segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Nada Pop

#015 – Os 10 álbuns de Rodrigo Lima

Rodrigo Alves Lima, capixaba, formado em direito e frontman de uma das bandas de hardcore mais importantes do Brasil, o Dead Fish.

Exímio letrista, destila ironia e engajamento que incomoda. Em um país binário na forma de pensar, assumir posturas políticas incomodam. Veremos abaixo se as polêmicas limitam-se apenas nas questões políticas ou também aplica-se nas questões musicais.

#015 – Os 10 álbuns que influenciaram Rodrigo Lima (Dead Fish)

10 – PUBLIC ENEMY – IT TAKES A NATION OF MILLIONS TO HOLD US BACK (1988)

Este não foi meu primeiro álbum de música negra que tive, antes disso ouvi bastante Chaka Khan, Run DMC (walk this way tocava no rádio), Michael Jackson. Todos responsáveis pela grande descoberta da minha pré adolescência, o “break”, que era como eu chamava pessoalmente o Hip Hop naquele tempo. Já estava envolvido com o skate e ouvia muita coisa diferente dos garotos da minha idade no Espírito Santo, mas nos idos de 1988 tudo que queria ouvir era “Break”. Acredito que um dos primeiros CDs que tive na vida foi exatamente esse, trazido por minha mãe de uma viagem pra fora do Brasil, junto vieram Erick B. Rakim e MC Shan, mas o P.E bateu feito uma bomba nos meus ouvidos. Tudo nesse álbum me chamou atenção, da capa com dois caras que meses depois se tornariam meus heróis, letras (Don´t belive the Hype), roupas que usavam, até o riff de guitarra em “She watch Channel Zero” que alguns anos depois descobri lendo o encarte que se tratava de um riff do Sr. Kerry King do Slayer. Fora que um disco que termina com uma música chamada “Party for your right to fight” meio que “respondendo” aos companheiros de selo, os Beastie Boys e sua também famosa música “Fight for your right (to party)” do disco Licenced to III de 86, só pode ser perfeito.

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09 – METALLICA – MASTER OF PUPPETS (1986)

Acho que ouvi esse álbum em 1986 não me lembro direito. Ganhei gravado em uma fita k7 bem tosca de um amigo do bairro que estudava no mesmo colégio que eu. Íamos juntos caminhando pra aula falando sobre tudo, de surf até pixação e obviamente música. Ele também me apresentou o skate, um torlay bem tosco que era do seu irmão mais velho do Rio, junto com o skate veio essa fita. O que eu sabia de metal era o que tinha tocado no Rock in Rio I, Iron Maiden e Whitesnake, sinceramente não estava interessado. Só que depois de ouvir o primeiro riff de Baterry simplesmente não consegui mais parar de ouvi-lo e andar de skate na garagem de casa e nas calçadas e ladeiras de onde morava.

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08 – THE CARS – THE CARS (1978)

Paralelamente às minhas descobertas de skate, punk e metal, eu tinha um amigo de rua que vinha de Campinas (SP), ele tinha um irmão mais velho que não estava nem um pouco envolvido com nenhuma dessas culturas que eu estava descobrindo. Ele gostava muito de Van Hallen, Indochine e essas coisas mais “boy” como se falava naquele tempo. Eu ouvi esse álbum do The Cars com eles, acho que no mesmo tempo em que aprendia a dirigir aos 13 anos. Esse álbum é bem do comecinho da década de 80, mas só o ouvi cinco ou seis anos depois. “Just what i needed”, “My best friend´s girl” e “Good times roll” foram músicas que ouvi muito enquanto meu amigo lavava seu carro, caprichava nas rodas e falávamos de, futebol, música e garotas.

Por muito tempo escondi que gostava muito dessa banda por causa do meu envolvimento com o punk/hardcore. Não era nada cool entre os meus pares dizer que ouvi The Cars no meio dos anos 80. Até que um dia descobri que nos campeonatos de skate em São Paulo as pessoas ouviam The Cars e que o Rick Ocasek produziu um álbum foda do Bad Religion o “The Gray Race”, aí pude pagar de vanguarda dizendo que conhecia o Cars desde os anos 80.

