quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

A cena independente do selfie e likes no Facebook

Olha só, o Nada Pop quase chegou ao fim. O bizarro é que não foi por falta de vontade de continuar, ao contrário, nosso serviço de hospedagem é que não estava aguentando o tranco do número de acessos. Já imagino o Zé Povinho falando “uau, cês tão famoso hein, cabuloso o bagulho aí né tiozão?”. Não, longe disso. Apenas o nosso plano contratado era inferior ao que estávamos atingindo. Tivemos que mudar de serviço, migrar o site, essas coisas. Mas devido aos preços dos pacotes de hospedagem, realmente cheguei a pensar que era o fim. Porém, conseguimos ajuda de um amigo que manja dos paranauê e nos socorreu indicando lugares com bons preços e hospedagens melhores. E voilá, aqui estamos.

Mas o curto período no qual o Nada Pop ficou fora do ar me fez repensar algumas coisas, analisar outras e reavaliar todo o nosso trabalho até aqui. Realmente conseguimos algo especial, autêntico e que foi ao longo desses três anos de existência se ampliando. Tudo no NP foi feito com o máximo de respeito às bandas e aos leitores com o único objetivo de propagar a música para o maior número de pessoas. Afinal, a música tem esse poder de nos conectar, certo? No caso da música independente ela tem outro fator, ela é o pano de fundo para muitas outras coisas também como amizade, conscientização, respeito e até o amor. Parece meio clichê dizer isso, né? Mas é real.

Muitas vezes sair de casa para assistir um show era a única coisa que fazia minha semana melhor, saber que encontraria amigos e poderia relaxar gritando bem alto o refrão que dizia exatamente para nos libertar. O mosh era um ato de coragem e confiança, seu corpo saltando no vazio para ser sustentado por outros corpos que você não tinha nem ideia de quem eram. Tudo isso porque estávamos todos, de certo modo, sentindo a mesma energia, tentando amenizar os problemas da próxima semana e buscando nos libertar de algo que nos aprisionava num mundo que não nos compreendia e nem fazia questão disso. Ali, durante um show, éramos todos iguais. Podemos até envelhecer, criar outras responsabilidades, mas a sensação de que ainda não estamos de acordo com o mundo se mantém e a música e os shows conseguem ser uma das poucas coisas que nos estimula a continuar.

Assim nasceu o Nada Pop, com essa sensação que não estou de acordo com o mundo e que de alguma forma precisávamos fazer algo para não enlouquecer e quem sabe contribuir para divulgar bandas e shows. Deu certo, mas a qual preço? Em média recebemos de 10 a 15 e-mails por dia de bandas ou de suas assessorias de imprensa, eventos de diferentes estilos e formatos, selos e até estúdios. Fizemos sempre o possível para divulgar todos os trampos que chegavam até o NP após avaliar se não existia alguma coisa ali que fugia da nossa proposta, ou seja, bandas racistas, homofóbicas ou até mesmo conservadores a tal ponto de gritar por extinção de direitos ao invés de liberdade.

Foram muitas madrugadas até tarde escrevendo textos e fechando publicações. Em alguns momentos passava mais tempo no computador do que com a minha família. Fiquei um bom tempo utilizando (para não dizer que ainda utilizo) o tempo livre no trabalho e horário do almoço para fazer coisas relacionadas ao Nada Pop. Nunca exigi nada em troca, nem que a banda compartilhasse publicação, nem por likes e muito menos dinheiro. Fiz tudo isso porque quis, faço até hoje porque quero. Conheci muita gente legal por meio do NP e muita banda boa já passou por aqui e espero que muitas outras continuem passando.

Para nos ajudar ou apenas estimular que outras ideias circulem pelo site, muita gente foi convidada para ser colaboradora ou até colunista. O envolvimento foi grande e quem topou a ideia contribui ou contribuiu como pôde e agradeço a cada um deles por essa confiança. O cenário independente não se faz sozinho e por que um site como o nosso iria se fazer? Nem queremos nada sozinho.

Mas tem horas que é insano, é impossível lidar com a quantidade de banda que envia material, fazer boas resenhas e até entrevistas. Não dá tempo, o NP não é meu trabalho e preciso cuidar da minha família e aproveitar cada momento do crescimento da minha filha. Eu pago o site do meu próprio bolso e nunca almejei viver disso, no máximo fazer ele se manter sozinho. É muito complicado gastar um bom tempo caprichando em uma resenha de uma banda que curti e perceber que a banda em si não valoriza seu trabalho. Felizmente não são todas as bandas que agem dessa forma, mas tenho percebido que boa parte delas realmente não valoriza.

E como o Marcelo Coleto, do Rock Noize, disse: “A grande maioria não entende assim. A verdade é que a grande maioria se acha estrela e manda o release torcendo pra você publicar e mais gente ouvir o som delas. Fim. Muitas vezes ela nem sabe pra onde o material está sendo enviado ou onde foi publicado. Várias delas têm assessorias”.

Para muitas dessas bandas somos só mais um sitezinho qualquer que ela conta para divulgar sua música, seu show. Que fique bem claro que não considero o NP especial, mas essas bandas não estão nem ligando se você ouviu o som, só querem aparecer e mostrar para os amiguinhos. Tem banda que prefere uma notinha qualquer no Tenho Mais Discos Que Amigos ou na Noisey do que uma matéria bacana ou entrevista em outros sites menores. É triste e patético ao mesmo tempo.

Esse papo vai longe e como disse, não vou ficar exigindo nada de ninguém. Mas na cena independente e alternativa não consigo imaginar ninguém crescendo, sejam casas, bandas ou sites, sem ajuda mútua. É assim que vejo e assim que o próprio circuito me mostrou.

Por isso sinto que preciso retomar o NP para certos valores, independente de cliques ou compartilhamentos. Assim, seremos mais seletivos nas pautas, publicações, continuaremos valorizando o trabalho das bandas autorais, porém mais atentos a bandas que só querem usar o espaço e não acompanham nada do que fazemos por aqui (isso inclui muitas bandas punks também que batem no peito por união e só olham o próprio umbigo).

Mas antes que alguém questione qualquer coisa, o espaço continuará sendo gratuito para as bandas. Tentaremos viabilizar nossos custos com “patrocinadores” ou por meio de eventos que levem o nosso nome. Quando ficamos fora do ar muitos sugeriram um tipo de financiamento colaborativo. Me emocionei com gente querendo organizar shows para arrecadar dinheiro ou apenas tirar do seu bolso para ajudar o NP. Sinal que conseguimos algo de valor, algo que vale a pena continuar.

Espero que as bandas pensem no que elas buscam e como gostariam de ver seu trabalho divulgado e da forma como o público os conheça. Da nossa parte vamos continuar fazendo o necessário como mídia independente. Não quero concorrer com ninguém e tudo o que buscamos é qualidade no que estamos fazendo. Assim, prefiro ver o NP encerrado a achar que ele está caminhando para algo meia boca.

Sei das dificuldades das bandas em produzir um bom material aqui no Brasil. Instrumentos são caros, espaços são poucos e o público tem frequentado menos os rolês. Falo tudo isso como alguém que já vivenciou a música tocando em bandas também.

Mas se você leu esse texto até aqui, gosta do NP ou considera esse trabalho válido, espero que continue nos acompanhando. Só vamos acabar quando for difícil demais seguir, esperamos ainda provocar seu interesse e consciência. Estamos longe de qualquer acordo com o mundo e acredito que você também.

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.