sexta-feira, 22 de maio de 2020
Nada Pop

[entrevista] Rota 54 lança o álbum “Náusea” usando o punk rock como consciência de mundo

Rota 54 – Foto: Mariane Lima

“O Rota 54 faz punk raiz com um frescor surpreendente, letras fortes e canções para assobiar nas esquinas dos guetos, eu tinha que lançar esse disco”, diz Clemente, vocalista do Inocentes, que diz ter se surpreendido com as canções bem construídas e a mensagem contundente do grupo. “Conheço os garotos desde o começo, essa formação se encaixou muito bem, é um momento especial deles”, completa.

Os 11 anos de estrada do Rota 54 ganharam uma nova fase com o lançamento do álbum “Naúsea”, são sete faixas de puro punk rock e melodias e letras que dão um novo fôlego ao estilo, que fariam bandas como The Clash, Ramones e Cock Sparrer ficarem orgulhosas de ouvir. O disco é o primeiro lançamento do selo Kaos, liderado pelo Clemente Nascimento (Inocentes / Plebe Rude), uma das peças chave do punk nacional e que dispensa (neste momento) apresentações.

“Naúsea” é o quarto lançamento da banda, com origem em 2008 e atualmente formada por Caio Uehbe (voz e guitarra), Cesar Hiro (baixo e voz), Ricardo Faga (guitarra) e Minoru Slot (bateria). A arte do disco foi desenvolvida pelo próprio vocalista, trazendo referências aos primórdios do punk e a estética das ruas, com diversas alusões aos zines, jornais da classe operária, cartazes, stencils e lambe-lambes.

A capa também remete a obra “Guernica” de Pablo Picasso, que retrata os horrores do bombardeio nazista à cidade basca de Guernica, e faz uma metáfora com o poema de Carlos Drummond de Andrade “A Flor e a Náusea”, autor que inspira ainda a composição da música “Dente por Dente” através do “Poema de sete faces”.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Trecho do Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade

“Náusea, sinônimo de nojo, asco, repugnância. Quantas vezes não nos deparamos com tais sentimentos em situações do cotidiano? Como não a sentir diante da notícia de que um pai de família é alvejado com 80 tiros disparados pelo exército ou com a exaltação de um passado marcado por atrocidades que insiste em nos visitar em episódios como o covarde assassinato político de Marielle Franco, que remonta a época da Ditadura Militar? ”, comenta Caio Uehbe.

Cartaz do show de lançamento do álbum “Náusea”, neste sábado (19/10) no Espaço Som, em São Paulo.

Rota 54 – Show de lançamento do álbum “Náusea”

Quando: 19 de outubro (sábado)
Local: Espaço Som – Rua Teodoro Sampaio, 512 (SP)
Horário: A partir das 20h
Entrada: R$ 15
Bandas convidadas: Fibonattis e Dellortos
Discotecagem: Clemente (Inocentes) / Dedé & Hiro
Link do evento no Facebook: https://bit.ly/2MYzrtu

Neste sábado, 19/10, a banda promove o lançamento de “Náusea” no Espaço Som, localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Para esse lançamento a banda contará com a presença do próprio Clemente, além das bandas Fibonattis e Dellortos. O álbum já está nas principais plataformas digitais, mas no show deste sábado estará disponível em CD para compra.

Sobre esse novo trabalho, entrevistamos a banda para falar sobre política, música e os próximos passos do grupo. Confira a entrevista abaixo e não deixe de compartilhar.

Rota 54 em ação! Foto: divulgação

São 11 anos de Rota 54, além de quatro álbuns. Em qual momento na estrada da banda vocês pararam e pensaram “está muito difícil, mas não vamos parar de tocar”?

CAIO UEHBE – Não sei se são os avanços tecnológicos contemporâneos, mas parece que 11 anos foram ontem, às vezes é até estranho parar e pensar que já se passou tanto tempo. Mas óbvio que 11 anos não são 11 dias e nesse período muita coisa aconteceu. Dois momentos marcantes em que a banda teve que parar e refletir sobre o que fazer daquele momento em diante foi quando teve o episódio da morte do nosso primeiro guitarrista, que formou a banda comigo, o Kenzo Simabukulo.

