém teria de trabalhar num sábado de feriado, por exemplo.

Não é nada fácil manter uma banda independente em nenhum lugar. Em São Paulo, apesar da grande cidade oferecer uma estrutura um pouco mais numerosa, continua sendo muito difícil. Isso sem contar alguns problemas específicos da cena punk/hc daqui que mereceriam um artigo próprio, só pra falar disso.

Acontece o seguinte: a gente não vive da banda. Gostaríamos, mas não é o caso. E nesse caso da viagem a Campo Grande, perdemos o nosso vocalista Alonzo, el Chaska, para o mercado de trabalho predatório que o deixou na mão o ano inteiro, mas resolveu chamá-lo justamente no feriado em que íamos fazer a turnê certeira. Maldito capitalismo!

Podíamos estar sofrendo de véspera e inventando desculpas pra não ir porque nosso vocalista não poderia ir ou porque a viagem era muito longa. Mas sabíamos onde estávamos indo. Simplesmente ignoramos tudo isso, fizemos uns lanches e um balde térmico de café e subimos no carro, Guilherme, Régis, eu e o Larson, um camarada que topou, de última hora, nos acompanhar. Caímos na estrada umas onze da noite, depois de comer e tirar um cochilo em casa.

Tranquilo pela Castelo Branco e então pegamos a Marechal Rondon, e fomos madrugada adentro ouvindo a discografia completa do Clash e uns CDs do Bad Brains, Black Flag, Ratos de Porão, Desacato Civil, Pé Sujus e Grand Collapse (esse um presente antigo do incrível Punky Steve, punk inglês-escocês que nos conhece, eu, Lipe e Binha, faz muitos anos e estava em Campo Grande na ocasião – torcedor fanático do Carlisle United).

Saímos de São Paulo com 200 mango da banda, recolhidos em venda de camiseta e CDs. O suficiente pra metade da ida. E o resto da viagem cada um colocou cinquentão e chegamos lá. Sem grandes emoções, tirando um caminhão filho da miséria, já no Mato Grosso. Faltando uns 200 km, entreguei o volante pro Larson.

A volta é que foi foda. Tempestade apocalíptica durante todo o estado do Mato Grosso do Sul, enquadro na fronteira com direito a 4 tentativas frustradas do gambé de me pegar no bafômetro. E depois disso, duas centenas de quilômetros sem nenhum posto aberto.

Nesse enquadro, fomos salvos pelo chorume. O policial puto porque meu bafômetro deu zero (e nem eu sei como isso foi possível) pediu pra abrir o porta-malas para “dar uma olhada”, no melhor estilo “se eu achar vai ser pior”. Quando abri o porta-malas, subiu aquele cheiro azedo, de roupa molhada, podre, terra batida, lixo e tudo que possa ter o pior cheiro do planeta – menos merda porque ninguém cagou no carro. Ele desistiu. Mandou a gente vazar. Mas isso foi já na volta. Voltemos pra ida.

Quando chegamos na casa do Lipe e da Binha, eles simplesmente nos receberam com comida pra caralho e um canto pra gente dormir. Isso era meio dia de quinta-feira (2/11) e mais tarde ia começar o rolê. No fundo da casa morava uma família de araras-canindé, soltas. E o Lipe lançou: “o Canindé me persegue”. Ele é fanático da Portuguesa desde moleque. No riacho descendo a rua tinham muitas capivaras e o pessoal disse que as vezes aparecem também uns jacarés. A casa era meio afastada do centro, onde ficavam os bares.

Porta do Resista!

Por volta das oito horas da noite chegamos na esquina do underground de Campo Grande. Do outro lado da rua ficava o Holandês Voador, onde tocaríamos no dia seguinte. Do lado de cá, o Resista! Acabava de começar a exibição do filme Mina Solitária, de Loren Berlin.

A gente montou uma banquinha lá dentro e foi tomar uma cerveja com a galera que estava na rua. Foi uma satisfação muito grande. Em São Paulo, quem é A Ferramenta? Um banda aí que fala de política, uns comunistas, anarquistas, badernistas. Mas numa capital que fica a uma milha de quilômetros de qualquer outra capital, seja São Paulo, Curitiba, Cuiabá ou Santa Cruz de la Sierra, o pessoal valoriza demais. A galera vinha falar com a gente, dizer que não conhecia mas quando viu que ia tocar na cidade, foram atrás de conhecer. Uns caras comentaram umas letras com a gente. Um deles, fã do Paulo Leminski, veio perguntar quem fez Além, que ele tinha curtido (foram o André, ex/eterno guitarrista e o Régis). Na hora que tocamos essa música, esse cara pegou o microfone e cantou um pedaço com a gente. Um bagulho simplesmente impagável.

A primeira banda do dia foi o Aedes Aegypti, infelizmente ficamos devendo um depoimento deles no Registro, mas todos os depoimentos nós pegamos no dia seguinte. Naquela quinta-feira estávamos mortos. O Larson foi parceiro de fazer umas filmagens das bandas, do lugar e das pessoas pra nós.

O Aedes Aegypti tocar foi uma coisa muito louca. Os caras não tocavam desde 2006, e essa foi a volta deles. Uma banda das antiga de Campo Grande fazendo um bom e velho punk rock nacional.

Aedes Aegypti ao vivo no Resista!

Na sequência tocou O Lixo e a Fúria, banda que o Jorge é vocalista, um cara muito firmeza. Ele mora dentro do Holandês Voador, é também o dono do bar. O cara antes de começar a primeira banda, de chinelo, pisou no prego e abriu uma cratera na sola do pé. Nem se abalou. Fez tudo o que tinha que fazer. Inclusive cantar no Lixo e a Fúria um som muito louco, que mistura um hardcore pegada Dead Kennedys, Bad Brains e Black Flag com um pouco de Ramonismo. E logo depois deles vieram os Vermes com um punk rock muito foda, um power trio que lembra bastante o Cólera – e não é por causa dos covers que eles fizeram.

