sexta-feira, 22 de maio de 2020
Nada Pop

Rota 54 e a música que é um hino nessa quarentena ganha, finalmente, um clipe

O Caio Uehbe me mandou o link do clipe de ‘Garota Suicida’, faixa que integra o álbum “Náusea” do Rota 54, lançado no ano passado e quando ainda nem tínhamos ideia de uma possível pandemia capaz de afligir o mundo poucos meses depois.

Caio é o guitarrista do Rota, que ao lado de Cesar Hiro (baixo e voz), Ricardo Faga (guitarra) e Minoru Slot (bateria), criaram um dos melhores álbuns de 2019, no qual tivemos o prazer de bater um papo bem interessante a respeito (entre outros assuntos) e que você poderá acessar neste link: “Usando o punk como consciência de mundo”.

Volto a falar do Caio, pois ele é um daqueles caras mega inteligentes, que cuida do corpo e da mente, dono de grande simpatia e que ainda guarda o sonho de fazer parte de uma mudança positiva no mundo. Talvez eu tenha perdido esse sonho, talvez, mas é bom ter pessoas como o Caio por perto para que a gente não deixe esse chama acabar de vez dentro da gente, por mais que bolsonaristas, terraplanistas, negacionistas, entre outros ‘istas’ tentem. Aproveitando, conheça o blog do Caio, chamado Tropicalizando-se, sobre assuntos que buscam romper com visões racistas, patriarcais, conservadores e capitalistas. Em resumo, como a própria apresentação do blog diz, que traz “uma ruptura que se dará através da arte, da cultura, da educação e da política!”. Vai lá, recomendo, e tem mais gente com ele nesse novo projeto.

Mas voltando ao clipe de ‘Garota Suicida’, que por sinal é muito bonito visualmente e foi dirigido por João Pedro Feitosa, Arianny Rosso Beviani e João Victor Andrade. Já a captação das imagens aconteceu no estúdio em que o Rota 54 ensaia, com as cenas externas gravadas nas ruas de São Paulo. Parabéns aos envolvidos, só tenho elogios ao visual, mas é a música (sempre) que me fez ficar novamente grudado nessa faixa.

A música da quarentena

‘Garota Suicida’ é um hino e finalmente eu me dei conta disso… Sim, não era uma das músicas que mais gostava do disco, mas esse clipe, esse momento da pandemia, mais uma vez, essa temática da morte em constante presença. Sério, não tem como criar alguma relação e isso fez com que eu demorasse até para escrever esse texto. “O tempo é de matar. Tem insônia, não passam as horas (…) Seriam as ruas de São Paulo o palco pra um jogo de azar? Dê as cartas, a sorte está lançada (…) Mais uma alma perdida…”.

É exatamente assim que parece que estamos, onde sair de casa nesse momento parece um suicídio e as pessoas que você ama, ou as que você nem conhece, mas reconhece os sacrifícios que boa parte das pessoas está fazendo para não levar qualquer risco para dentro de casa e até lutando por suas vidas de uma forma que até então não se imaginava.

Claro, todos os que possuem um pouco mais de compreensão da atual situação do país sabem da importância do distanciamento e isolamento sociais como combate ao coronavírus. Sem contar, é claro, das medidas de higiene, como lavar as mãos com água e sabão, ou se higienizar com álcool em gel, manter o ambiente arejado, entre outros. Mas e a saúde mental? Como fica? Ela também merece cuidados especiais e nesse momento de muita ansiedade e angústia devemos amenizar – ou fazer de tudo o possível – esse sentimento dentro de nós. No portal de notícias sobre saúde do médico Drauzio Varella, temos um podcast exatamente sobre assunto.

Não se engane, ansiedade e angústia podem ser gatilhos para a depressão. Para a psicologa Júlia Daher Fink, entrevistada pelo podcast Entrementes, ela relata que “qualquer condição de incontrolabilidade, de baixa controlabilidade ou de dificuldade de previsão do que está por vir costumam ser situações que aumentam o nível de ansiedade, a frequência dessas respostas e a intensidade delas”.

É claro que o Rota 54 não compôs “Garota Suicida’ pensando em uma pandemia, que sequer existia na época, mas como a própria Júlia Daher explica, quanto “mais incontrolável é um contexto, mais a gente vai apresentar respostas ansiosas; e quanto menos controle a gente tem, ao longo do tempo, além da ansiedade, a gente pode ter um fenômeno chamado “desamparo aprendido” — que é um fenômeno mais parecido com a depressão”. Não é à toa que o Rota canta que “ela não pode morrer, a morte não lhe dá prazer”. É exatamente isso, não vamos encontrar na morte qualquer resposta ou descanso, por isso precisamos continuar.

Mantenha os hábitos de higiene, cuide-se e busque fazer algo que te estimule de um jeito ou de outro, tente aprender algo novo, se exercitar dentro de casa, ajude de uma forma segura outras pessoas e, se você é alguém que não consegue ficar em casa por conta do trabalho, continue se protegendo de todas as formas possíveis. Mas lembre-se, cuide da sua saúde mental.

E ouça Rota 54.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop