sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

A Barbárie nunca foi tão boa aos ouvidos

O que eu desejo pra explorador
Não é justiça burguesa
É pedrada na sua SUV
Incêndio na sua empresa
Um valet… para o inferno

Estava de boa numa terça-feira, enrolando mais uma vez no trabalho, fuçando de forma descompromissada pela internet, esse mundo ora vazio ora cheio de esperança e luz, quando o Felipe Sunaitis sorrateiramente me manda um simples link pelo messenger do Facebook:

“Fala aí man, tudo blz? Uns parceiros montaram uma banda nova e lançaram um ep em vídeo… auhauhaa… uma brisa deles, segue aí caso interesse”.

Cliquei no link e acessei o vídeo por alguns instantes. Resolvi guardar para ouvir melhor depois, mas os segundos que vi e ouvi me deixaram surpreso. “Acho que isso aqui merece mais atenção, mas é melhor voltar ao trabalho”, pensei. Quando tive possibilidade de ver e ouvir os quase 12 minutos de vídeo a sensação que tive foi quase a mesma quando ouvi a banda Ferramenta: “Como podem dizer que o rock morreu? Ele está vivo e ainda mais afiado!”.

Não vai ser disco voador nem Godzilla,
vai ser capitalismo e seu progresso tomado como norma histórica
Desastre ecológico, epidemia, acidente nuclear
Guerra mundial, caos generalizado,
Ou surto psicótico coletivo,
fruto da degradação das condições de vida da mão-de-obra alienada
Isso que você tá vendo
É um sinal dos tempos
Um monumento à ruína
Do mundo civilizado

A Barbárie apresenta o que acredito ser o próximo passo das bandas no lançamento de seus trabalhos, um EP Vídeo. Talvez não sejam os pioneiros neste formato, mas a ideia de todo o EP Vídeo se transforma numa novidade não só genial como também faz crer que apesar de todo o trabalho que deve ter sido feito para criar este projeto, o resultado ainda pode ser ainda mais duradouro. Obviamente, a música sempre será o fator principal não importando o formato. E nisso os caras ainda acertam a mão e se tornam ainda mais relevantes, com críticas sociais e um humor ácido que há tempos não via, não sendo irônicos como o Mukeka di Rato, por exemplo, mas lembrando um pouco o estilo.

Depois de botar fogo nos jardins
Depois de ir cagar no Morumbi
Eu vou cortar a cabeça do Geraldo Alckmin
Eu vou cortar a cabeça do Geraldo Alckmin

naovaihaveramor

O mote principal da banda é São Paulo, a exploração pelo capital e a luta de classes, além do desejo de não mais uma manifestação política de cidadãos comuns, em busca do fim da corrupção no país. Nada disso, eles querem a revolta, cagar na burguesia, queimar exploradores e assassinar políticos de uma forma quase parecida com uma Revolução Francesa.

Deusa… não é uma Deusa?
Nasceu negra num tempo racista
Nasceu mulher num tempo machista
Nasceu pobre num tempo de exploração do trabalho
No país do elevador de serviço
Do apartamento com quarto de empregada
Mas a deusa não abaixa a cabeça
Não aceita humilhação numa boa
Sem mais nada a perder além dos grilhões
Ela mandou um beijo no ombro depois… que envenenou a patroa!

Em todas as quatro músicas deste EP Vídeo é possível sentir o apocalipse se aproximando, se você mora em São Paulo ou se está numa situação parecida com a cidade (falta de água!), talvez consiga vislumbrar pessoas se digladiando por uma garrafa de d’água de 500ml. Bárbarie talvez seja a banda perfeita para essa ocasião, igual aos músicos no Titanic, mas sem água, sendo um deserto vindo em nosso caminho.

Ou  você nem reparou que São Paulo virou um imenso deserto?

Curta a página da banda clicando AQUI.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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