E daí nós tocamos, e foi foda pra caralho. Conseguimos dar um jeito no vocal e fomos pra cima. Nas primeiras músicas o pessoal ainda estava um pouco devagar, mas depois todo mundo começou a agitar. Foi fudido demais!

Dentro do Holandês Voador.

No dia 3 acordamos tarde pra cacete e já fomos direto pro Holandês Voador. Descansamos, conseguimos desfrutar mais do rolê. Trocar mais ideias com o pessoal, e na hora de tocar, o som ficou com mais energia do que no dia anterior. Conhecemos uma par de gente lá fora, gente das antigas e molecada. O vocalista da histórica banda Muleque Sarnento tava lá, eu tava bêbado e não lembro o nome dele, mas fica o registro que esse cara é muito sangue bom. Rolê suave, todo mundo dentro do bar e na rua, nenhuma treta, nenhuma ideia errada.

Tocou a Maçã Podre, depois o Bizonhentos, duas bandas muito boas da cidade. Maçã Podre com apenas três meses de banda e os Bizonhentos com a mesma idade que A Ferramenta. Muito bons os shows. Na última música da Maçã Podre, o cara do Muleque Sarnento subiu no palco e eles tocaram uma música dos sarnentos. Já a banda mais bizonhenta da cidade depois de mandar suas músicas próprias, tocaram uma par de clássico de banda nacional. Bagulho foi intenso.

Na sequência subiu o Intervenção, banda do Lipe, da Binha e da Wanessa. Sem palavras pra descrever essa banda. Se você tá lendo até aqui, vai no Bandcamp e escuta. Tá lá como Intervenção Punk Rock. É uma banda fudida, um power trio com três monstros sagrados. Os caras vão de Bella Ciao a Surf Music, do Hardcore ao Punk 77. “Os preguiçosos dão preguiça” é o som que eu mais gostei deles, muito didático nesses tempos que fascistinhas ficam pondo as mangas de fora por aí.

E lá fomos nós fazer um dos melhores shows em sete anos de banda. Voltaremos (com o nosso vocalista, Alonzo).

Mas por que tô escrevendo esse relato? Primeiro porque é importante pra banda contar essa história da nossa primeira turnê, e já estamos ficando velhinhos, ela acabou vindo meio tarde pra nós. Mas não só isso. Além da amizade, de velhos e novos amigos, da comida, da cerveja barata, da adrenalina do palco e da estrada, dos shows catárticos e de tudo isso, tem um ponto que eu acho importante falar a respeito: aquela coisa da filosofia, do novo mundo possível. E pra chegar nesse ponto, preciso falar umas coisas dos eventos sob um ponto de vista técnico, de um cara que além de ser público (sempre tô colando em shows por aí), também toca em banda e organiza uns rolês pra própria banda tocar.

Primeiro, em nenhuma das duas noites o pessoal tinha que pagar pra entrar. A portaria era aberta. O que a gente pedia, com ajuda das casas no reforço do pedido, era uma contribuição de cinco reais e quem dava, ganhava um CD nosso. E muita gente fez questão de contribuir. A maioria.

Além disso, cada bar nos deu uma grana, e também uma loja local de camisetas e discos que fica no Mercado Japonês nos deixou uma grana. Em troca deixamos uma par de CD e umas camisetas com eles.

E por causa dessas pequenas coisas, foi possível fazer todo o rolê e não tomar preju, ao mesmo tempo que eles também não ficaram na mão pra nos levar pra lá. Foi um rolê perfeito. Primeiro pela coisa humana, pela energia que estava ali e pelas bandas que tocaram junto conosco que eram muito boas todas elas. Segundo porque ninguém se deu mal. Nem os organizadores, nem nós com nossa viagem de 2 mil quilômetros, nem o público – além das entradas grátis, o preço da bebida não era explorador, diferente de muitas casas daqui da cidade cinza.

“Mas como isso é possível?” – pergunta o paulistano. Simples, são muitas pessoas envolvidas ali, não apenas as que eu citei mas muita gente entre bares, bandas e etc. (e que também são público, ainda que não toquem no dia), que realmente colocam em prática os valores fundadores do underground. Aquela coisa da cooperação, do apoio mútuo, do faça você mesmo. Os dois bares cooperam entre si. Não competem, cooperam. Se um toca banda, o outro passa filme. Se a banda começa tarde, o bar A abre mais tarde, pro bar B vender sua cerveja mais cedo. Quando vem banda de fora, toca uma noite em um e outra no outro. E por aí vai.

O público faz questão de apoiar as bandas. Não só fizeram questão de nos dar cinco mango pra viagem, como também não foram poucas as camisetas de bandas locais, Bizonhentos por exemplo, vestindo a galera.

Às vezes eu vejo muita gente aqui em São Paulo dizendo que a cena está falida, que ninguém está nem aí pra nada, que isso que aquilo. Eu também tenho meus lamentos pra fazer. Mas nesse mundinho conservador de merda, quem faz um som autoral e crítico tem a faca e o queijo na mão. É tudo uma questão de mentalidade. Aquela coisinha chata que uns punk chato falavam de “ser a mudança que você quer ver no mundo”. A gente pode e deve apresentar algo diferente, mais solidário, mais respeitoso, cooperativo. Só assim é possível driblar as dificuldades e fazer as coisas acontecerem.

Si, se puede.

Tatuagem que Punky Steve fez após colar em Campo Grande a primeira vez.

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