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07 – GRINDERS – GRINDERS (1987)

Essa foi a banda que fodeu tudo. Acabou com qualquer sonho de um dia eu me tornar um bom rapaz da classe média capixaba. Só posso agradecer aos Grinders e ao Pobreza por terem destruído literalmente todo aquele condicionamento.

Ouvi os primeiros sons dos Grinders na pista da Praça dos Namorados, provavelmente num campeonato cheio dos meus primeiros heróis do skate, Tioliba, Negão, Dinho e Fred, todos da H-prol. Não tive o álbum de mesmo nome até acho que 92, quando o comprei na Galeria do Rock de SP. Eu ouvi os primeiros hinos dos caras também em fitas K7, acho que cópias da Coletânea Ataque Sonoro, não sei bem ao certo. O que sei é que “Skate gralha”, “Puta vomitada” e “Destrua um monstro nazista” eram ouvidas e repetidas infinitamente não só em casa como nos campeonatos de skate que frequentava. Daí veio meu interesse por outras banda como Cólera, Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes, Replicantes e até a pouco assumida pelas pessoas daquela época que ouviam, a Vírus 27.

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06 – TITÃS – CABEÇA DINOSSAURO (1986)

O que é esse álbum senão a perfeição? Sei até hoje todas as letras de cor. Pra mim naquele tempo era punk do tamanho que o punk deveria ser, mas é muito mais, hoje olhando de longe. Poesia concreta, punk rock/hardcore (ou a música “A face do destruidor não é um hardcore?), new wave, pitadas de New Romantic ou Dark (como queiram), pop, contestação política, quadrinhos da circo, Zé do Caixão, psychobilly, reggae, ateísmo, etc, etc, etc. Esse foi um dos meus primeiros shows em ginásio da vida. O primeiro foi o do Balão Mágico, o segundo do Roberto Carlos e o terceiro foi do Ultraje à Rigor. Todos se tornaram completamente irrelevantes depois do primeira nota de Cabeça Dinossauro e um Branco Mello todo de preto com o cabelo na cara começar a recitar a música e dançar bizarramente bem na minha frente e na frente de uma multidão.

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05 – RATOS DE PORÃO – ANARKOPHOBIA (1991)

Poderia citar o “Descanse em paz” ou o “Brasil” aqui, ambos foram bastante relevantes na minha discografia. A questão é que esse álbum veio no meio de uma miscelânea de novos sons que estava ouvindo. Já estava muito envolvido com o cenário no ES naquele tempo e esse álbum uniu o impossível. Os punks, skatistas, surfistas e metaleiros num só lugar. O clima era tenso, as discussões muitas e bastante irrelevantes e esse álbum pairava acima de tudo isso. Todos nós o ouvimos e muito. Me lembro de festas, brigas de gangue, sessões de skate em Guarapari e shows quando coloco esse álbum pra tocar.

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04 – FUGAZI – REPEATER + 3 SONGS

Conheci o Fugazi antes de conhecer o Minor Threat, podia colocar o Out of step do M.T aqui tranquilamente também, mas como foi o álbum da Dischord que primeiro comprei e o primeiro que ouvi, então vai esse. O cd veio direto da Califórnia pelas mãos de uma namorada em 95, tem escrito na contra capa “Made in France” e “este cd custa $8 com a postagem via Dichord Recs”. Revolução ética, estética e sonora foi a descoberta dessa banda. Depois do Fugazi tudo teve que ser reformulado, repensado e repraticado. Os conheci pessoalmente num festival chamado BHrif em 94, tocamos no off BHrif e eles no festival em si. Só que no nosso show os caras estavam por ali vendo as bandas e dando um rolê. Caras gente fina, sérios, mas atenciosos. Segue a foto do Marcel Dadalto, nosso primeiro guitarrista e fundador pra confirmar http://bit.ly/1iCzfzF – quanto orgulho!!! Olha o primeiro logo da banda? Do Dead Fish, no caso.