Na época, enquanto ele estava internado, tínhamos alguns shows marcados e refletimos no que seria o desejo dele naquele momento e conversando com sua esposa chegamos à conclusão que ele gostaria continuássemos, e continuar de certa forma não deixa de ser uma forma de celebrar e respeitar a sua memória.

Outro momento crucial foi o anterior a gravação desse disco. Tínhamos recém trocado de baterista com a entrada do Minoru e o guitarrista depois de poucos meses pediu para sair. Ficamos um tempo refletindo se deveríamos continuar depois de tantas mudanças na formação, porque, queira ou não, cada mudança não deixa de ser uma espécie de começar do zero.

CESAR HIRO – Mesmo passando rápido, onze anos é um tempo considerável. A banda sofreu muitas mudanças de formação, se não me engano chegamos até a fazer umas pausas mais longas mas parar mesmo nunca paramos. Sem dúvida a perda do Kenzo marcou bastante, não é fácil lidar com esse tipo de acontecimento. Desde então passamos por várias fases e rolou muita coisa até chegar no momento, quando o Minoru começou a quebrar uns galhos na bateria e o Ricardo voltou para São Paulo de vez. Ali a gente decidiu que ia tocar só o que a gente achava realmente legal, focando em lapidar ao máximo os sons. Foi um passo importante para chegar na sonoridade atual. Desse um ano reclusos ensaiando saiu esse novo trabalho, “Náusea”.

“Eles podem prometer um paraíso/ mas na verdade tudo é um grande precipício / não encontro ninguém”. Essa frase da faixa “Em Ninguém” representa, de certo modo, um niilismo sobre política e sociedade. No entanto, acreditam que não foi a descrença na política que nos levou a um governo de direita?

CAIO UEHBE – Essa música se encaixa em diversas situações da vida em uma sociedade pautada em valores que desumanizam todas as relações, as transformando em meras relações de troca. E numa relação desse tipo sempre há vencedores e perdedores. Te prometem o paraíso, mas no final a realidade é dura e cruel e, se as relações se desumanizam, se torna cada vez mais difícil se identificar com algo ou alguém quando você ainda tenta preservar um mínimo de humanidade dentro de si mesmo.

Analisar o processo de ascensão de governos de extrema direita é algo complexo e resultado de uma somatória de fatores, onde a descrença com a política é apenas uma parte dos fatores responsáveis. Acredito que essa descrença é sobretudo intencional, e isso em escala global. Há um nítido interesse dos agentes hegemônicos contemporâneos materializados nas multinacionais e alinhados com os meios de comunicação de criarem uma ideia negativa da política, porque na ausência do Estado quem domina são esses agentes em favor dos seus interesses particulares.

Não que o Estado não esteja a favor desses interesses, mas ao menos na esfera política governamental há a mínima possibilidade da disputa, quando as empresas privadas assumem o controle através, principalmente, das privatizações, essa disputa se torna cada vez menos possível.

Mais uma do Rota 54 em ação – Foto: divulgação

A faixa “Hiro Song” faz uma referência – mesmo que subjetiva – ao clássico álbum “Miséria e Fome” dos Inocentes. É possível descrever a experiência de trabalhar com uma das referências para a banda? Qual foi o papel principal do Clemente na construção do álbum “Náusea” para vocês?

CAIO UEHBE – Essa música, como o nome sugere, é uma composição do Cesar Hiro, acredito que ele possa falar melhor sobre esse processo criativo.

CESAR HIRO – A referência foi totalmente intencional e para falar a verdade eu não me lembro de ter feito essa associação anteriormente. Que demais, valeu NADA POP (hahaha). A música tem esse nome estranho porque eu tenho muita dificuldade em colocar título nas minhas composições. Aí o Caio escrevia assim no setlist quando a gente ia tocar e ficou por isso mesmo.

CAIO UEHBE – A relação com o Clemente vem de longa data, na verdade ele é uma espécie de “fundador” da banda de certa maneira. Em 2007, a minha banda, Núcleo Zero, que teve um disco produzido pelo Clemente com a participação do Redson na guitarra, tinha terminado. No ano seguinte, o Clemente me colocou em contato com músicos amigos dele, o Paulo que tocava bateria no Lambrusco Kids e o Kenzo Simabukulo guitarrista da banda de metal Salário Mínimo, e acabamos assim montando o Rota 54.

Em 2018, o Rota 54 começou a ensaiar com a nova formação e decidimos ficar o ano todo trabalhando em novas músicas e rearranjos das antigas. Depois de pronta as músicas entrei em contato com o Clemente perguntando se ele conhecia algum produtor para ajudar não só na gravação, mas em tudo que envolve o antes e depois da gravação de um disco e ele rindo respondeu: Eu! Aí marquei de ir na casa dele, mostrei umas gravações que tínhamos feito, ele curtiu bastante e acabamos fechando com ele essa parceria.

Podemos dizer que ele deu o toque final nas músicas, porque elas já estavam praticamente prontas, mas foi fundamental nessa fase final de pré-gravação, alguém de fora para corrigir detalhes que passam desapercebidos para quem compôs as músicas.

CESAR HIRO – Particularmente, considero o Inocentes uma grande referência de música punk feita aqui no Brasil, desde a fase inicial mais rápida até as coisas mais trampadas tipo o Adeus Carne. O fato de o Clemente ter se animado em produzir deu um gás legal para banda, fizemos uma pré-gravação para corrigir os erros e chegamos afiados pra gravar pra valer. O fato de ter um produtor por perto já fez com que a gente adotasse uma postura mais profissional como banda.

Capa do álbum “Náusea”, do Rota 54. A arte do disco foi inspirada no quadro Guernica, de Pablo Picasso.

“Leio o horóscopo e finjo em crer em alguma fé”. Confesso que me identifiquei bastante com essa faixa. Vocês podem falar um pouco dos trabalhos que cada integrante exerce no dia a dia, além da música? Nesse sentido, como enxergam a música e banda como alicerces do que vocês são e pensam?

CAIO UEHBE – Eu sou geógrafo e pedagogo de formação, dei aula desde os meus 20 anos, estou agora com 32, o Hiro por sinal foi aluno meu. Esse ano em particular dei uma pausa nas aulas para refletir melhor sobre o que de fato espero profissionalmente e para refletir sobretudo sobre o papel docente na conjuntura atual. Mas a banda para mim, desde que eu comecei a tocar com meus 15 anos, é algo que eu sempre pensei em levar para a vida toda.

É difícil eu me imaginar sem tocar, sem fazer música, apesar de todas as dificuldades em se fazer música no Brasil e em particular punk rock. Mas sobretudo a música para mim tem uma função pedagógica e terapêutica de externalizar um sentimento e uma visão de mundo que se guardada acaba muitas vezes nos sufocando.

CESAR HIRO – Eu sou arquiteto e urbanista por formação, trabalhei um certo tempo na área, mas atualmente trabalho como moldureiro em um estúdio de impressão de fine art. Aprendi um pouco de marcenaria com um amigo e foi o suficiente pra me arriscar quando uma amiga me indicou pra esse trabalho. O Ricardo tem formação na área da comunicação, e faz trabalhos como redator e o Minoru é fisioterapeuta e acupunturista. Eu sempre tive banda e vira e mexe me envolvo em outros projetos. Banda é um exercício social e tanto, não é fácil casar agenda de 3, 4 pessoas toda semana.

Através da música fiz a maioria das minhas amizades, nela encontro espaço para produzir livremente as coisas que gosto, seja através de um disco novo, um cartaz para um show, uma foto de uma banda, etc. Através do envolvimento com a cena Punk e todos seus desdobramentos adquiri uma consciência de mundo e sociedade que influenciam totalmente na minha atuação social.