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03 – NOFX – RIBBED (1991)

Mais uma vez podia citar outros álbuns dessa banda como o anterior o S&M airlines, mas esse foi o álbum que todos ouvimos juntos no quarto do Marcel Dadalto. Já tínhamos o Stage Dive, que se tornaria Dead Fish em um par de anos, e também uma loja que nos fornecia todas as novidades, a Tarkus. Lembro como se fosse ontem de ouvir o álbum e ler o encarte enquanto os caras piravam escrevendo na parede do quarto do Marcel no mesmo estilo do encarte do 80-85 do Bad Religion. Achei as letras uma bosta, já era muito metido a engajado naquele tempo e as letras não faziam um sentido tão direto pra mim, pareciam umas piadas de americano bem chatas, mas aquela música era sensacional, “Green Corn”, “Showerdays” era algo muito instigante, na linha de um Bad Religion que também amávamos muito, mas tinha algo mais, algo a ser decifrado. Outras instigavam menos como “Where is my slice” e “Together on the sand”, elas não fazia o menor sentido pra mim. Logo depois muito rapidamente fui passando a entender a intenção do Fat Mike com tudo aquilo e passei a achá-lo um gênio do sarcasmo e da filosofia de não se levar a sério demais em nada e isso foi bastante importante para anos vindouros não só como membro de uma banda, mas também como ser humano, pessoa em si.

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02 – MISFITS – WALK AMONG US (1982)

Nunca poderei não citar os Misfits como uma influência direta. Muitas vezes tentei esconder botando umas bandas mais antigas na frente como os Ramones, mas não é verdade. Ouvi muito mais Misfits, Agent Orange, Circle Jerks, TSOL, Faction e Dead Kennedys que Ramones na vida. Hoje ouço exatamente o contrário, mas lá atrás não era assim. Todos gostávamos de Misfits, era como o álbum que citei acima do Ratos. Um ponto nodal entre as diferentes gangues, classes, esportes, bairros, cores, tendências musicais e artísticas daquele momento de mais de uma década. Esse álbum foi o que mais ouvi e pra mim o que tem mais “hits misifísticos”. Sem querer ser injusto com toda a discografia. Lembro de bandas contemporâneas nossas fazendo covers, de discussões entre amigos e inimigos sobre qual era a melhor música do álbum e me lembro perfeitamente também do Steve Caballero usando a clássica camisa da caveira no Animal Chin. Clássico!

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01 – PINHEADS – WHERE IS THE SILVER TAPE (1994)

Olha, eu podia estar roubando, matando, estar citando (gerundismo Übber Alles) o London Calling do The Clash, o Rocket to Russia, dos Ramones, o Living in the Darkness do Agent Orange, mas não. Estou aqui colocando humildemente a segunda demo dos caras do Pinheads de Curitiba como número um da minha lista. Simplesmente porque aquela demo foi o que me incentivou a estar definitivamente numa banda. Se não estou maluco o João Gordo ajudou a produzir essa demo, posso estar errado e ela é, ao meu ver, simplesmente perfeita, irretocável. Cheia da nossa energia dos anos 90 e também, a inocência breve e arrogância eterna de nossa geração. Ela é tosca e bem feita ao mesmo tempo, mal tocada e super bem cantada pelo Paulo Kotze. Lembro da inveja (Não existe inveja branca ou boa, saibam disso) que senti quando ouvi essa demo. Nada nobre, mas me fez, na real nos fez, produzir nossa segunda demo também, a Reprogresso que também sinto muito orgulho. Eu acho os Pinheads a melhor banda daquele tempo naquele estilo e por isso os citei aqui, já que os acho também muito subvalorizados e até esquecidos.

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Saiba mais sobre este álbum clicando AQUI

Adendo por Nada Pop

Em 2001 foi lançado um tributo ao Pinheads com a participação de 24 bandas. Saiba mais sobre este projeto clicando na capa do álbum abaixo:

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Sobre o autor

Thiago Ones

Guitarrista e vocalista do Wiseman, com passagens pelas bandas Bad Shelter & Montgomers. É testemunha ocular do rock underground independente dos anos 90/2000. Além de colaborador do Nada Pop, também é um dos responsáveis pelas redes sociais do Dead Fish.

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