“Garota Suicida” foi o single escolhido para divulgação desse disco da banda. O que motivou a escolha da faixa e se ela foi inspirada em alguma história real?

CAIO UEHBE – Garota Suicida foge um pouco do padrão de músicas do álbum, não sonoramente falando, mas pela temática.

A letra é ficcional e fala de uma garota que flerta com a morte, mas que nunca consuma o fato, como se a graça estivesse na adrenalina por trás desse flerte e não no fato consumado. Como uma espécie de roleta russa, onde você entra no jogo sabendo dos riscos, mas não deseja que a bala esteja engatilhada na sua tentativa.

Nessa sociedade onde as pessoas muitas vezes se encontram sem nenhuma perspectiva de futuro, onde as relações se tornam tão fugazes, com uma liquidez enorme, esse flerte com situações que a colocam em risco acabam sendo a válvula de escape para isso tudo. Como a letra diz: “Ela não pode morrer, a morte não lhe dá prazer”. O prazer está justamente em flertar com a morte e sair vencedor. Perdemos muitas batalhas cotidianamente, mas nessa ela sai vitoriosa.

Talvez justamente por fugir um pouco das temáticas marcantes do punk rock essa música tenha sido a escolhida como porta de entrada para as demais. Por tratar de um tema mais genérico ela acaba atingindo um público maior, público que depois do contato com essa música possa se interessar pelo trabalho da banda e aí sentir o impacto de canções com letras mais fortes e diretas, típicas do punk rock.

Rota 54 – Foto: divulgação

O punk rock ainda tem força na opinião da banda? Quais outros grupos da atualidade vocês indicam para quem busca entender um pouco mais do estilo em dias atuais?

CAIO UEHBE – Seria muita ingenuidade eu falar que o punk é um real instrumento de transformação radical da sociedade como um todo. Acredito que mesmo em seus primórdios ele não se colocava dessa maneira.

Tive o prazer de estudar mais a fundo o movimento punk no meu trabalho de conclusão de curso na graduação em geografia pela USP, e nesse trabalho ficou muito claro para mim que o punk se não transformou radicalmente a sociedade como um todo, ele, ao menos, foi capaz de transformar significamente a vida das pessoas que do movimento fizeram parte.

O movimento é rico porque é um movimento social, político e cultural, existe uma ideologia por trás do movimento marcado pelo lema “faça você mesmo” e com a defesa de bandeiras fundamentais para qualquer sociedade minimamente democrática, mas ao menos tempo há a música no movimento, que não obrigatoriamente está ligada com a política. E a música por si só é revolucionária por propor uma transformação na indústria cultural e na forma de fazer música que se aproxima da juventude sonoramente.

Hoje temos muitas bandas novas na ativa e outras não tão novas que representam muito bem o gênero em suas diversas ramificações como nossos camaradas do Subalternos, Desacato Civil, Fibonattis, 90 em Chamas, Kob 82, Bombers, Armada, O Preço e tantas outras… e lógico o Inocentes que recentemente lançou um EP fudido.

Qual o próximo passo da banda com o lançamento do “Náusea”. Tour, shows, clipes? O que vocês conseguem adiantar?

CAIO UEHBE – Agora a ideia é fazer shows para divulgar esse disco novo e estamos preparando a gravação de um clipe, que será o primeiro da banda, e lógico continuar compondo músicas novas já que estamos em uma fase criativa muito boa com essa formação.

CESAR HIRO – Sem dúvida, a meta agora é tocar bastante e divulgar nosso som por tudo que for lugar. Produzir eventos bacanas e fortalecer o contato com as demais bandas da cena também é importante (sem panelinha). E sem dúvida já ir pensando nas próximas composições, precisamos aproveitar o pique bom que estamos depois de ensaiar bastante para gravação.

Para finalizar esse papo, se uma frase desse novo álbum pudesse simbolizar totalmente o Rota 54, qual frase seria?

CAIO UEHBE – “Sinta o som que vem das ruas e te faz querer viver!”. Acho uma frase que simboliza bem o sentimento da banda e das nossas músicas.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop